Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O artesanato de miriti e os espaços públicos da cidade de Belém (capítulo de livro)

Amanhã (12/01), Belém, capital do Pará, completará 400 anos da construção de um forte às margens da Baía do Guajará, acontecimento tido como o marco temporal da fundação da cidade e que por isso define seu aniversário. É uma data redonda que, como tal, tem levado a diversas programações (oficiais, oficiosas e alternativas) de comemoração e/ou reflexão crítica sobre a cidade. Por enquanto, não entrarei no mérito de discutir a qualidade, a quantidade e a intencionalidade dessas programações, atitude necessária, vale ressaltar, que vem sendo tomada por diversas pessoas nestes tempos - por algumas, desde tempos antes deste -, com as quais entro em acordo em diversos pontos. Deixo para outro momento a expressão de uma reflexão um pouco mais profunda sobre o tema, talvez colocando-a aqui neste espaço, mas com certeza levando-a para a rua, onde deve estar todo o pensamento que se pretende crítico (não compreendo os intelectuais críticos que supostamente desejam forjar contra-poderes que temem elas, as ruas, que, como eu lhes disse outrora, são mães de toda a Sabedoria).
Portanto, hoje, acho importante destacar o óbvio: Belém não é vivida, concebida e percebida somente por quem é belenense ou nela vive, e por isso não há impedimento para uma ligação íntima com a cidade dessas muitas pessoas que não vivem cotidianamente Belém, e igualmente não há impedimento para a contribuição dessas pessoas para que Belém seja Belém, principalmente uma Belém melhor. Por isso, deixo abaixo um texto que fala sobre um grupo social que vive nossa cidade um pouco mais de longe, do ponto de vista físico, do que nós, que aqui moramos, mas que nutre afetos por Belém, e de como ocorre a produção social de alguns espaços públicos desta cidade durante a festa do Círio; tais espaços têm em comum o fato de serem locais para onde fluem essas pessoas, conhecidas como artesãs e artesãos de miriti de Abaetetuba, cidade distante cerca de 70 km da capital, que presenteiam anualmente a cidade com um dos principais símbolos de sua principal festa, os Brinquedos de Miriti de Abaetetuba, que são uma festa do olhar, como já disse o poeta J. J. Paes Loureiro, dentro da festa da Naza.




Sobre o texto: Este é o quinto capítulo do livro Sociedade, campo social e espaço público, organizado pelos professores Edna Maria Ramos de Castro e Silvio Lima Figueiredo e publicado pela editora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), inaugurando a série "Desenvolvimento e sustentabilidade".
No livro constam trabalhos de pesquisa de professores e discentes do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU), do NAEA, elaborados numa perspectiva interdisciplinar com contribuições teóricas e metodologias trazidas por disciplinas da grande área de humanidades, dividindo-se em três partes: (1) estudos sobre transformações sociais, econômicas e territoriais; (2) artigos que tratam da área da comunicação e informação sob várias perspectivas e recortes temáticos; e (3) discussões de questões relativas à desigualdade social, políticas públicas e modelos de gerenciamento de bens e recursos públicos.
Localizado na primeira parte do livro, este capítulo demonstra a produção dos espaços usados pelos chamados artesãos de miriti de Abaetetuba durante os festejos do Círio de Nazaré, que ocorrem anualmente no mês de outubro, em Belém, capital do Pará, apresentando as diferenças entre esses espaços da cidade e suas consequências para os artesãos.


Em caso de citações, recomendo o uso da seguinte referência:
FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. O artesanato de miriti e os espaços públicos da cidade de Belém. In: CASTRO, E. M. R.; FIGUEIREDO, S. L. (Org.). Sociedade, campo social e espaço público. Belém: NAEA, 2014. p. 74-88.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Sobre salvajes*

*poema publicado no livro Un dragón y otros poemas, compilado pelo brasileiro erradicado na venezuela Luiz Carlos Neves, e distribuído gratuitamente pela Misión Cultura ¡Corazón adentro!, programa social para incentivo da leitura do governo venezuelano.
Imagem de Sebastião Salgado

Los pemones de la Gran Sabana
llaman al rocío Chirike-yeetakuú
que significa Saliva de las Estrellas.
A las lágrimas Enú-parupué
que quiere decir Guarapo de los Ojos.
Al corazón Yewán-enapué,
Semilla del Vientre.
Los waraos del Delta del Orinoco dicen Mejo-koji
el "Sol del Pecho" para nombrar el Alma.
Para decir amigo dicen Ma-jo karaisa,
"Mi otro corazón".
Y para decir olvidar dicen: Emonikitane,
que quiere decir "Perdonar".
Los muy tontos no saben lo que dicen.
Para decir Tierra dicen Madre.
Para decir Madre dicen Ternura.
Para decir Ternura dicen Entrega.
Tienen tal confusión de sentimientos
que con toda razón las buenas personas que somos
los llamamos Salvajes.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Eu, revirador de merda*

 *trecho do capítulo do livro Trilogia Suja de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez (abaixo)

[...]
 
Hoje não estou a fim de negócios. Tenho vinte dólares no bolso. E isso é uma fortuna. Estou pensando em reescrever aquele conto sobre o Rogelio que começava assim: "Não caguem mais no terraço, porra!" Em Cádiz não quiseram publicar porque tinha porra na primeira linha (não entendo, Dom Quixote é um catálogo de palavras assim. Bem, talvez Dom Quixote não seja um bom exemplo para a literatura. Afinal, Cervantes morreu na miséria). Eles me disseram: "É muito forte". Rá. Não sabem o que é forte. Vou reescrever o conto, mas o porra fica lá mesmo. É um porra inarredável.
Ao meu lado se senta um negro muito velho e sujo, com vontade de conversar. Diz que foi patinador da morte e marinheiro. Conheceu todos os continentes. Descia nos portos com seus patins. Até em Nova York apresentou seu espetáculo, três vezes. Levanta a camisa e me mostra umas correntes. Está tudo acorrentado no cinto: a carteira, uma faca enorme, umas sacolas de náilon com papéis e um frasco de alumínio. Aprendeu com um grego a bordo do Caiman Island. Eu o ouço um pouco, mas não. Então me despeço o mais amavelmente que posso e me sento num outro banco. Já está muito escuro e não quero ninguém por perto. Se me roubarem os vinte dólares, fico na lona.
O velho me fez perder o fio do conto do Rogelio. Escrevi há vários anos. Rogelio tinha acabado de morrer e imaginei muitas coisas da vida dele. Não é um bom conto. A realidade é melhor. Nua e crua. Tal como está na rua. Você a pega com as duas mãos e, se tiver força, ergue do chão e a deixa cair na página em branco. Pronto. É fácil. Sem retoques. Às vezes a realidade é tão dura que as pessoas não acreditam. Leem o conto e dizem: "Não, não, Pedro Juan, tem coisas aqui que não funcionam. Você forçou a mão inventando." Mas não. Nada é inventado. Só tive força para pegar toda a maçaroca de realidade e deixá-la cair de supetão em cima da página em branco.

