Mostrando postagens com marcador Belém. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Belém. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O artesanato de miriti e os espaços públicos da cidade de Belém (capítulo de livro)

Amanhã (12/01), Belém, capital do Pará, completará 400 anos da construção de um forte às margens da Baía do Guajará, acontecimento tido como o marco temporal da fundação da cidade e que por isso define seu aniversário. É uma data redonda que, como tal, tem levado a diversas programações (oficiais, oficiosas e alternativas) de comemoração e/ou reflexão crítica sobre a cidade. Por enquanto, não entrarei no mérito de discutir a qualidade, a quantidade e a intencionalidade dessas programações, atitude necessária, vale ressaltar, que vem sendo tomada por diversas pessoas nestes tempos - por algumas, desde tempos antes deste -, com as quais entro em acordo em diversos pontos. Deixo para outro momento a expressão de uma reflexão um pouco mais profunda sobre o tema, talvez colocando-a aqui neste espaço, mas com certeza levando-a para a rua, onde deve estar todo o pensamento que se pretende crítico (não compreendo os intelectuais críticos que supostamente desejam forjar contra-poderes que temem elas, as ruas, que, como eu lhes disse outrora, são mães de toda a Sabedoria).
Portanto, hoje, acho importante destacar o óbvio: Belém não é vivida, concebida e percebida somente por quem é belenense ou nela vive, e por isso não há impedimento para uma ligação íntima com a cidade dessas muitas pessoas que não vivem cotidianamente Belém, e igualmente não há impedimento para a contribuição dessas pessoas para que Belém seja Belém, principalmente uma Belém melhor. Por isso, deixo abaixo um texto que fala sobre um grupo social que vive nossa cidade um pouco mais de longe, do ponto de vista físico, do que nós, que aqui moramos, mas que nutre afetos por Belém, e de como ocorre a produção social de alguns espaços públicos desta cidade durante a festa do Círio; tais espaços têm em comum o fato de serem locais para onde fluem essas pessoas, conhecidas como artesãs e artesãos de miriti de Abaetetuba, cidade distante cerca de 70 km da capital, que presenteiam anualmente a cidade com um dos principais símbolos de sua principal festa, os Brinquedos de Miriti de Abaetetuba, que são uma festa do olhar, como já disse o poeta J. J. Paes Loureiro, dentro da festa da Naza.




Sobre o texto: Este é o quinto capítulo do livro Sociedade, campo social e espaço público, organizado pelos professores Edna Maria Ramos de Castro e Silvio Lima Figueiredo e publicado pela editora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), inaugurando a série "Desenvolvimento e sustentabilidade".
No livro constam trabalhos de pesquisa de professores e discentes do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU), do NAEA, elaborados numa perspectiva interdisciplinar com contribuições teóricas e metodologias trazidas por disciplinas da grande área de humanidades, dividindo-se em três partes: (1) estudos sobre transformações sociais, econômicas e territoriais; (2) artigos que tratam da área da comunicação e informação sob várias perspectivas e recortes temáticos; e (3) discussões de questões relativas à desigualdade social, políticas públicas e modelos de gerenciamento de bens e recursos públicos.
Localizado na primeira parte do livro, este capítulo demonstra a produção dos espaços usados pelos chamados artesãos de miriti de Abaetetuba durante os festejos do Círio de Nazaré, que ocorrem anualmente no mês de outubro, em Belém, capital do Pará, apresentando as diferenças entre esses espaços da cidade e suas consequências para os artesãos.


