sexta-feira, 27 de março de 2015

Diálogo com o jornalista sobre o Memorial da cabanagem

Reproduzo abaixo o diálogo estabelecido por correio eletrônico com o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto, editor do quinzenário Jornal Pessoal, publicado na seção Cart@s da edição 580 do periódico. Considero Lúcio Flávio um dos intelectuais (aqueles que, segundo ele mesmo, comem pelo menos três vezes por dia e são pagos para trabalhar usando o cérebro como ferramenta) e jornalistas paraenses que tratam de forma mais profícua de importantes questões, levando-as para as ruas e libertando-as de nossa torre de marfim. E não são somente assuntos importantes, mas muitas vezes espinhosos para os que estão na parte de cima da pirâmide do poder, daí a quantidade de processos que ele responde na Justiça movidos por aqueles afeitos a somente receber da imprensa fluxos de irrigação para o imenso jardim de seus reis na barriga.
E ainda assim percebo que com Lúcio Flávio ocorre o que passa com muitos daqueles que possuem essa característica de não recearem expressar suas opiniões e análises, feitas de forma apurada, embora em fluxo contínuo e mote continuado, perante os fatos da realidade, colocando-as à disposição do julgamento e da avaliação históricos, e que discorrem sobre temas por vezes tão delicados: proporcionalmente, deles muito se fala e pouco se reflete sobre o que falam e sobre como falam, como se somente citar seus nomes fosse suficiente para dar pinceladas de enriquecimento aos diálogos mais superficiais, - portar-se como poser, como se fala atualmente.
Eis o diálogo; desfrutem (ou não).

Lúcio Flávio Pinto (foto retirada da página de Rogelio Casado)


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Prezado Lúcio,

Há pouco menos de um ano, deixei de ser leitor intermitente de seu Jornal Pessoal para lê-lo continuamente, o que tem me oferecido bons momentos de reflexão, incentivados por suas análises e provocações. E nesse novo compromisso de leitura que decidi assumir, vem me satisfazendo muito suas publicações sobre a cabanagem, sobretudo o Dossiê n.º 9 deste JP, lançado na recente data dos 180 anos da revolta.
Em um parágrafo da matéria "A revolta nos manuais e numa melhor história" (JP n.º 579, 2.ª quinzena de fevereiro de 2015), você se refere ao Memorial da cabanagem, construído durante o primeiro mandato de governador de Jader Barbalho, em comemoração ao sesquicentenário da revolta.
Ler isso me lembrou um fato: no dia 12 de janeiro de 2012, aniversário de Belém, saía de casa para ir ao trabalho, quando passei em frente a tal monumento, diante do qual fiquei parado por conta do engarrafamento, comuns naquela área na qual este termo e o termo como o local é conhecido infelizmente tornaram-se intercambiáveis.
Na ocasião, notei o abandono em que o monumento se encontrava (e ainda se encontra), e utilizei uma rede social para expressar minha indignação pelas condições do local, acrescentando-lhe observações sobre o fato de que tal obra é uma das poucas em que o famoso arquiteto teve algum tipo de atividade direta no norte do Brasil. Dias depois, resgatei esse desabafo em um blog no qual lanço notas, acrescentando-lhe um poema escrito por Niemeyer.
Passado algum tempo, em novembro do ano passado, recebi um comentário de Kadu Niemeyer, neto de Oscar, no qual agradece pela admiração que demonstrei por seu avô e lamenta o estado da obra, mas afirma não conhecer pessoalmente o monumento, "falha minha que como fotógrafo que desde 1973 vem fotografando os projetos do meu avô e realizando exposições pelo Brasil e mundo a fora. Quem sabe um dia desses vou até aí para registrar o projeto e ou mesmo realizar uma exposição".
Tal comentário me instigou, embora não tenha me deixado surpreso, porque já havia verificado a ausência do monumento em alguns registros da obra do arquiteto, mesmo que seu registro conste, inclusive com esboços, na página eletrônica dedica a Oscar. Ainda assim, procurei um pouco mais sobre o assunto, que à época era um interesse mais lateral, apesar de sua importância, e deparei-me com uma notícia publicada na página eletrônica de Jader Barbalho em dezembro de 2012, na qual o atual senador diz que "[...] nesse momento, em que o mundo todo comenta a morte de Oscar Niemeyer, eu registro o episódio sobre o monumento à Cabanagem, que ele projetou e doou ao nosso Estado. É a única obra erguida, de Niemeyer, em todo o Norte do País. Eu o conheci no momento em que – quando fui governador –o Pará se preparava para festejar o sesquicentenário do movimento da Cabanagem. Eu e o jornalista e historiador Carlos Rocque estabelecemos contato com ele e fizemos muitas reuniões no Posto 6 da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Levamos a Niemeyer extenso material sobre o assunto. Quando o projeto ficou pronto, perguntei qual era o custo e ele me disse haver se encantado com os cabanos e que se sentia devedor depois ter conhecido a história da única revolução no Brasil e na América Latina, na qual o povo havia tomado o poder. E explicou a sua obra, que é a representação de um dedo da mão da história. Um dedo fraccionado, justamente quando os cabanos são derrotados. A mão fica embaixo e o dedo aponta para o infinito, porque a história não termina. Abaixo da mão, está a cripta que guarda os restos mortais de líderes do movimento".
Nesse ponto, cautela é necessária, afinal você já destacou em sua matéria o uso utilitário dado ao acontecimento da cabanagem. Em minha resposta, dada por e-mail e em comentário no blog de Kadu, sugeri sua vinda a Belém para realizar o registro e tentar uma exposição, que, se no momento me escapou a lembrança dos 180 anos da cabanagem, sugeria para os 400 anos de Belém. Recentemente, li n'O Globo que, com a falta de patrocínios para suas exposições e para publicar um livro sobre o avô, Kadu vem trabalhando como taxista, o que tem lhe afastado um pouco da fotografia, apesar de afirmar que pretende seguir expondo e vir a lançar o livro. Ainda espero que o fotógrafo venha a Belém registrar esse monumento e expor, e quem sabe possa trazer informações que, dentre as tantas brumas que rodeiam a cabanagem, nos permitam dissipar as que rodeiam o monumento feito em sua homenagem. E, claro, melhorar a situação em que se encontra.