[...]

Então preciso reescrever o conto. Agora vai ser muito mais forte. Sem mentira nenhuma. Só mudo os nomes. Este é meu ofício: revirador de merda. Ninguém gosta disso. Não tapam o nariz quando passa o caminhão de lixo? Não escondem as latas de lixo nos fundos? Não ignoram os varredores nas ruas, os coveiros, os limpadores de fossas? Não ficam enojados quando escutam a palavra carniça? Por isso também não sorriem para mim e olham para o outro lado quando me veem. Sou um revirador de merda. E não é que esteja procurando alguma coisa no meio da merda. Geralmente não encontro nada. Não posso dizer: "Ah, vejam, encontrei um brilhante na merda, ou encontrei uma boa ideia, ou encontrei um negócio bonito." Não é bem assim. Não procuro nada e não encontro nada. Portanto, não posso demonstrar que eu sou um sujeito pragmático e socialmente útil. Só faço como as crianças: cagam e depois brincam com a própria merda, cheiram, comem e se divertem, até que chega a mãe para tirá-las da merda, dar um banhinho, passar perfume e explicar que não podem mais fazer aquilo.
Mais nada. Não me interessa o que é decorativo, nem o que é belo, nem o que é doce, nem o que é delicioso. É por isso que sempre duvidei de uma escultora que foi minha mulher por algum tempo. Suas esculturas tinham paz demais para serem boas. A arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira pode nos mostrar a outra face do mundo, aquela que nunca vemos ou nunca queremos ver para não causar incômodos à nossa consciência.
É isso. Nada de paz e tranquilidade. Quem atinge o repouso em equilíbrio está perto demais de Deus para ser artista.
[...]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Eu queria ter um título para esta postagem


Lendo hoje o livro A ética protestante e o espírito capitalista, do alemão Max Weber (1864-1920), me deparei com o trecho a seguir:

"[...] esta ideia peculiar do dever profissional, tão familiar a nós hoje, mas, na realidade, tão pouco evidente, é a mais característica da 'ética social' da cultura capitalista, e, em certo sentido, sua base fundamental. É uma obrigação que o indivíduo deve sentir e que realmente sente, com relação ao conteúdo de sua atividade profissional, não importando no que ela consiste e particularmente, se ela aflora com uma utilização de seus poderes pessoais ou apenas de suas possessões materiais (como 'capital')".
(p. 33-4)