Em caso de citações, recomendo o uso da seguinte referência:
FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. O artesanato de miriti e os espaços públicos da cidade de Belém. In: CASTRO, E. M. R.; FIGUEIREDO, S. L. (Org.). Sociedade, campo social e espaço público. Belém: NAEA, 2014. p. 74-88.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Espaços públicos urbanos: lugares de lazer, sociabilidade e memória (artigo)

Compartilho com vocês o artigo Espaços públicos urbanos: lugares de lazer, sociabilidade e memória, elaborado por membros do grupo de pesquisa Turismo, Cultura e Meio Ambiente, dentre eles este que vós escreve, e que foi publicado no segundo número de 2014 do periódico Novos Cadernos NAEA.
Nele, analisamos a apropriação dos espaços públicos urbanos de Belém (Pará) e verificamos aspectos simbólicos dos lugares de lazer, das formas de sociabilidade e a construção da memória social, para compreender as dinâmicas, interações e os arranjos sociais existentes dos usuários do Bosque Rodrigues Alves, da Praça Batista Campos e da feira livre do Bairro da Terra Firme. Considerando que a cidade é realidade social que exprime em sua forma física e em sua dinâmica uma das modalidades fundamentais de "organização” das diferenças e é resultado de vários tipos de processos socioespaciais, gerados pela complexa interação entre os agentes modeladores do espaço, interesses diversos, significações e fatores estruturais, evidenciamos a produção do espaço público pelos grupos e classes que ali estão e o entendimento da importância simbólica desses espaços para esses grupos.
Um versão concisa e em espanhol deste artigo foi apresentada durante a décima edição do Foro OcioGune 2015. Foro Internacional de Investigación, Pensamiento y Reflexión en torno al Fenómeno del Ocio, realizado em junho na Facultad de Ciencias Sociales y Humanas da Universidad de Deusto, em Bilbao (Espanha).

Em casos de citação, recomendo o uso da seguinte referência:
BAHIA et al. Espaços públicos urbanos: lugares de lazer, sociabilidade e memória. Novos Cadernos NAEA, v. 17, n. 2, p. 303-324, jul.-dez. 2014. Disponível em: <http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/ncn/issue/view/109>;.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Diálogo com o jornalista sobre o Memorial da cabanagem

Reproduzo abaixo o diálogo estabelecido por correio eletrônico com o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto, editor do quinzenário Jornal Pessoal, publicado na seção Cart@s da edição 580 do periódico. Considero Lúcio Flávio um dos intelectuais (aqueles que, segundo ele mesmo, comem pelo menos três vezes por dia e são pagos para trabalhar usando o cérebro como ferramenta) e jornalistas paraenses que tratam de forma mais profícua de importantes questões, levando-as para as ruas e libertando-as de nossa torre de marfim. E não são somente assuntos importantes, mas muitas vezes espinhosos para os que estão na parte de cima da pirâmide do poder, daí a quantidade de processos que ele responde na Justiça movidos por aqueles afeitos a somente receber da imprensa fluxos de irrigação para o imenso jardim de seus reis na barriga.
E ainda assim percebo que com Lúcio Flávio ocorre o que passa com muitos daqueles que possuem essa característica de não recearem expressar suas opiniões e análises, feitas de forma apurada, embora em fluxo contínuo e mote continuado, perante os fatos da realidade, colocando-as à disposição do julgamento e da avaliação históricos, e que discorrem sobre temas por vezes tão delicados: proporcionalmente, deles muito se fala e pouco se reflete sobre o que falam e sobre como falam, como se somente citar seus nomes fosse suficiente para dar pinceladas de enriquecimento aos diálogos mais superficiais, - portar-se como poser, como se fala atualmente.
Eis o diálogo; desfrutem (ou não).

Lúcio Flávio Pinto (foto retirada da página de Rogelio Casado)