P.S: compartilho da opinião da ombudsman Cintia Moura dada na edição de n.º 573 do JP (1.ª quinzena de novembro de 2014) da satisfação em encontrar notícias sobre temas distintos, como cultura, por exemplo, do que o quinzenário habitualmente mais destaca. Creio que isso enriquece ainda mais o periódico. Também confesso que, devido a importância e o destaque que o JP deu durante o período de gestação da reforma administrativa promovida por Jatene no fim do ano passado, venho esperando com certa ansiedade, embora sem saber se virá, a análise do editor do jornal sobre os termos e consequências de tal reforma. Ademais, também ficaria feliz se, caso possível, a seção Memória do Cotidiano pudesse trazer algum registro da concentração dos girandeiros com seus brinquedos de miriti, tema que me é caro, durante os antigos Círios ocorridos em Belém.

RESPOSTA DE LÚCIO FLÁVIO PINTO

Realmente, faltou completar a análise sobre a reforma do governo Jatene. Além da falta de tempo para tanta coisa que preciso fazer, estava esperando pela sua maturação para checar a hipótese que levantei. Em miúdos, como diria um açougueiro: trocar seis por meia dúzia. A intenção de acrescentar mais racionalidade e eficiência com menor custo foi anulada pela distância entre a teoria e a prática, uma característica marcante no PSDB.
Loquaz e de boa voz, o governador parece se encantar com suas teorizações, várias delas oportunas e promissoras. Mas ao praticar a administração no dia a dia, o que prevalece é o interesse político e a busca por mais poder - ou, ao menos, manter o que ele já detém. Até agora, o governo é o mesmo neste terceiro mandato.
Registro a importância das informações do Amarildo sobre o monumento da cabanagem. É um exemplo de como um intelectual, com as ferramentas que a academia lhe fornece, especialmente para lhe dar régua e compasso, se interessa pela realidade incluindo-a no processo do conhecimento.