Inferir algo desse trecho é tarefa complicada, posto que a leitura de Weber, em geral, é densa, o que requer um arcabouço de conhecimentos claros e específicos para sua sustentação. Além disso, é necessário que se verifique o contexto em que o trecho extraído está inserido, levando-se em consideração, portanto, as análises e reflexões anteriores e posteriores elaboradas pelo autor, para não incorrer no erro, intencional ou ingênuo, de distorcer a significância presente na passagem.
Deste modo, e expondo o que de imediato pensei e refleti ao ler a passagem acima, deixo minha crítica a um fenômeno recorrente: a (de)limitação do pensamento sob a justificativa da formação. Bem, sou ciente do fato de que a divisão do conhecimento técnico-científico e da atuação profissional em áreas tem seus benefícios tanto ao indivíduo, quanto à Sociedade, pois define expertises e responsabilidades; entretanto, percebo que há, sobretudo no capitalismo ocidental, certa atuação destinada a fracionar a completude do indivíduo (com relação a este ponto, sugiro a leitura de Ana Cristina Limongi França, que apresenta o conceito de homem biopsicossocial).
Na prática, percebe-se, embora de forma tênue e sutil, posto esconder-se por trás de falácias e engodos, a redução do poder de atuação do indivíduo e de seu campo de atuação, sobretudo político e social. Em minha monografia abordo, embora superficialmente, como a lógica atual reduz o indivíduo, descaracterizando a relação com sua classe social ao colocar pessoas de uma mesma classe social em posições e funções diferentes, geralmente com objetivos divergentes (isto considerando-se a ideia de Fernando Prestes C. Motta e Isabella Gouveia de Vasconcelos de que a organização é uma arena política com conflitos pela propriedade de recursos).
Além dessa ruptura com a identidade de classe, há a gênese de grupos profissionais que passam a ter um conjunto pré-definido de temas e assuntos que devem estudar, "discutir" e que lhes são restritos, originando, por exemplo, formas de comunicação limitadas a esses grupos, como é o caso da Administração (ciência na qual tenho formação) e seus campos de conhecimentos afins e adjacentes - prova disso é a "série" de postagens GesLinguística que mantenho aqui no Monkey Club.
Esses dialetos profissionais, em minha análise, atuam pelo menos de duas formas: como elemento constituinte da identidade dos membros desse grupo (na variante positiva, que pode ser pela identificação, por meio do vocabulário, das pessoas que possuem interesses idênticos e que, portanto, podem interagir e enriquecer seus conhecimentos desse assunto por meio de interações; e na variante negativa, quando, por exemplo, não raramente um indivíduo desconheça algum termo presente em sua língua profissional tem colocado em dúvida o seu real merecimento em pertencer àquela classe); e como meio de contenção do saber, e do poder que este contém, ao evitar o entendimento dos temas e assuntos discutidos por quem é alheio àquela formação (com relação a esse efeito, minha crítica se baseia justamente nessa contenção de saber que, de acordo com a perspectiva até então adotada, perpétua o status quo e a lógica vigente, recaindo, ainda mais, sobre mestres, doutores e demais pesquisadores, que, frequentemente, realizam seus estudos e pesquisas de dentro da academia para dentro da academia, restringido o acesso a um grupo de "intelectuais" que jazem inertes com seus títulos pomposos, no que Maurício Tragtenberg, de forma mais profunda, ampla e detalhada, definiu de delinquência acadêmica).
Divagações a parte, o objetivo desta postagem é justamente expressar minha discordância desta lógica vigente. Esta (de)limitação da atuação do indivíduo gera disfunções sociais, pois não permite interdisciplinaridade na discussão de assuntos que não podem ser analisados sob apenas uma perspectiva. Aliado a esse condicionamento, ou originário dele, há a omissão de grupos profissionais na discussão de assuntos no qual sua participação é não somente necessária, mas primordial ao encontro de uma solução.
Como agravante, ainda existe uma dupla atuação direcionada à manutenção de debates pobres em perspectivas: a exclusão da discussão de alguns grupos sob a justificativa de terem características e qualificações que não os credenciem a participar do debate, e a própria autocensura de membros de tais grupos. Desse modo, o contador fica fadado às suas atuações empresariais, bem como o administrador se perpetua na atuação mercadológica, negando ou desconhecendo suas possibilidades de contribuição aos campos sociais, políticos e até mesmo ecológicos, dentre outros.
Durante minha graduação, por exemplo, nos raros momentos em que a discussão não era relacionada a aspectos administrativos privados e mercadológicos, os quais foram predominantemente a cerca do embate ideológico entre capitalismo e socialismo, no qual me colocava a favor do segundo (na época, minha ideologia política era "enlatada", e hoje, talvez pelo contato com uma variedade maior de conhecimentos e experiências, é mais livre, embora preso a alguns pré-conceitos), sempre fui questionado sobre como alguém que estava estudando para ser administrador se colocava contra o capitalismo, o que expõe o débil pensamento predominante de que a administração só é necessária no modelo econômico atual de busca incessante de lucro e que coloca a propriedade privada em plano superior à equidade, ao bem-estar social pleno e à vida. Minha resposta na época, e ainda hoje, é que pensar desta forma é colocar o intelecto no cabresto, afinal, o ideal socialista não é imcompatível com a aplicação do conhecimento das técnicas administrativas, pois vigora como meio de produção e, como tal, necessita de aplicação de técnicas para organização desse processo, porém tendo como objetivo o benefício do bem social.
Por fim, quero afirmar que há necessidade de se pensar não somente dentro dos vértices de sua atuação profissional, mas de expandir esses conhecimentos para serem aplicados em outros campos e buscar outros tipos de conhecimentos, em especial aqueles complementares, sem necessidade, no entanto, de se tornar um polímata. Precisamos ser mais parentéticos (sobre esse termo, sugiro a leitura deste artigo) como apresentou Guerreiro Ramos, abrindo portas, ampliando nosso poder de visão e, principalmente, extravasando o melhor da gente.

domingo, 3 de junho de 2012

Manifesto da antropofagia periférica


por Poeta Sérgio Vaz, no livro "Literatura, pão e poesia" (Global Editora)



A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.

Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar. Do teatro que não vem do "ter ou não ter...". Do cinema real que transmite ilusão. Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.


Banksy, London, 2011
A Periferia unida, no centro de todas as coisas.

Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? "Me ame pra nós!". Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.



Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.



É TUDO NOSSO!


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Outro dia vi esse texto no facebook...

Atualizado em 04 jan. 2016

... e achei muito legal, afinal, sou leitor assíduo e gosto de, vez ou outra, fazer uma propaganda dos benefícios que isso (a leitura) traz. Não sabia quem tinha escrito o texto, mas, numa googada, o encontrei em diversos sites e blogs e constatei que seu autor é Bruno Palma e Silva, que mantém o blog acepipes escritos. Espero que vocês também gostem do texto e passem a ler mais, ou a namorar mais gente que lê. É mais saudável... e inteligente!

Imagem obtida no site Mães à obra

Namore um cara que lê NAMORE QUEM VOCÊ BEM ENTENDER!!!


"Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos.
Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras.
Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.
Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.
Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo – e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.
Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e – talvez não admita – sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances.
Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência.
Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo.
E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.
Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar – com o coração aquecido – para o seu lado.
Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.
Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouvi-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho.
Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do 'e eles viveram felizes para sempre', namore um cara que lê.
Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve."

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Resenha: Política externa brasileira, 1889-2002



Sobre o livro: de autoria de Letícia de Abreu Pinheiro, Política externa brasileira, 1889-2002 integra a coleção sobre história e cultura brasileira Descobrindo o Brasil, dirigida por Celso Castro, bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e atual diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV). Lançado pela Jorge Zahar Editora, o livro apresenta, em suas 81 páginas, explicitação da autora sobre a formação da política externa brasileira no período entre 1889, ano da proclamação da república no Brasil, a 2002, e consta como parte da bibliografia básica do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), do Instituto Rio Branco (IRBr).
Sobre a autora: Letícia Pinheiro é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre em Relações Internacionais pela PUC – Rio; doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics; integrou o CPDOC/FVG como pesquisadora e é integrante do Instituto de Relações Internacionais da PUC – Rio como pesquisadora e professora.