***

Prezado Lúcio,

Há pouco menos de um ano, deixei de ser leitor intermitente de seu Jornal Pessoal para lê-lo continuamente, o que tem me oferecido bons momentos de reflexão, incentivados por suas análises e provocações. E nesse novo compromisso de leitura que decidi assumir, vem me satisfazendo muito suas publicações sobre a cabanagem, sobretudo o Dossiê n.º 9 deste JP, lançado na recente data dos 180 anos da revolta.
Em um parágrafo da matéria "A revolta nos manuais e numa melhor história" (JP n.º 579, 2.ª quinzena de fevereiro de 2015), você se refere ao Memorial da cabanagem, construído durante o primeiro mandato de governador de Jader Barbalho, em comemoração ao sesquicentenário da revolta.
Ler isso me lembrou um fato: no dia 12 de janeiro de 2012, aniversário de Belém, saía de casa para ir ao trabalho, quando passei em frente a tal monumento, diante do qual fiquei parado por conta do engarrafamento, comuns naquela área na qual este termo e o termo como o local é conhecido infelizmente tornaram-se intercambiáveis.
Na ocasião, notei o abandono em que o monumento se encontrava (e ainda se encontra), e utilizei uma rede social para expressar minha indignação pelas condições do local, acrescentando-lhe observações sobre o fato de que tal obra é uma das poucas em que o famoso arquiteto teve algum tipo de atividade direta no norte do Brasil. Dias depois, resgatei esse desabafo em um blog no qual lanço notas, acrescentando-lhe um poema escrito por Niemeyer.
Passado algum tempo, em novembro do ano passado, recebi um comentário de Kadu Niemeyer, neto de Oscar, no qual agradece pela admiração que demonstrei por seu avô e lamenta o estado da obra, mas afirma não conhecer pessoalmente o monumento, "falha minha que como fotógrafo que desde 1973 vem fotografando os projetos do meu avô e realizando exposições pelo Brasil e mundo a fora. Quem sabe um dia desses vou até aí para registrar o projeto e ou mesmo realizar uma exposição".
Tal comentário me instigou, embora não tenha me deixado surpreso, porque já havia verificado a ausência do monumento em alguns registros da obra do arquiteto, mesmo que seu registro conste, inclusive com esboços, na página eletrônica dedica a Oscar. Ainda assim, procurei um pouco mais sobre o assunto, que à época era um interesse mais lateral, apesar de sua importância, e deparei-me com uma notícia publicada na página eletrônica de Jader Barbalho em dezembro de 2012, na qual o atual senador diz que "[...] nesse momento, em que o mundo todo comenta a morte de Oscar Niemeyer, eu registro o episódio sobre o monumento à Cabanagem, que ele projetou e doou ao nosso Estado. É a única obra erguida, de Niemeyer, em todo o Norte do País. Eu o conheci no momento em que – quando fui governador –o Pará se preparava para festejar o sesquicentenário do movimento da Cabanagem. Eu e o jornalista e historiador Carlos Rocque estabelecemos contato com ele e fizemos muitas reuniões no Posto 6 da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Levamos a Niemeyer extenso material sobre o assunto. Quando o projeto ficou pronto, perguntei qual era o custo e ele me disse haver se encantado com os cabanos e que se sentia devedor depois ter conhecido a história da única revolução no Brasil e na América Latina, na qual o povo havia tomado o poder. E explicou a sua obra, que é a representação de um dedo da mão da história. Um dedo fraccionado, justamente quando os cabanos são derrotados. A mão fica embaixo e o dedo aponta para o infinito, porque a história não termina. Abaixo da mão, está a cripta que guarda os restos mortais de líderes do movimento".
Nesse ponto, cautela é necessária, afinal você já destacou em sua matéria o uso utilitário dado ao acontecimento da cabanagem. Em minha resposta, dada por e-mail e em comentário no blog de Kadu, sugeri sua vinda a Belém para realizar o registro e tentar uma exposição, que, se no momento me escapou a lembrança dos 180 anos da cabanagem, sugeria para os 400 anos de Belém. Recentemente, li n'O Globo que, com a falta de patrocínios para suas exposições e para publicar um livro sobre o avô, Kadu vem trabalhando como taxista, o que tem lhe afastado um pouco da fotografia, apesar de afirmar que pretende seguir expondo e vir a lançar o livro. Ainda espero que o fotógrafo venha a Belém registrar esse monumento e expor, e quem sabe possa trazer informações que, dentre as tantas brumas que rodeiam a cabanagem, nos permitam dissipar as que rodeiam o monumento feito em sua homenagem. E, claro, melhorar a situação em que se encontra.