***
OBS. 1: além da resposta que Lúcio Flávio publicou no próprio quinzenário, recebi dele outra por correio eletrônico assim que o jornalista recebeu meu e-mail. Nela, apesar de curta, o editor apresenta argumentos que podem enriquecer a resposta exposta acima. Pensei em acrescentá-la ao texto, logicamente assinalando-a, mas declinei porque não possuo autorização para tanto. Quem sabe em outro momento...
OBS. 2: neste texto, a palavra CABANAGEM aparece com duas grafias (com a inicial minúscula e com a inicial maiúscula). Essa distinção não é trivial, pois relaciona-se com o significado dado à revolta por quem escreve o termo. Decidi utilizar a escrita com letra minúscula para respeitar a forma como Lúcio Flávio se refere à revolta, e somente escrevi com inicial maiúscula ao reproduzir o trecho do texto de Jader Barbalho, que assim a escreveu.
OBS. 3: Jader está equivocado ao dizer que o memorial é a única obra de Niemeyer erguida no norte do país. Na época do desabafo que me refiro no texto, também sustentava tal crença, alimentada pelo elevado ufanismo que nutrimos, o que gera reflexões vulgares e superficiais sobre fatos e relatos, impede o avanço e aprofundamento de pesquisas, e também serve de ferramenta ideológica para os mais diversos grupos. No entanto, pelo menos outra obra de Niemeyer chegou a ser erguida no norte do Brasil, na cidade de Marabá (Pará), doada pelo arquiteto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Denominada Monumento Eldorado Memória, a obra é uma homenagem aos trabalhadores sem terra mortos no episódio conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, durante o governo de Almir Gabriel, que, assim como vosso atual governador - que dele foi secretário de planejamento (1995-1998) e, nos meandros da disputa interna por poder, também ganhou a pecha de preguiçoso -, igualmente do PSDB. Ademais, Manaus está às voltas para que o Memorial Encontro das Águas, projetado em 2005 por Niemeyer, venha a ser definitivamente construído e inaugurado na cidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Papers do NAEA n.º 334 - Notas introdutórias para o estudo da vida associativa dos artesãos de miriti: relatório de campo

Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (serra-serra e barcos). Foto de Amarildo Ferreira Júnior (2014).

Resumo: Esta nota de pesquisa apresenta um relatório de campo de caráter exploratório realizado durante a festividade do Círio de Nazaré, ocorrida em outubro de 2013, e no qual se acompanhou a inserção dos artesãos que criam os denominados Brinquedos de Miriti de Abaetetuba em quatro espaços públicos. Seu objetivo é subsidiar definições metodológicas e de categorias teóricas da pesquisa em andamento sobre a vida associativa no processo criativo desses agentes sociais. Realizado na cidade de Belém (Pará), este estudo coletou dados mediante observação direta dos espaços visitados e de realização de entrevista com alguns artesãos e com algumas pessoas relacionadas diretamente com eles ou com a realização dos eventos dos quais participavam. Em seu decorrer, o relatório apresenta os espaços visitados e descreve as observações realizadas em cada um deles e as informações obtidas durante as entrevistas realizadas. Em sua conclusão, são feitas considerações sobre as contribuições deste tipo de procedimento para a continuidade da pesquisa em curso e demonstra-se como sua realização pode contribuir para uma primeira aproximação empírica com o tema estudado, para a melhor definição das categorias teóricas a se analisar, e para a identificação das limitações metodológicas que a pesquisa pode apresentar.
Palavras-chave: Artesãos de miriti. Vida associativa. Relatório de campo. Círio de Nazaré. Técnicas de pesquisa.

INTRODUCTORY NOTES FOR STUDY THE ASSOCIATIVE LIFE OF MIRITI ARTISANS: FIELD REPORT

Abstract: This research note presents an exploratory field report conducted during the festivity of Círio de Nazaré, which occurred in October 2013, and which followed the inclusion of artisans who produce so called Miriti Toys of Abaetetuba in four public spaces. It aims to support methodological definitions and theoretical categories of ongoing research about associative life inside the creative process of those social agents. Held in the city of Belém (located in the state of Pará in the north of Brazil), this study collected data through direct observation of the spaces visited and conducting interview with some artisans and some people related directly to them or to the achievement of events of which participated. In its course, the report presents the visited areas and describes the observations made in each of them and the information obtained during the interviews. In its conclusion, we discuss the contributions of this type of procedure to continue the ongoing research and demonstrate as its realization can contribute to a first empirical approach to the subject studied, for better definition of theoretical categories to analyze and to identify the methodological limitations that research can present.
Keywords: Miriti artisans. Associative life. Field report. Círio de Nazaré. Research techniques.