Letícia Pinheiro retrata em Política externa brasileira, 1889-2002 fatores básicos para o entendimento da formação da política externa brasileira a partir da Proclamação da República. A autora inicia definindo o que é política externa, que, de acordo com o que expõe na obra, é conjunto de ações e decisões de determinado ator, geralmente, embora não exclusivamente, o Estado, em relação a outros atores externos. Tais ações e decisões são formuladas a partir de oportunidades e demandas de natureza doméstica e/ou internacional, sendo conjugação dos interesses e ideias para inserção de um Estado no sistema internacional.
Logo após a explicação desse conceito, Pinheiro afirma que a ação externa brasileira representa tanto a busca por autonomia por meio da aproximação a pólos de poder mundial (inicialmente Inglaterra; logo após, Estados Unidos da América – EUA; e, atualmente, desponta a aproximação com a China), mas também a procura por diversificação de parcerias ou por maior participação nas instituições internacionais (exemplo disso é a constante exigência de uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas - ONU).
A obra apresenta claramente que no Brasil a estratégia adotada em política externa está pautada no alinhamento às potências mundiais, caracterizando-se pela busca do desenvolvimento, permanecendo isolada do debate público, tanto devido ao baixo impacto que assuntos de natureza internacional exercem sobre a lógica da competição político-partidária, quanto pelo relativo consenso que a política externa conseguiu instituir ou fazer parecer instituir.
Segundo Pinheiro, a Proclamação da República, em 1889, não trouxe grandes alterações na política externa brasileira, uma vez que pontos centrais da linha diplomática defendida pelos monarquistas permaneceram sendo apoiados pelos republicanos. Na verdade, a República, embora garantisse a permanência do modelo agrário-exportador como central na economia brasileira, consolidou o deslocamento do poder das elites em direção ao Centro-Sul, devido à substituição da cultura do açúcar pela do café, de grande atratividade no mercado estadunidense.
Essa transição econômica e política transferiu o alinhamento da política externa brasileira de Londres para Washington, sob a justificativa de promoção do complexo cafeeiro como principal interesse nacional, que, na prática, era interesse das elites.
Com a nomeação de José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco, principal figura do processo de definição e consolidação das fronteiras brasileiras, como substituto de Quintino Bocaiúva para o cargo de Ministro das Relações Exteriores no ano de 1902, um novo paradigma, definido como pragmático, foi estabelecido na política externa brasileira, tendo como eixo central a percepção de que os EUA constituíam um novo pólo de poder mundial e que buscavam a expansão do seu sistema capitalista e a hegemonia política e econômica no hemisfério, o que transformava a América Latina em sua área de influência e produzia a ideia de que o melhor meio de aumento de recursos de poder do Brasil seria uma maior aproximação com Washington, numa relação de vantagens e ganhos recíprocos, mas assimétricos, pois os ganhos estadunidenses foram escandalosamente mais vultosos do que os brasileiros.
Para os EUA, o real interesse na aproximação com o Brasil era reforçar os princípios da Doutrina Monroe (nota 1) e do Corolário Roosevelt (nota 2), que, segundo a concepção da “ingênua” elite brasileira, não se constituíam em faces do imperialismo do país das listras e estrelas, mas em um recurso defensivo contra o imperialismo europeu. A aceitação aos princípios da Doutrina resultou numa percepção dos demais países latino-americanos de que o Brasil desempenharia o papel de co-responsável e “guarda” dos EUA dentro do continente.

NOTA 1: a Doutrina Monroe se originou em 2 de dezembro de 1823, quando James Monroe, então presidente dos EUA, se pronunciou no Congresso estadunidense a cerca de três princípios contra o colonialismo europeu nas Américas: impossibilidade de criação de novas colônias ao longo do continente; intolerância à interferência de nações europeias em questões internas; e a não participação estadunidense em conflitos envolvendo países europeus. Colocando-se contra a ameaça de países europeus integrantes da Santa Aliança, como Áustria, Rússia e França, de voltar a colonizar países americanos, pregava a “América para os americanos”. A própria indústria do entretenimento americana adotou esses princípios e os Estúdios Walt Disney, por exemplo, lançaram dois filmes direcionados pelos princípios de Monroe: Você já foi à Bahia (The Three Caballeros, no original) e Saludo Amigos (4ª parte do filme abaixo), em que apresenta “costumes” estereotipados de algumas regiões da América Latina. São nesses filmes que surge a personagem brasileira de Walt Disney: o papagaio e malandro Zé Carioca.

 

NOTA 2: O Corolário Roosevelt foi uma resposta ao bloqueio naval conjunto da Inglaterra, Itália e Alemanha em 1902 à Venezuela, por ocasião da negação no pagamento de suas dívidas nacionais pelo presidente Cipriano Castro, que alegava que os juros eram extorsivos e lesivos. Sendo uma afirmação do “direito” dos EUA de intervirem na política da América Latina, foi constituído de um documento enviado ao Congresso estadunidense pelo presidente Theodor Roosevelt no ano de 1904, considerado como complemento à Doutrina Monroe, afirmando que os EUA não aceitariam demonstrações de força nas suas áreas de interesse, ainda que com motivos aceitáveis.