P.S: compartilho da opinião da ombudsman Cintia Moura dada na edição de n.º 573 do JP (1.ª quinzena de novembro de 2014) da satisfação em encontrar notícias sobre temas distintos, como cultura, por exemplo, do que o quinzenário habitualmente mais destaca. Creio que isso enriquece ainda mais o periódico. Também confesso que, devido a importância e o destaque que o JP deu durante o período de gestação da reforma administrativa promovida por Jatene no fim do ano passado, venho esperando com certa ansiedade, embora sem saber se virá, a análise do editor do jornal sobre os termos e consequências de tal reforma. Ademais, também ficaria feliz se, caso possível, a seção Memória do Cotidiano pudesse trazer algum registro da concentração dos girandeiros com seus brinquedos de miriti, tema que me é caro, durante os antigos Círios ocorridos em Belém.

RESPOSTA DE LÚCIO FLÁVIO PINTO

Realmente, faltou completar a análise sobre a reforma do governo Jatene. Além da falta de tempo para tanta coisa que preciso fazer, estava esperando pela sua maturação para checar a hipótese que levantei. Em miúdos, como diria um açougueiro: trocar seis por meia dúzia. A intenção de acrescentar mais racionalidade e eficiência com menor custo foi anulada pela distância entre a teoria e a prática, uma característica marcante no PSDB.
Loquaz e de boa voz, o governador parece se encantar com suas teorizações, várias delas oportunas e promissoras. Mas ao praticar a administração no dia a dia, o que prevalece é o interesse político e a busca por mais poder - ou, ao menos, manter o que ele já detém. Até agora, o governo é o mesmo neste terceiro mandato.
Registro a importância das informações do Amarildo sobre o monumento da cabanagem. É um exemplo de como um intelectual, com as ferramentas que a academia lhe fornece, especialmente para lhe dar régua e compasso, se interessa pela realidade incluindo-a no processo do conhecimento.

***
OBS. 1: além da resposta que Lúcio Flávio publicou no próprio quinzenário, recebi dele outra por correio eletrônico assim que o jornalista recebeu meu e-mail. Nela, apesar de curta, o editor apresenta argumentos que podem enriquecer a resposta exposta acima. Pensei em acrescentá-la ao texto, logicamente assinalando-a, mas declinei porque não possuo autorização para tanto. Quem sabe em outro momento...
OBS. 2: neste texto, a palavra CABANAGEM aparece com duas grafias (com a inicial minúscula e com a inicial maiúscula). Essa distinção não é trivial, pois relaciona-se com o significado dado à revolta por quem escreve o termo. Decidi utilizar a escrita com letra minúscula para respeitar a forma como Lúcio Flávio se refere à revolta, e somente escrevi com inicial maiúscula ao reproduzir o trecho do texto de Jader Barbalho, que assim a escreveu.
OBS. 3: Jader está equivocado ao dizer que o memorial é a única obra de Niemeyer erguida no norte do país. Na época do desabafo que me refiro no texto, também sustentava tal crença, alimentada pelo elevado ufanismo que nutrimos, o que gera reflexões vulgares e superficiais sobre fatos e relatos, impede o avanço e aprofundamento de pesquisas, e também serve de ferramenta ideológica para os mais diversos grupos. No entanto, pelo menos outra obra de Niemeyer chegou a ser erguida no norte do Brasil, na cidade de Marabá (Pará), doada pelo arquiteto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Denominada Monumento Eldorado Memória, a obra é uma homenagem aos trabalhadores sem terra mortos no episódio conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, durante o governo de Almir Gabriel, que, assim como vosso atual governador - que dele foi secretário de planejamento (1995-1998) e, nos meandros da disputa interna por poder, também ganhou a pecha de preguiçoso -, igualmente do PSDB. Ademais, Manaus está às voltas para que o Memorial Encontro das Águas, projetado em 2005 por Niemeyer, venha a ser definitivamente construído e inaugurado na cidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Papers do NAEA n.º 334 - Notas introdutórias para o estudo da vida associativa dos artesãos de miriti: relatório de campo

Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (serra-serra e barcos). Foto de Amarildo Ferreira Júnior (2014).