Acesse o artigo completo abaixo ou clicando AQUI, e, em casos de citação, recomenda-se a seguinte referência:

FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. Notas introdutórias para o estudo da vida associativa dos artesãos de miriti: relatório de campo. Papers do NAEA, n. 334, p. 1-33, dez. 2014. Disponível em: <http://www.naea.ufpa.br/naea/novosite/paper/408>.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quis custodiest ipsos custodes?

Atualizado em 7 novembro de 2014.

Belém sangra, e os matadores não percebem que atiram no próprio espelho.
Belém chora, e ainda há quem peça mais mortes, pois para esses "bandido bom é bandido morto, e quem sentir pena, adota". Esquecem que, como disse Sérgio Vaz, a chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem. Para estes "meritocratas", existe uma régua com a qual se mede quem é melhor e quem é pior, e tudo bem se quem a utiliza é o mesmo que empunha a macaca ou dirige o camburão, que de Norte a Sul sempre tem um pouco de navio negreiro. Sendo assim, quem vigiará os vigilantes?
Já falei uma vez que não acredito na violência, afinal, o medo dá origem ao mal, como dizia Chico Science. Me recuso, portanto, a depositar minha crença na violência enquanto meio para se alcançar o fim da própria violência, e também me recuso a prescindir de minha liberdade em andar pelas ruas, mães de toda Sabedoria, por medo de uma polícia que decide quem vive e quem morre a seu bel-prazer, aplaudida de pé por quem defende a permanência desse Circo dos Horrores, dessa Fantástica Fábrica de Cadáveres. Devemos nos contentar em lavar copos e contar corpos?
As pessoas são importantes, é por meio delas que os valores são criados. Esse tipo de polícia, que se coloca acima da lei, do bem e do mal, é?

Eis a tragédia. Não a desfrute.

Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie

P.S.

Segundo dados da Anistia Internacional, só no ano de 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. É esse o perfil das vítimas de ações de extermínio como as que ocorreram em Belém na noite de terça e na madrugada de quarta-feira: jovens, negrxs/caboclxs, pobres, que vivem na periferia.
São pessoas vitimadas tanto por problemas socioeconômicos estruturais, quanto pela violência, esta mesma originária da maioria desses problemas socioeconômicos que se perpetua quando o Estado está presente quase sempre somente com sua fachada perversa. São pessoas vitimadas, portanto, por violências simbólicas e concretas, sejam estas praticadas pelos criminosos presentes nessas áreas de periferia, que são oprimidos que oprimem outros oprimidos; seja praticadas por agentes públicos, estes também oprimidos que oprimem outros oprimidos e, o que se torna agravante, investidos de prebendas burocráticas que se por um lado os transforma em representantes do Estado no momento do exercício de suas atividades, por outro lado não lhes permite que utilizem-se da própria posição que ocupam para extravasar um tipo de poder que, para o próprio bem da sociedade em geral, sem essa distinção hipócrita e moralista que define com base em preceitos sociocentristas quem é e quem não é cidadão de bem, não deveria lhes ser outorgado.
Infelizmente, ações como essas que ocorreram em Belém, que fogem da legalidade e são prenhes de uma discrição corrompida, demonstram que seus realizadores estão revestidos de uma crença de que estão acima da lei, do bem e do mal, e que por isso podem ser os julgadores e executores de um tipo de sentença, que se constitui em sentença de morte, um tipo de sentença que se não tem existência legal no Brasil, acaba por existir de forma "real", basta olhar um pouco mais com acuidade para a realidade das nossas periferias. Mais infelicidade é ver que tais ações ganham ecos de defesa por parte da população, o que se expressa nos embustes de que "bandido bom é bandido morto", "direitos humanos para humanos direitos", etc, quase sempre seguidas da expressão "e quem acha ruim, adota, leva pra casa, etc." ou dos impropérios de "defensor de bandido", "protetor de vagabundo", "quem defende bandido é porque tá se beneficiando de alguma forma", etc. Ou seja, o discurso de quem defende esses tipos de ação como sendo a panaceia para o problema da violência é, ao repetir tais frases como papagaios recalcados, medíocre e acrítico, para ficarmos somente nesses dois adjetivos.
O resultado vocês podem ver no número de pessoas mortas e no medo instalado que esvazia espaços públicos e contribui para aumentar a sensação de insegurança. E, infelizmente, todos nós somos culpados por isso. Esse sangue tá na mão de cada um de nós: de quem pede a redução da maioridade penal achando que ela vai acabar com a violência quando somente vai vitimizar quem é já é vitimizado há anos nesse país, as crianças; de quem pede que mais e mais bandidos sejam mortos e ignora que se o problema da violência não for tratado de uma outra forma "se eu morrer, nasce outro, igual ou pior ou melhor" e mais e mais sangue irá cair sobre a terra, vindo de todos os lugares; e de quem se cala diante disso, seja por medo, seja por comodidade.
Nessa tragédia, não existe inocentes; no máximo, inocentados.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