Todavia, o fim da monarquia no Brasil facilitou a aproximação com os vizinhos continentais, todos republicanos. Tal fenômeno, considerado por alguns estudiosos como uma americanização do Brasil, ou sua republicanização, como definiu Amado Cervo e Clodoaldo Bueno, foi favorecido pelo movimento pan-americanista de maior solidariedade e compromisso entre os povos americanos, resultando em período de relativa estabilidade política continental, que atenuou inclusive a tradicional disputa com a Argentina por hegemonia na América do Sul.
Posteriormente, com a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial em outubro de 1917, após torpedeamento de navios mercantes pelos alemães, o país se qualificou a participar da Conferência de Paz de Paris na condição de aliado e a assumir um assento rotativo no Conselho da Liga das Nações, projetando sua política externa para além dos limites do continente. Inicia-se, assim, a percepção das elites governantes de que o Brasil seria detentor de suposto direito de reconhecimento pela comunidade internacional de seu diferencial na hierarquia mundial, e passa, portanto, a lutar por um assento permanente no Conselho da Liga, contrariando os acertos dos Acordos de Locarno (1925), que concedeu o assento à Alemanha, o que culminou na retirada brasileira da Liga, que defendia o assento como direito adquirido pela sua contribuição ao esforço de guerra e pelo princípio de igualdade jurídica dos Estados, defendido pelo jurista Rui Barbosa desde a Segunda Conferência de Haia (1907).
No livro, Pinheiro afirma que, durante a República Velha e sob a gestão do Barão, houve a padronização da origem social dos novos diplomatas, possibilitando a homogeneidade e a coesão do meio. Zairo Cheibub classifica esse período como “carismático”, pois nele o Itamaraty acumulou prestígio graças aos feitos do Barão, sobretudo na consolidação das fronteiras brasileiras, e a seu surpreendente carisma. Entretanto, o “período carismático” enfraqueceu a estrutura administrativa da diplomacia brasileira, devido o perfil centralizador do Barão. Com o falecimento do Barão em fevereiro de 1912, quando assume o cargo de ministro das Relações Exteriores Lauro Severiano Muller, inicia-se o que foi denominado por Cheibub de “período burocrático-racional”, onde foram implementadas inúmeras reformas, como a reabertura de concurso para acesso à carreira, a padronização da correspondência e a substituição do francês pelo português como língua diplomática oficial, por exemplo. Tal período perdurou até o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945), em que houve uma reformulação mais ampla da administração pública.
Enfim, isso é parte do que o excelente livro de Letícia Pinheiro apresenta. Para verificar com mais profundidade o que foi apresentado e também ter conhecimento sobre o que a autora fala sobre os períodos posteriores à Velha República, é interessante ler o livro na íntegra, e a conclusão que se pode chegar sobre a obra é que o Brasil continua mantendo uma constância em seus padrões de política externa, que visa à diversificação de relações, mas sempre com um lastro mais forte com uma potência mundial, que, na atualidade, oscila entre China e EUA. Também é característica do Brasil um discurso de preservação da autonomia e soberania política dos Estados, evitando posicionamentos explícitos sobre medidas de intervenção internacional, porém isso é assunto que pode ser abordado em outra postagem.

segunda-feira, 19 de março de 2012

As Veias Abertas da América Latina - Prefácio

Vou costurar as veias abertas da América Latina
Dividiram em três, jogaram duas na latrina
Por que a América do Sul quebra?
Por que banqueiros guardam seus dinheiros em cofres em Genebra?
Tony Blair, Saddam Hussein
George W. Bush, Osama Bin Laden também
O demônio e seus assessores diretos
Eu vim pra salvar o mundo pro meu e pros seus netos
(trecho da música América 21, do rapper carioca Black Alien)

Nessa última semana estava tentando terminar de ler A Era dos Impérios 1875-1914, de Eric J. Hobsbawm, mas não resisti em deixar essa leitura de lado e pegar o recém adquirido As veias abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano, que estava em cima de meu criado-mudo aguardando sua vez de ser lido. Então, como bom brasileiro que sou, decidi utilizar nosso famoso jeitinho e colocar essa leitura, de Esquerda, que há tempos despertou meu interesse na frente dos também de Esquerda Burocracia e Ideologia, de Maurício Tragtenberg, e A Teoria Marxista Hoje, organizado por Boron, Amadeo e González. Assim sendo, As veias abertas da América Latina furou a fila e eu descobri que tudo que eu já tinha ouvido e esperava de Eduardo Galeano está muito aquém daquilo que pude constatar. Galeano conseguiu espaço ali ao lado de meus autores preferidos, dentre eles Gabriel García MárquezSérgio Buarque de Holanda, Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e o já citado Tragtenberg, e, por isso, deixo-lhes o prefácio da edição adquirida do livro. Boa leitura!!!


Este volume oferece uma nova versão brasileira de As veias abertas da América Latina.
Esta tradução, excelente trabalho de Sergio Farao, melhora a não menos excelente tradução anterior, de Galeno de Freitas. E graças ao talento e à boa vontade destes dois amigos, meu texto original, escrito há quarenta anos, soa melhor em português do que em espanhol.

*

O autor lamenta que o livro não tenha perdido a atualidade. A história não quer se repetir - o amanhã não quer ser outro nome do hoje -, mas a obrigamos a se converter em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita paciência, nos ensina dia após dia.

*

Segundo a voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço).
Entrar no mundo: o mundo é o mercado. O mercado mundial, onde se compram países. Nada de novo. A América Latina nasceu para obedecê-lo, quando o mercado mundial ainda não se chamava assim, e aos trancos e barrancos continuamos atados ao dever de obediência.
Essa triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata, e seguiu com o açúcar, o tabaco, o guano, o salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau, a banana, o café, o petróleo... O que nos legaram esses esplendores? Nem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas estagnadas, longas caravanas de infelizes condenados à morte precoce e palácios vazios onde deambulam os fantasmas.
Agora é a vez da soja transgênica, dos falsos bosques da celulose e do novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo ou gás, mas também milho e cana-de-açúcar de imensas plantações. Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas. E outra vez voltam as glórias efêmeras, que ao som de suas trombetas nos anunciam grandes desgraças.

*

Nós nos negamos a escutar as vozes que nos advertem: os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos. Continuamos aplaudindo o sequestro dos bens naturais com que Deus, ou o Diabo, nos distinguiu, e assim trabalhamos para a nossa perdição e contribuímos para o extermínio da escassa natureza que nos resta.
Exportamos produtos ou exportamos solos e subsolos? Salva-vidas de chumbo: em nome da modernização e do progresso, os bosques industriais, as explorações mineiras e as plantações gigantescas arrasam os bosques naturais, envenenam a terra, esgotam a água e aniquilam pequenos plantios e as hortas familiares. Essas empresas todo-poderosas, altamente modernizadas, prometem mil empregos, mas ocupam bem poucos braços. Talvez elas bendigam as agências de publicidade e os meios de comunicação que difundem suas mentiras, mas amaldiçoam os camponeses pobres. Os expulsos da terra vegetam nos subúrbios das grandes cidades, tentando consumir o que antes produziam. O êxodo rural é a agrária reforma; a reforma agrária ao contrário.
Terras que poderiam abastecer as necessidades essenciais do mercado interno são destinadas a um só produto, a serviço da demanda estrangeira. Cresço para fora, para dentro me esqueço. Quando cai o preço internacional desse único produto, alimento ou matéria-prima, junto com o preço caem os países que de tal produto dependem. E quando a cotação subitamente vai às nuvens, no louco sobe e desce do mercado mundial, ocorre um trágico paradoxo: o aumento dos preços dos alimentos, por exemplo, enche os bolsos dos gigantes do comércio agrícola e, ao mesmo tempo, multiplica a fome das multidões que não podem pagar seu encarecido pão de cada dia.