Resumo: Esta nota de pesquisa apresenta um relatório de campo de caráter exploratório realizado durante a festividade do Círio de Nazaré, ocorrida em outubro de 2013, e no qual se acompanhou a inserção dos artesãos que criam os denominados Brinquedos de Miriti de Abaetetuba em quatro espaços públicos. Seu objetivo é subsidiar definições metodológicas e de categorias teóricas da pesquisa em andamento sobre a vida associativa no processo criativo desses agentes sociais. Realizado na cidade de Belém (Pará), este estudo coletou dados mediante observação direta dos espaços visitados e de realização de entrevista com alguns artesãos e com algumas pessoas relacionadas diretamente com eles ou com a realização dos eventos dos quais participavam. Em seu decorrer, o relatório apresenta os espaços visitados e descreve as observações realizadas em cada um deles e as informações obtidas durante as entrevistas realizadas. Em sua conclusão, são feitas considerações sobre as contribuições deste tipo de procedimento para a continuidade da pesquisa em curso e demonstra-se como sua realização pode contribuir para uma primeira aproximação empírica com o tema estudado, para a melhor definição das categorias teóricas a se analisar, e para a identificação das limitações metodológicas que a pesquisa pode apresentar.
Palavras-chave: Artesãos de miriti. Vida associativa. Relatório de campo. Círio de Nazaré. Técnicas de pesquisa.

INTRODUCTORY NOTES FOR STUDY THE ASSOCIATIVE LIFE OF MIRITI ARTISANS: FIELD REPORT

Abstract: This research note presents an exploratory field report conducted during the festivity of Círio de Nazaré, which occurred in October 2013, and which followed the inclusion of artisans who produce so called Miriti Toys of Abaetetuba in four public spaces. It aims to support methodological definitions and theoretical categories of ongoing research about associative life inside the creative process of those social agents. Held in the city of Belém (located in the state of Pará in the north of Brazil), this study collected data through direct observation of the spaces visited and conducting interview with some artisans and some people related directly to them or to the achievement of events of which participated. In its course, the report presents the visited areas and describes the observations made in each of them and the information obtained during the interviews. In its conclusion, we discuss the contributions of this type of procedure to continue the ongoing research and demonstrate as its realization can contribute to a first empirical approach to the subject studied, for better definition of theoretical categories to analyze and to identify the methodological limitations that research can present.
Keywords: Miriti artisans. Associative life. Field report. Círio de Nazaré. Research techniques.

Acesse o artigo completo abaixo ou clicando AQUI, e, em casos de citação, recomenda-se a seguinte referência:

FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. Notas introdutórias para o estudo da vida associativa dos artesãos de miriti: relatório de campo. Papers do NAEA, n. 334, p. 1-33, dez. 2014. Disponível em: <http://www.naea.ufpa.br/naea/novosite/paper/408>.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quis custodiest ipsos custodes?

Atualizado em 7 novembro de 2014.

Belém sangra, e os matadores não percebem que atiram no próprio espelho.
Belém chora, e ainda há quem peça mais mortes, pois para esses "bandido bom é bandido morto, e quem sentir pena, adota". Esquecem que, como disse Sérgio Vaz, a chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem. Para estes "meritocratas", existe uma régua com a qual se mede quem é melhor e quem é pior, e tudo bem se quem a utiliza é o mesmo que empunha a macaca ou dirige o camburão, que de Norte a Sul sempre tem um pouco de navio negreiro. Sendo assim, quem vigiará os vigilantes?
Já falei uma vez que não acredito na violência, afinal, o medo dá origem ao mal, como dizia Chico Science. Me recuso, portanto, a depositar minha crença na violência enquanto meio para se alcançar o fim da própria violência, e também me recuso a prescindir de minha liberdade em andar pelas ruas, mães de toda Sabedoria, por medo de uma polícia que decide quem vive e quem morre a seu bel-prazer, aplaudida de pé por quem defende a permanência desse Circo dos Horrores, dessa Fantástica Fábrica de Cadáveres. Devemos nos contentar em lavar copos e contar corpos?
As pessoas são importantes, é por meio delas que os valores são criados. Esse tipo de polícia, que se coloca acima da lei, do bem e do mal, é?