No Pará, nasceu um político fisiológico


Quando tentei responder a pergunta se o povo realmente é burro, dado os resultados do primeiro turno das eleições, acabei por terminar o texto acrescentando outra reflexão, que era justamente sobre a constituição do radialista Jefferson Lima (PP) como importante ator político, mas daqueles que têm sua importância pelos estragos e prejuízos que pode causar. E hoje a capa do Diário do Pará apresenta o referido radialista de mãos dadas com Helder Barbalho (PMDB), a quem declara apoio, depois de ter-se falado que seu apoio no segundo turno seria para o tucano Jatene, a quem já apoiava na primeira rodada dessas eleições.
Aliás, Jefferson Lima foi candidato a senador pela coligação de Jatene, minando a candidatura de Mário Couto, então detentor da vaga. Nisso Couto perdeu sua cadeira no Senado, que foi parar aos pés de Paulo Rocha, mesmo este tendo sido réu no esquema do mensalão e absolvido por falta de provas, o que, se o absolve das penas da lei, não o deveria absolver do julgamento nas urnas, afinal, falta de provas, em termos políticos, não redime qualquer candidato que seja. Políticos nunca são inocentes!
A "debandada" de Lima para o outro lado da oligarquia política paraense, mostra que Jatene alimentou político ganancioso que pode ser o principal responsável por sua derrota no segundo turno. Talvez Jatene esteja lembrando-se de quando ele próprio fora alimentado pelo agora adversário Jader Barbalho e pelo falecido coronel assassino de sem-terras Almir Gabriel, que, peitado por sua cria, rebarbou-se em eleição passada, dando apoio à Ana Júlia (PT) num pleito contra um candidato de seu partido, o já citado Jatene.
Vê-se que, em matéria de política, o Pará é dado a circularidades!
Interessante nisso tudo é que Lima diz que apoia porque não recebeu o apoio que queria e que acha que deveria receber de Jatene, o que o fez ir para os braços do PMDB, este sim um partido fisiológico por excelência. Ainda resta dúvida de que, no Pará, tanto Helder quanto Jatene são no fundo mais do mesmo que sempre causou tanto estrago para o Estado?

Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Feira do Miriti na Festa do Círio*

*Versão com ligeiras modificações do texto que publiquei na edição de hoje (09/10/10) do jornal Diário do Pará (Caderno Cidade, Espaço do Leitor, p. A2), que vocês podem conferir ao final desta postagem.
 