*

O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?
As veias abertas da América Latina nasceu pretendendo difundir informações desconhecidas. O livro compreende muitos temas, mas talvez nenhum deles tenha tanta atualidade como esta obstinada rotina da desgraça: a monocultura é uma prisão. A diversidade, ao contrário, liberta. A independência se restringe ao hino e à bandeira se não se fundamenta na soberania alimentar. Tão só a diversidade produtiva pode nos defender dos mortíferos golpes da cotação internacional, que oferece pão para hoje e fome para amanhã. A autodeterminação começa pela boca.
Em 27 de julho de 2001, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, perguntou aos seus compatriotas:
- Vocês já imaginaram um país incapaz de cultivar alimentos suficientes para prover sua população? Seria uma nação exposta a pressões internacionais. Seria uma nação vulnerável. Por isso, quando falamos de agricultura, estamos falando de uma questão de segurança nacional.
Foi a única vez em que não mentiu.

Eduardo Galeano (Montevidéu, 2010) 


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eu claustrofóbico (Trecho do livro Trilogia Suja de Havana, do cubano Pedro Juan Gutiérrez)


Fiquei muitos anos tentando me desprender de tanta merda que se acumulou em cima de mim. Não era fácil. Se você passar os primeiros quarenta anos de sua vida sendo um sujeito dócil, domesticado, acreditando em tudo o que lhe dizem, depois vai ser quase impossível aprender a dizer "não", "vão à merda", "me deixem em paz".
Mas eu sempre consigo... Bom, quase sempre consigo o que quero. Desde que não seja um milhão de dólares ou um Mercedes. Mas nunca se sabe. Se eu desejasse essas coisas poderia conseguir. No fundo é só isso que importa: desejar algo. Quando você deseja alguma coisa, com força, já está no caminho. É feito o arqueiro zen que lança a flecha sem pensar no alvo. E insiste nisso durante muitos anos que consegue acertar na mosca, com esse método que inverte a lógica.
Bom, quando comecei a não me preocupar com as "coisas importantes", as "coisas importantes" dos outros, e a pensar e agir um pouco mais para mim mesmo, entrei numa fase difícil. E fiquei muitos anos assim: à margem de tudo. Mantendo equilíbrio. Sempre na beira do precipício. Em outra etapa desta aventura que é a vida. Aos quarenta anos você ainda está a tempo de largar a rotina, o sufoco estéril e tedioso, e começar a viver de alguma outra maneira. Só que quase ninguém tem coragem. É mais seguro continuar na mesma, até o final. Eu estava endurecendo. Tinha três opções: endurecia, ficava maluco ou me suicidava. Assim era fácil decidir: precisava endurecer. [...]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Resenha: Administração, poder e ideologia

“Cada vez que na área do político sois chamados de 'meus filhos', a esfera de vossos direitos políticos desaparece.” Maurício Tragtenberg (1929-1998)

Editora: UNESP
Edição: 3ª edição revista, 2005
Sobre o autor: Maurício Tragtenberg (1929-1998) – descendente de imigrantes judeus, foi filiado ao PCB, de onde foi expulso por suas leituras das obras de Leon Trótski. Socialista libertário e autodidata, conseguiu habilitação para prestar vestibular na USP sem ter o primário concluído pela aceitação do ensaio Planificação - Desafio do século XX, sendo aprovado no curso de Ciências Sociais e, posteriormente, no curso de História. Doutor em Política pela USP, título adquirido durante a Ditadura Militar, foi professor de graduação e pós-graduação na PUC/SP, USP, UNICAMP e da EAESP-FGV. Crítico da burocracia acadêmica, foi um dos precursores do estudo da pedagogia libertária no Brasil. Manteve durante vários anos a coluna No Batente para o Jornal Notícias Populares, de São Paulo, além de ter publicado 8 livros e inúmeros artigos em jornais e revistas de grande circulação no país.
Preço: entre R$ 28,80 e R$ 32,00.
Analisando as teorias e práticas administrativas, Tragtenberg apresenta em Administração, poder e ideologia, publicado pela primeira vez em 1976, uma análise de como as organizações se estruturam para assegurarem a harmonia entre seus interesses e os interesses dos trabalhadores, anulando o indivíduo no mundo industrial para assegurar o alcance e o aumento progressivo do lucro. Dividido em 4 capítulos (A ideologia administrativa das grandes corporações; A cogestão e o participacionismo ou "Alice no país das maravilhas"; Exploração do trabalho I; e Exploração do trabalho II), além da Conclusão, o livro demonstra que, na indústria moderna, a liberdade é substituída pela unidade de comando e nesse cenário as relações se dão sob a forma de negociação.
A obra apresenta como se deu o início da escola participacionista na Alemanha, França e Bélgica, e atenta para o fato de que a corporação concentra poder econômico semelhante a um partido político ou à Igreja católica, detendo a hegemonia na sociedade industrial. Analisando o pensamento de Peter Druker, Adolf Berle e outros pensadores das organizações do século XX, Tragtenberg destacou a luta de poder entre trabalho e gerência, escondida sob a manifestação de reivindicação salarial, tornando necessária a neutralização do elemento causador do conflito.
Outro grande obstáculo a ser superado é a participação operária nas decisões da empresa, pois, de acordo com a obra, as organizações buscam mecanismos para evitar que o trabalho usurpe as funções de poder gerencial legitimadas, tornando, segundo Tragtenberg, a corporação cada vez mais antissocial e privatista.
No decorrer da obra, Tragtenberg apresenta o caráter sagrado do chefe, a impessoalidade da organização e a subentendida concepção individualista como fatores marcantes na estrutura hierárquica empresarial. E essas relações hierárquicas utilizam conceitos mecanicistas como forma de evitar colapsos, reduzindo o subordinado à dependência do saber e do poder, da mesma forma como se dá a relação educacional, onde o aluno se ver como ator passivo no cenário que a escola representa.
De acordo com a obra, “relações humanas” é um engodo escondido por trás do diálogo e da participação, que permite à empresa agir sobre indivíduos e grupos para provocar neles as atitudes que lhe convêm, sendo, portanto, simplificadora e idealista, manipuladora e realista, constituindo novo recurso para alcance de maior produtividade do trabalhador.
Nesse ponto, é apresentado o contexto histórico da origem das relações humanas, difusora da não-diretividade, da pedagogia da direção, da solução de conflitos, e da tomada de decisão. Preocupada com a dominação de conflitos, as relações humanas se institucionalizam com a pregação do uso da diplomacia, em detrimento do autoritarismo, nas relações entre capital e trabalho, surgindo, assim, na década de 1950, a humanização do trabalho (França), a humanização na empresa (Itália), e as técnicas de cogestão (Alemanha).