Eis a tragédia. Não a desfrute.

Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie. 

P.S.

Segundo dados da Anistia Internacional, só no ano de 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. É esse o perfil das vítimas de ações de extermínio como as que ocorreram em Belém na noite de terça e na madrugada de quarta-feira: jovens, negrxs/caboclxs, pobres, que vivem na periferia.
São pessoas vitimadas tanto por problemas socioeconômicos estruturais, quanto pela violência, esta mesma originária da maioria desses problemas socioeconômicos que se perpetua quando o Estado está presente quase sempre somente com sua fachada perversa. São pessoas vitimadas, portanto, por violências simbólicas e concretas, sejam estas praticadas pelos criminosos presentes nessas áreas de periferia, que são oprimidos que oprimem outros oprimidos; seja praticadas por agentes públicos, estes também oprimidos que oprimem outros oprimidos e, o que se torna agravante, investidos de prebendas burocráticas que se por um lado os transforma em representantes do Estado no momento do exercício de suas atividades, por outro lado não lhes permite que utilizem-se da própria posição que ocupam para extravasar um tipo de poder que, para o próprio bem da sociedade em geral, sem essa distinção hipócrita e moralista que define com base em preceitos sociocentristas quem é e quem não é cidadão de bem, não deveria lhes ser outorgado.
Infelizmente, ações como essas que ocorreram em Belém, que fogem da legalidade e são prenhes de uma discrição corrompida, demonstram que seus realizadores estão revestidos de uma crença de que estão acima da lei, do bem e do mal, e que por isso podem ser os julgadores e executores de um tipo de sentença, que se constitui em sentença de morte, um tipo de sentença que se não tem existência legal no Brasil, acaba por existir de forma "real", basta olhar um pouco mais com acuidade para a realidade das nossas periferias. Mais infelicidade é ver que tais ações ganham ecos de defesa por parte da população, o que se expressa nos embustes de que "bandido bom é bandido morto", "direitos humanos para humanos direitos", etc, quase sempre seguidas da expressão "e quem acha ruim, adota, leva pra casa, etc." ou dos impropérios de "defensor de bandido", "protetor de vagabundo", "quem defende bandido é porque tá se beneficiando de alguma forma", etc. Ou seja, o discurso de quem defende esses tipos de ação como sendo a panaceia para o problema da violência é, ao repetir tais frases como papagaios recalcados, medíocre e acrítico, para ficarmos somente nesses dois adjetivos.
O resultado vocês podem ver no número de pessoas mortas e no medo instalado que esvazia espaços públicos e contribui para aumentar a sensação de insegurança. E, infelizmente, todos nós somos culpados por isso. Esse sangue tá na mão de cada um de nós: de quem pede a redução da maioridade penal achando que ela vai acabar com a violência quando somente vai vitimizar quem é já é vitimizado há anos nesse país, as crianças; de quem pede que mais e mais bandidos sejam mortos e ignora que se o problema da violência não for tratado de uma outra forma "se eu morrer, nasce outro, igual ou pior ou melhor" e mais e mais sangue irá cair sobre a terra, vindo de todos os lugares; e de quem se cala diante disso, seja por medo, seja por comodidade.
Nessa tragédia, não existe inocentes; no máximo, inocentados.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Feira do Miriti na Festa do Círio*

*Versão com ligeiras modificações do texto que publiquei na edição de hoje (09/10/10) do jornal Diário do Pará (Caderno Cidade, Espaço do Leitor, p. A2), que vocês podem conferir ao final desta postagem.
 