Foto de Amarildo Ferreira Júnior
Foto de Amarildo Ferreira Júnior (2014)
Época de festa e de celebração cultural-religiosa, o Círio de Nazaré também é a época em que os Brinquedos de Miriti de Abaetetuba trasladam-se para a capital para colorirem as ruas e integrarem a estrutura extralitúrgica da festividade. Segundo o consenso histórico, tal artesanato-artístico está presente desde o primeiro Círio, em 1793, quando ocorreu a “Feira de Produtos Regionais da Lavoura e da Indústria” no local onde hoje é a Praça Santuário e que foi o embrião do que atualmente é o Arraial de Nossa Senhora de Nazaré. Em todos esses anos, a relação que esses brinquedos que deixam nossos olhos em festa mantêm com nossa magna celebração cultural-religiosa só aumentou, tendo propiciado a criação de feira própria.
Inicialmente na Praça do Carmo, local onde se deram os primeiros ajuntamentos espontâneos dos artesãos de miriti e suas girândolas durante a quadra nazarena, a feira já ocorreu também na Praça da Sé e, posteriormente, na Praça Waldemar Henrique, onde permaneceu por muito tempo, até ser transferida para a Praça D. Pedro II no ano passado, após separar-se da feira que o Sebrae ainda mantém na antiga Praça Kennedy.
A Feira do Artesanato de Miriti deste ano será inaugurada às 18h00 desta quinta-feira que antecede o Círio, após Cerimônia de Abertura na Catedral da Sé. Com a temática “Girândolas de Abaeté no Círio de Nazaré”, está sendo realizada pelo esforço conjunto dos artesãos de miriti, por meio da Associação dos Artesãos de Brinquedos e Artesanatos de Miriti (Asamab), com recursos obtidos por meio de emenda parlamentar com execução da superintendência estadual do Iphan. Segundo estimativas da Asamab e da Emater, só durante o Círio de Nazaré o artesanato de miriti movimenta cerca de 200 artesãos, gera trabalho para um número entre 600 e 800 pessoas em 38 comunidades rurais e urbanas de Abaetetuba, e comercializa em torno de 400 mil peças, gerando uma renda situada entre R$ 2 e R$ 4 milhões. Além disso, essa atividade ainda contribui para a preservação do miriti e de essências florestais em uma área com cerca de 800 hectares.
Mesmo assim, falta coerência do Governo do Estado em suas políticas voltadas à cultura, pois seria sensato que garantisse em seus próximos orçamentos recursos destinados para a valorização desse tipo de artesanato tão particular, uma vez que mesmo com seu reconhecimento como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará por meio de duas leis (Lei n.º 7.282/2009, para o MiritiFestival; e Lei n.º 7.433/2010, para os Brinquedos de Miriti), parece-nos que é considerado mais útil como ilustração de algumas das propagandas oficiais do que como expressão cultural com vastas importâncias sociais e econômicas para o Estado. E isso deve se estender também aos outros patrimônios culturais que o Estado reconheceu. Afinal, qual é a lógica das políticas culturais estaduais para tais patrimônios?

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O povo realmente é burro?




Cartum d0 Henfil (retirado do livro "Henfil nas eleições")

Madrugada de terça-feira e resolvi escrever sobre um incômodo que me importuna cada vez mais desde os resultados do primeiro turno das Eleições 2014. É algo ao qual estou sensível nos últimos dias, embora já o tenha reproduzido no passado: o discurso de que o povo seria burro, por isso o resultado dessas nossas eleições. É lógico que não estou contente com o que saiu das urnas, as quais definiram um aumento da quantidade de legisladores (nos níveis estaduais e federais) que podem ser "qualificados" sem receio como conservadores, alguns inclusive de reacionários. Mas daí pra repetir com soberba que "nego é burro, burro, e continua votando errado" há muita coisa a ser considerada

Vejamos o Pará, por exemplo, que elegeu para a Alepa um coronel da polícia militar, e cujo deputado federal mais votado (e de maneira expressiva) foi Éder Mauro, delegado. Expressão clara de que os eleitores estamos preocupados com a escalada da violência e insatisfeitos com as políticas públicas de segurança. Porém, eleger Éder Mauro não é continuar investindo numa política de segurança que não vem dando certo, pois a reduz à repressão e ao uso da força? Elegê-lo também não é reforçar a crença de uma violência ubíqua, mesmo sabendo-se que a violência não se distribui de forma igualitária no espaço urbano, variando em sua intensidade e qualidade dependendo do lugar onde se está e de quem ali está? Reforçando-se essa ideia só se contribui para aumentar a anemia do espaço público, encolhendo-o, deteriorando-o e restringindo-o nas cidades contemporâneas como bem mostra Marcelo Lopes de Souza em seu livro Fobópole: o medo generalizado e a militarização da questão urbana. Essa contribuição que o Pará dá para a chamada bancada da bala será sentida nos rumos que serão dados a questões tão importantes, como a redução da maioridade penal; a descriminalização do consumo de entorpecentes e a legalização e regulamentação de sua compra e venda; a desmilitarização das polícias; a descriminalização e legalização do aborto; e a regulamentação do porte de arma, por exemplo. Claro me parece que essa maneira de tratar segurança pública somente cria impunidades seletivas  e, retomando novamente Souza, reduz a mobilidade intraurbana geral, criando e reforçando exclusões e autoexclusões. Foi o que Marcelo Yuka nos disse anos atrás sobre a dúvida que as grades dos condomínios trazem consigo, e reforçou recentemente quando disse que, junto a seu irmão, passou a temer a cidade toda vez que se fala em proteção.