“ceder um pouco de poder aos trabalhadores
pode ser um dos melhores meios de aumentar sua sujeição,
se essa lhes dá a impressão de influir sobre as coisas
(David Jenkins – Job power, Nova York, 1973, p.319-20)”



Tragtenberg concebe a empresa como produtora de excedente de trabalho onde se manifesta a oposição de classes, mas também como aparelho ideológico que extrai do trabalhador aquilo que é mais do que necessário para maior lucratividade. Nesse sentido, o trabalhador se apresenta como apático politicamente, pois o poder da organização fragmenta as classes sociais em indivíduos.
Logo, após o autor apresentar práticas aplicadas em empresas estadunidenses e brasileiras, conclui que o objetivo da organização moderna com o uso das práticas próprias das relações humanas é manipular a mão-de-obra, ocultando conflitos no nível político, para garantir a não divisão do poder. Assim, a obra demonstra que a cogestão e as práticas participativas permitem, além das manipulações patronais, a garantia da paz e da harmonia social e a mutação da sociedade por meio da empresa.

“(...) pagar o mais baixo possível numa organização é pagar com status
(Maurício Tragtenberg)

sábado, 3 de abril de 2010

Resenha A Administração de custos, preços e lucros

Nome do Livro: A Administração de Custos, Preços e Lucros
Autor: Adriano Leal Bruni – mestre e doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e sócio da Infinita Consultoria e Treinamento.
Editora: Atlas, 3ª Edição (2008)
Preço médio: R$ 60,00


Adquirido na XIII Feira Pan-Amazônica do Livro, realizada em novembro de 2009 no Hangar – Centro de Convenções e Feiras da Amazônia –, este livro apresenta conhecimentos básicos para qualquer profissional ou estudante das áreas administrativa, contábil ou financeira, que, entretanto, nem sempre buscam tais conhecimentos, ficando, nesses casos, com a empregabilidade comprometida. Quinto livro da série Desvendando as Finanças, a obra é dividida em 9 capítulos, sendo o último apresentação de um recurso elaborado por Bruni e disponível no site da editora Atlas ou no site dos livros da série (site Minhas Aulas), chamado de modelo CUSTOFACIL.XLS, tratando-se de uma planilha eletrônica que pode ser aplicada para análise de ponto de equilíbrio, decisões sobre materiais diretos, realização de rateios e elaboração de preços para comércio, serviços ou indústria. Além da CUSTOFACIL.XLS, existem outros recursos nos sites mencionados, como slides elaborados pelo autor e a resolução completa de todos os exercícios apresentados no decorrer do livro, dentre outros recursos.

O objetivo da obra, segundo o próprio autor, é apresentar de forma clara e simples os principais conceitos associados ao processo de registro e gestão de custos, o que realmente ocorre e justifica minha indicação do livro. Entretanto, convém citar que o livro pode frustrar o leitor que deseje ter uma obra em que as lições são apresentadas com aplicação prática no Excel ou na calculadora HP12C, uma vez que o livro traz em sua capa a citação “com aplicações na HP12C e Excel” e só apresenta tais aplicações nas páginas 144, 145 e 289 a 294 (aplicações com a HP12C) e no capítulo 9 (aplicações com o Excel, sendo este capítulo dedicado exclusivamente à apresentação da CUSTOFACIL.XLS). Considero também um erro o excesso de divulgação dos outros livros da série, que são indicados na orelha do livro, na apresentação da série, no final de cada capítulo e, em alguns momentos, no meio dos capítulos, o que ficou desgastante e gerou a sensação de que a editora, o autor ou ambos desejam enfiar goela abaixo e de qualquer forma a série toda, quando acredito que deveriam apostar no interesse que a leitura do livro geraria para obtenção dos outros de forma mais natural ou, se induzida, de forma menos “violenta”. Ademais, o livro é de boa leitura e tem certa contribuição para uma boa formação profissional, principalmente por apresentar uma quantidade de exercícios que facilita a fixação dos conceitos aprendidos.

Inicialmente, no capitulo 1 (Os custos, a Contabilidade e as Finanças), Bruni apresenta conceitos como o de Contabilidade Financeira, patrimônio, resultado e fluxo de caixa, com as respectivas importâncias e os seus componentes. O capítulo apresenta a estrutura de balanço patrimonial e aborda a questão dos prazos de pagamento ou recebimento. Também são apresentados nesse capítulo os regimes de competência e de caixa, os principais termos técnicos contábeis (gastos, receitas, custos, deduções, investimentos, despesas, resultado, perdas) e as visões da contabilidade financeira, da gerencial e da contabilidade de custos, fazendo-se um paralelo entre elas e entre a contribuição que cada uma traz para a empresa.