Foto de Amarildo Ferreira Júnior
Foto de Amarildo Ferreira Júnior (2014)
Época de festa e de celebração cultural-religiosa, o Círio de Nazaré também é a época em que os Brinquedos de Miriti de Abaetetuba trasladam-se para a capital para colorirem as ruas e integrarem a estrutura extralitúrgica da festividade. Segundo o consenso histórico, tal artesanato-artístico está presente desde o primeiro Círio, em 1793, quando ocorreu a “Feira de Produtos Regionais da Lavoura e da Indústria” no local onde hoje é a Praça Santuário e que foi o embrião do que atualmente é o Arraial de Nossa Senhora de Nazaré. Em todos esses anos, a relação que esses brinquedos que deixam nossos olhos em festa mantêm com nossa magna celebração cultural-religiosa só aumentou, tendo propiciado a criação de feira própria.
Inicialmente na Praça do Carmo, local onde se deram os primeiros ajuntamentos espontâneos dos artesãos de miriti e suas girândolas durante a quadra nazarena, a feira já ocorreu também na Praça da Sé e, posteriormente, na Praça Waldemar Henrique, onde permaneceu por muito tempo, até ser transferida para a Praça D. Pedro II no ano passado, após separar-se da feira que o Sebrae ainda mantém na antiga Praça Kennedy.
A Feira do Artesanato de Miriti deste ano será inaugurada às 18h00 desta quinta-feira que antecede o Círio, após Cerimônia de Abertura na Catedral da Sé. Com a temática “Girândolas de Abaeté no Círio de Nazaré”, está sendo realizada pelo esforço conjunto dos artesãos de miriti, por meio da Associação dos Artesãos de Brinquedos e Artesanatos de Miriti (Asamab), com recursos obtidos por meio de emenda parlamentar com execução da superintendência estadual do Iphan. Segundo estimativas da Asamab e da Emater, só durante o Círio de Nazaré o artesanato de miriti movimenta cerca de 200 artesãos, gera trabalho para um número entre 600 e 800 pessoas em 38 comunidades rurais e urbanas de Abaetetuba, e comercializa em torno de 400 mil peças, gerando uma renda situada entre R$ 2 e R$ 4 milhões. Além disso, essa atividade ainda contribui para a preservação do miriti e de essências florestais em uma área com cerca de 800 hectares.
Mesmo assim, falta coerência do Governo do Estado em suas políticas voltadas à cultura, pois seria sensato que garantisse em seus próximos orçamentos recursos destinados para a valorização desse tipo de artesanato tão particular, uma vez que mesmo com seu reconhecimento como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará por meio de duas leis (Lei n.º 7.282/2009, para o MiritiFestival; e Lei n.º 7.433/2010, para os Brinquedos de Miriti), parece-nos que é considerado mais útil como ilustração de algumas das propagandas oficiais do que como expressão cultural com vastas importâncias sociais e econômicas para o Estado. E isso deve se estender também aos outros patrimônios culturais que o Estado reconheceu. Afinal, qual é a lógica das políticas culturais estaduais para tais patrimônios?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os mundos mudam*

 
Imagem obtida na página do Phototory
A cada passo dado: evolução
A cada justiça feita: devolução
A cada quebra de paradigmas: revolução.

Belém/PA, 19 de setembro de 2013
(Amarildo Ferreira Júnior)

*Poema selecionado no Prêmio TOC 140, ano IV, da Festa Literária Internacional de Pernambuco, e publicado na antologia Os Cem Melhores Poemas do TOC140, Ano IV, Poesia no Twitter, organizada por Antônio Campos e Cláudia Cordeiro.