Para finalizar o tema segurança pública, costumo dizer que não acredito na violência, o que pode parecer estranho com tantas notícias que nos chegam pelos mais diversos veículos da mídia, pela conversa com conhecidos ou desconhecidos, e muitas vezes também pelo revólver que nos interpela aqui e acolá, mas que nem sempre vem despido de uniforme, afinal, ainda é frequente a ocorrência de fatos que nos fazem crer que o diabo veste farda, como li num muro na esquina da Avertano Rocha com a 16 de Novembro. Mas, contraditório, não acredito nela sabendo de sua existência e convicto de que a melhor forma de combatê-la não é rendendo-lhe tributo ou depositando-lhe minha fé e meu medo. E essa a-crença, minha alétheia particular, me tem sido útil até então, pois aprendi desde cedo a não temer as ruas e acredito que quem teme as ruas não soube amá-la nem respeitá-la como fonte de sabedoria que é.

No entanto, voltemos ao tema que o título desse texto suscita. Creio que disse que estava descontente com os resultados da eleição, mas deveria ter dito que estou descontente com essa eleição, independente de seus resultados, pois mais uma vez fomos impelidos à busca do candidato menos pior para depositarmos nosso voto e a ilusão que ele carrega nesse nosso sistema de democracia representativa (Maurício Tragtenberg apresenta muito bem isso em artigo de 1982 que tomo a liberdade de não pedir licença para reproduzir aqui um trecho que, quase em tom profético, fala muito sobre o PT de hoje: "O Partido dos Trabalhadores que inicialmente constituiu esperança de valorização da auto-organização dos mesmos, ao eleger o caminho eleitoral tende a formar, em cada trabalhador vereador, deputado ou senador, um ex-trabalhador.// Se não definir com clareza seu objetivo em termos de mudança estrutural, poderá ser cooptado pelo regime transformando-se em seu 'braço esquerdo'").