O capítulo 2 (Os Custos e a Contabilidade Financeira) vem apresentar as diferentes formas de classificar os custos (em função da forma de associação aos produtos elaborados, de acordo com a variação em relação ao volume produzido, de acordo com a controlabilidade, em relação a alguma situação específica ou em função da análise do comportamento passado) e o custeio por absorção. O próximo capítulo (Os Custos e a Contabilidade Gerencial) apresenta a forma como as decisões se relacionam com os gastos, descrevendo os gastos fixos e variáveis e a implicação de cada um desses no processo decisório, além de apresentar a relação custo-volume-lucro dentro da contabilidade gerencial. Aqui também é apresentado o conceito, a análise e as diferentes formas de calcular o ponto de equilíbrio; o que são e qual a importância dos três tipos de alavancagem e das margens de segurança, apresentando-se, também, os conceitos de ROI (Retorno sobre o Investimento) e ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido).

O quarto capítulo (Os Custos e seus Componentes) apresenta os três componentes formadores dos custos (Material Direto, Mão-de-Obra Direta e Custos Indiretos de Fabricação), apresentando formas de calcular cada um destes e maneiras de realizar seus lançamentos contábeis para auxiliar na tomada de decisões. Este capítulo também apresenta três critérios que podem ser utilizados para avaliação do estoque de mercadorias – PEPS (Primeiro que Entra, Primeiro que Sai), UEPS (Último que Entra, Primeiro que Sai) ou Custo Médio Ponderado – citando suas respectivas vantagens e desvantagens. Também são apresentados conteúdos referentes à programação de compras e estoques de materiais diretos (cálculos de custo de estocagem, custo de pedido, estoque médio, intervalo de pedido, número de ressuprimentos a serem realizados num determinado intervalo e Lote Econômico de Compra) e à mão-de-obra ociosa durante a produção. Além desses conceitos, são apresentados os principais centros de custos e a importância de sua utilização para facilitar o processo de rateio dos custos e alocação das despesas aos produtos. Por fim, o capítulo apresenta o custeio por atividades e é nele a primeira vez que o autor apresenta uma aplicação da HP12C, descrevendo como a calculadora pode efetuar cálculos de média aritmética simples ou ponderada.

No capítulo 5 (Os Custos e A Margem de Contribuição), Bruni faz uma comparação entre o custeio direto e o custeio variável, apresenta a margem de contribuição e sua importância e descreve os principais problemas no rateio dos custos, sugerindo soluções e adaptações das formas de rateio para cada situação apresentada. Há neste capítulo uma abordagem sob a ótica da Teoria das Restrições associada à margem de contribuição para determinação do mix de produtos que deve ser produzido. O capítulo 6 (Tributo, Custos e Preços) vem apresentar como os diferentes impostos, sobretudo o Imposto de Renda e a forma de sua tributação adotada pela empresa, implicam na administração dos custos e formação dos preços. Para isso, Bruni apresenta as três formas de tributação do IR no Brasil (Lucro Real, Presumido ou Simples Nacional), descrevendo as principais vantagens de cada uma e em qual momento uma vai ser mais vantajosa que as outras duas. Mas, Bruni não se resume apenas a apresentar as formas de tributação do IR, ele também apresenta tabelas com as porcentagens de que são aplicadas a cada atividade e descreve quais atividades se encaixam em qual forma de tributar o IR. O autor também apresenta as formas de se calcular impostos “por dentro” ou “por fora” e explica a cumulatividade ou não-cumulatividade fiscal e a substituição tributária, além de apresentar os principais impostos associados à formação de preço e maneira de trabalhar com cada um deles nesse processo (Cofins, PIS, IR, CSSL, ISS, ICMS, IPI). Interessante é que Bruni divide didaticamente os impostos em Impostos Gerais (Cofins, PIS, CSSL, IR) e Impostos Específicos (ISS, ICMS e IPI – impostos para serviços, comércio e indústria, respectivamente), o que facilita o processo de aprendizado. Quanto ao ICMS, Bruni tem maior cuidado ainda ao apresentar a forma como se dá a cobrança deste em relações comerciais entre os Estados diferentes ou quando este possui substituição tributária.

O capítulo 6 (Os Custos, os Preços e os Lucros) trabalha com três diferentes métodos de formar preços (baseado em custos, baseado no valor percebido ou análise da concorrência). É apresentada aqui a relação entre preços, custos e valores percebidos e é nesse capítulo que se enumera os componentes do preço (lucro, impostos, despesas e custos). Bruni também apresenta a maneira como se elabora e aplica uma taxa de marcação (Mark-up) e atenta para o fato de que não se deve usar uma única maneira de elaboração de preço para evitar preços que não correspondam ao valor dado ao produto/serviço ou preços fora de uma intersecção que traga benefícios tanto para o consumidor como para a empresa. Aqui também é feita uma relação entre lucratividade e rentabilidade como forma de avaliação de desempenho de uma empresa. É nesse capitulo que aparece, pela segunda vez, aplicações da HP12C, agora já sob uma ótica financeira levando em consideração juros, valores presentes ou futuros e séries de pagamentos antecipadas ou postecipadas.

Por fim, o capítulo 8 (Os Preços, o Marketing e a Estratégia) é o único em que não há predominância de cálculos, mas tem sua importância justificada ao atentar para a importância do posicionamento estratégico nas empresas. O capítulo vem apresentar conceitos como valor percebido e seus condicionantes, posicionamento de produtos e sua relação com a formação do preço, formas de percepções do produto, cadeia de valor e estratégia de negócios, apresentando, para tanto, vários casos práticos, inclusive em seus exercícios, alguns dos quais adaptados mas que, com um pouco de conhecimento de mercado e de percepção, podem ser identificados.

Bem, como disse no inicio deste artigo, o que me influenciou a indicar esse livro como uma foi a simplicidade como o autor expôs seus conhecimentos, alguns dos quais eu já até possuía, mas, no todo, sua leitura me enriqueceu um pouco mais, cumprindo o que se propôs. Como principal ensinamento, posso dizer que o livro me mostrou que não é tão complicado gerir custos e formar preços para atingir lucro, bastando, para tanto, não utilizar apenas este ou aquele método, mas integrar todo o conjunto de conhecimentos adquiridos e aplicá-los associadamente, buscando sempre o ponto de inflexão que melhor se apresentar.

Até a próxima Resenha!

Fora, Temer!