 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O universo curvo de Niemeyer

Memorial da Cabanagem, Belém/PA

Ontem, li uma entrevista do Kadu Niemeyer, neto do arquiteto Oscar Niemeyer, e lembrei de uma atualização de status no meu facebook em 12 de janeiro de 2012 (aniversário de Belém), que teve participação especial do Allan Carneiro, que foi meu professor na Faculdade Ideal (FACI), em que falava da minha indignação com o que NÓS, paraenses, fazemos com o Memorial da Cabanagem. Abaixo, transcrevo o que foi dito na ocasião e também deixo um poema do Niemeyer, o último comunista vivo e maior arquiteto brasileiro.

Primeiro, a indignação...

Desenho de Oscar Niemeyer

Eu - até acordei feliz pelo aniversário de BelHell, mas quando passei pelo "Engarrafamento" e lembrei que somos a única cidade do mundo a pichar um monumento projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, muito da minha felizCIDADE se esvaiu!

Allan Carneiro - MEU AMIGO, NOSSA SINTONIA NO ASSUNTO É "GRITANTE". Sempre tive vergonha de nossa ignorância para com o mestre dos mestres da Arquitetura, inclusive o INOPERANTE CREA-PA nem se manifesta, já que congrega os arquitetos paraenses. Uma vergonha do poder público e que deixa a nossa cidade "pobre de rua" (inventei este termo para caracterizar este e diversos outros monumentos, praças e locais que estão sem conservação).

Eu - É verdade, caro mestre! Sempre que passo por ali sinto uma revolta!!! Onze em cada dez cidades do mundo querem um monumento assinado por Niemeyer e nós, única cidade da Amazônia a ter essa honra, não valorizamos esse privilégio. Fora o fato do monumento está pichado e ser abrigo para moradores de rua fazerem suas necessidades fisiológicas no local, usarem drogas, etc, ainda tem a questão de a grande maioria não conhecer qual o sentido do monumento e nem mesmo saber que foi projetado pelo Oscar. Na verdade, chego a pensar que muitos dos nossos não sabem nem o que foi a Cabanagem.
Assim, vemos nessa questão pelo menos 3 problemas lamentáveis: o abandono de nossas ruas, monumentos e pontos históricos e turísticos (já pensou se nós cuidássemos melhor de nossa urbanização e utilizássemos esse mesmo Monumento da Cabanagem associado ao nome de Niemeyer e ao fato de ser o único do arquiteto na Amazônia para promover o turismo local?!); a falta de políticas para os desabrigados de nossa cidade (nesse caso, políticas públicas que resolvam o problema e previnam sua ocorrência, não a aplicação de medidas higienistas como as aplicadas recentemente na Cracolândia); e a falta de valorização da nossa história no sistema educacional.

...depois, a admiração!!!!


Outro desenho de Oscar Niemeyer
Ângulo reto

Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
        criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre
        e sensual.
A curva que encontro nas
       montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher amada.
De curvas é feito todo o universo.
O universo curvo de Einstein.
(Oscar Niemeyer, em fev-1988) 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Moreninha

Mercado do Ver-O-Peso

Chuva da tarde é lenda tua
Que faz o cheiro de manga
Exalar em cada rua.

Belém 396 anos, 12 de Janeiro de 2012
(Amarildo Ferreira Júnior)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ocaso

The Raising of Lazarus (after Rembrandt), 1890 - Vincent van Gogh (1853-1890)


O Sol mergulha lentamente nas águas barrentas do Guajará
O Céu se pinta de um laranjado belo e inspirador
- Olha o Pôr-do-Sol, olha o Sol se pôr!


Na água, calma e brilhante, um pequeno barco passa a deslizar
O barulho de seu motor não quebra toda a Harmonia do momento
Mas se junta e completa o cenário, retoca o quadro do Criador
- Olha o Pôr-do-Sol, olha o Sol se pôr!

E ele desaparece lentamente, deixando espaço para Lua & Cia.

Mergulha o Sol nas águas barrentas,
Mergulha deixando caminho aberto para a boêmia
- Olha o Sol se pondo, olha o Sol se pôs!



Belém, Complexo Feliz Lusitânia
21 de Julho de 2009, 17:54
(Dom Aquiles Crowley)

Fora, Temer!