Mas, somente começaram a se delinear os resultados desse primeiro turno e as redes sociais ficaram alvoroçadas como é de seu feitio, repetindo como papagaios recalcados que o povo é burro e sem memória; que o gigante acordou, bebeu água, pegou vinte centavos e dormiu; que protestamos como nunca, mas votamos como sempre; que necessitamos de vestibular político; que não adianta mais protestar depois desses resultados; e uma série de impropérios. Impropérios contra O povo, como se a culpa residisse nos outros, nas terceiras pessoas do singular e do plural, estas sendo, portanto, o povo. Ledo engano, afinal, quando se trata de política, essa ação impura e forma moderna da tragédia, não existe inocentes; no máximo, inocentados. Será que aí não está implícito um preconceito medioclassista/elitista com o popular? Tenho fortes razões para crer que sim.
E é triste ver que isso é um pensamento e um argumento reproduzido muitas vezes sem se debruçar minimamente sobre ele. Estendo a ele a mesma reflexão que fiz no texto (Foi pra rua? Vem pra urna!)?!: a de que sua reprodução pode contribuir para o desvanecimento da participação política tão importante para o impulsionamento de mudanças estruturais que nos são necessárias, com as quais nos será permitido ver uma possibilidade de não mais engolir o pior ou, quando muito, o menos pior.
O povo não é burro, talvez só esteja perdido em meio à pobreza extrema que ainda atinge cerca de 16 milhões de brasileiros; à educação em más condições físicas e qualitativas; ao pouco acesso à informação de qualidade, apesar da internet, que mesmo assim só consegue alcançar um pouco mais da metade do total da população; às condições resultantes do sistema eleitoral, que privilegia candidatos cujos bons recursos econômico-financeiros não harmonizam com seus conceitos políticos e que estimula alianças espúrias; dentre tantos outros fatores que, redutores da equidade, impossibilitam um cenário de escolha ótima.
Vejamos a Lei da Ficha Limpa, que torna inelegível candidatos que foram condenados por decisão de órgão colegiado, mesmo com possibilidade de recurso, que tiveram mandato cassado ou que renunciaram para evitar cassação. A lei é um avanço, mas incorre no depósito de confiança no seu cumprimento pleno e na realização "justa" da Justiça. Como crer cegamente nela quando há no país uma impunidade seletiva? Assim, a Lei é somente um mecanismo a ser considerado, pois o fato de ser "ficha limpa", isto é, de não ter sido tornado inelegível nos termos dessa lei, não é comprovante de idoneidade, como muitos políticos querem que acreditemos e acabam por utilizar essa própria lei para seu arsenal de marketing. Tais políticos que se orgulham de serem "ficha limpa", utilizando o termo quase como um título de nobreza inarredável do seu nome, devem entender, e nós eleitores principalmente, que ser "ficha limpa" é o mínimo necessário, sem o qual não há sequer possibilidade de candidatura, não sendo diferencial nenhum e, portanto, não deveria ser motivo de orgulho e tampouco de elemento de diferenciação na hora de escolher em quem votar. Orgulhar-se de ser "ficha limpa" é como dizer-se bom cidadão por pagar seus impostos. É orgulhar-se daquilo que é a lei o obriga a ser. E ainda assim nós eleitores somos tocados por esse discurso. Há burrice nisso? Não, o que há é pouca criticidade, e isto sim é arma de grosso calibre apontada para própria testa.
Para finalizar com uma reflexão que talvez fuja um pouco da proposta deste texto, quero expressar minha preocupação com algo nessa eleição: o despontar de um importante ator político, Jefferson Lima. Já falei sobre a demagogia a la Wlad deste que foi o segundo candidato mais votado para o cargo de senador no Pará - o qual, ouvi dizer por aí, a cada voto recebido caia uma lágrima da urna eletrônica (referência a uma propaganda em que o candidato aparece chorando tal qual crocodilo para convencer os eleitores a votarem nele).
Me preocupa sua ascensão como político que pode decidir, e sempre para o que considero como pior para nós, os resultados finais de uma eleição. Jefferson, por exemplo, ficou à frente nessas eleições de Mário Couto, tão péssimo político quanto ele, tendo 741.427 votos, ou 29,92% dos votos (ainda assim, 24,28 pontos percentuais a menos que o candidato eleito, Paulo Rocha, do PT, que, como quase todo o seu partido, sofre do que o trecho do artigo de Tragtenberg citado mais acima expressa). Nas eleições para prefeito de Belém, a qual se candidatou, Jefferson Lima obteve 99.714 votos, ou 12, 89%, ficando em terceiro lugar e tendo contribuído consideravelmente para a vitória do tucano Zenaldo Coutinho, também conhecido como Zenálcool ou Zenaldudu Coutinho Costa (belenenses entenderão).
Jefferson Lima é ganancioso, e vem tendo provas do poder político que tem, o que pode gerar péssimas surpresas para nós já nas próximas eleições municipais. E, mais do que isso, como me disse Larissa Guimarães quando lhe expressei essa minha preocupação, seu estrago certamente não se restringe aos cargos eletivos, pois a força que adquire para barganhar posições para si ou para os seus na formação do próximo governo também são preocupantes. Ao que parece, engendrou-se um político fisiológico no Pará.

Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,

sábado, 27 de setembro de 2014

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Bobbin Winder

Bobbin Winder, 1885, Vincent van Gogh (1853-1890)
"[...] creia-me, as 'pequenas misérias' também têm seu valor. Às vezes ficamos desolados, há momentos em que acreditamos estar no inferno, mas há ainda outras coisas, e melhores".
(Vincent van Gogh, Etten, 3 de setembro de 1881)

Fora, Temer!