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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Resenha: Política externa brasileira, 1889-2002



Sobre o livro: de autoria de Letícia de Abreu Pinheiro, Política externa brasileira, 1889-2002 integra a coleção sobre história e cultura brasileira Descobrindo o Brasil, dirigida por Celso Castro, bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e atual diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV). Lançado pela Jorge Zahar Editora, o livro apresenta, em suas 81 páginas, explicitação da autora sobre a formação da política externa brasileira no período entre 1889, ano da proclamação da república no Brasil, a 2002, e consta como parte da bibliografia básica do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), do Instituto Rio Branco (IRBr).
Sobre a autora: Letícia Pinheiro é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre em Relações Internacionais pela PUC – Rio; doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics; integrou o CPDOC/FVG como pesquisadora e é integrante do Instituto de Relações Internacionais da PUC – Rio como pesquisadora e professora.

Letícia Pinheiro retrata em Política externa brasileira, 1889-2002 fatores básicos para o entendimento da formação da política externa brasileira a partir da Proclamação da República. A autora inicia definindo o que é política externa, que, de acordo com o que expõe na obra, é conjunto de ações e decisões de determinado ator, geralmente, embora não exclusivamente, o Estado, em relação a outros atores externos. Tais ações e decisões são formuladas a partir de oportunidades e demandas de natureza doméstica e/ou internacional, sendo conjugação dos interesses e ideias para inserção de um Estado no sistema internacional.
Logo após a explicação desse conceito, Pinheiro afirma que a ação externa brasileira representa tanto a busca por autonomia por meio da aproximação a pólos de poder mundial (inicialmente Inglaterra; logo após, Estados Unidos da América – EUA; e, atualmente, desponta a aproximação com a China), mas também a procura por diversificação de parcerias ou por maior participação nas instituições internacionais (exemplo disso é a constante exigência de uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas - ONU).
A obra apresenta claramente que no Brasil a estratégia adotada em política externa está pautada no alinhamento às potências mundiais, caracterizando-se pela busca do desenvolvimento, permanecendo isolada do debate público, tanto devido ao baixo impacto que assuntos de natureza internacional exercem sobre a lógica da competição político-partidária, quanto pelo relativo consenso que a política externa conseguiu instituir ou fazer parecer instituir.
Segundo Pinheiro, a Proclamação da República, em 1889, não trouxe grandes alterações na política externa brasileira, uma vez que pontos centrais da linha diplomática defendida pelos monarquistas permaneceram sendo apoiados pelos republicanos. Na verdade, a República, embora garantisse a permanência do modelo agrário-exportador como central na economia brasileira, consolidou o deslocamento do poder das elites em direção ao Centro-Sul, devido à substituição da cultura do açúcar pela do café, de grande atratividade no mercado estadunidense.
Essa transição econômica e política transferiu o alinhamento da política externa brasileira de Londres para Washington, sob a justificativa de promoção do complexo cafeeiro como principal interesse nacional, que, na prática, era interesse das elites.
Com a nomeação de José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco, principal figura do processo de definição e consolidação das fronteiras brasileiras, como substituto de Quintino Bocaiúva para o cargo de Ministro das Relações Exteriores no ano de 1902, um novo paradigma, definido como pragmático, foi estabelecido na política externa brasileira, tendo como eixo central a percepção de que os EUA constituíam um novo pólo de poder mundial e que buscavam a expansão do seu sistema capitalista e a hegemonia política e econômica no hemisfério, o que transformava a América Latina em sua área de influência e produzia a ideia de que o melhor meio de aumento de recursos de poder do Brasil seria uma maior aproximação com Washington, numa relação de vantagens e ganhos recíprocos, mas assimétricos, pois os ganhos estadunidenses foram escandalosamente mais vultosos do que os brasileiros.
Para os EUA, o real interesse na aproximação com o Brasil era reforçar os princípios da Doutrina Monroe (nota 1) e do Corolário Roosevelt (nota 2), que, segundo a concepção da “ingênua” elite brasileira, não se constituíam em faces do imperialismo do país das listras e estrelas, mas em um recurso defensivo contra o imperialismo europeu. A aceitação aos princípios da Doutrina resultou numa percepção dos demais países latino-americanos de que o Brasil desempenharia o papel de co-responsável e “guarda” dos EUA dentro do continente.

NOTA 1: a Doutrina Monroe se originou em 2 de dezembro de 1823, quando James Monroe, então presidente dos EUA, se pronunciou no Congresso estadunidense a cerca de três princípios contra o colonialismo europeu nas Américas: impossibilidade de criação de novas colônias ao longo do continente; intolerância à interferência de nações europeias em questões internas; e a não participação estadunidense em conflitos envolvendo países europeus. Colocando-se contra a ameaça de países europeus integrantes da Santa Aliança, como Áustria, Rússia e França, de voltar a colonizar países americanos, pregava a “América para os americanos”. A própria indústria do entretenimento americana adotou esses princípios e os Estúdios Walt Disney, por exemplo, lançaram dois filmes direcionados pelos princípios de Monroe: Você já foi à Bahia (The Three Caballeros, no original) e Saludo Amigos (4ª parte do filme abaixo), em que apresenta “costumes” estereotipados de algumas regiões da América Latina. São nesses filmes que surge a personagem brasileira de Walt Disney: o papagaio e malandro Zé Carioca.

 

NOTA 2: O Corolário Roosevelt foi uma resposta ao bloqueio naval conjunto da Inglaterra, Itália e Alemanha em 1902 à Venezuela, por ocasião da negação no pagamento de suas dívidas nacionais pelo presidente Cipriano Castro, que alegava que os juros eram extorsivos e lesivos. Sendo uma afirmação do “direito” dos EUA de intervirem na política da América Latina, foi constituído de um documento enviado ao Congresso estadunidense pelo presidente Theodor Roosevelt no ano de 1904, considerado como complemento à Doutrina Monroe, afirmando que os EUA não aceitariam demonstrações de força nas suas áreas de interesse, ainda que com motivos aceitáveis.

Todavia, o fim da monarquia no Brasil facilitou a aproximação com os vizinhos continentais, todos republicanos. Tal fenômeno, considerado por alguns estudiosos como uma americanização do Brasil, ou sua republicanização, como definiu Amado Cervo e Clodoaldo Bueno, foi favorecido pelo movimento pan-americanista de maior solidariedade e compromisso entre os povos americanos, resultando em período de relativa estabilidade política continental, que atenuou inclusive a tradicional disputa com a Argentina por hegemonia na América do Sul.
Posteriormente, com a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial em outubro de 1917, após torpedeamento de navios mercantes pelos alemães, o país se qualificou a participar da Conferência de Paz de Paris na condição de aliado e a assumir um assento rotativo no Conselho da Liga das Nações, projetando sua política externa para além dos limites do continente. Inicia-se, assim, a percepção das elites governantes de que o Brasil seria detentor de suposto direito de reconhecimento pela comunidade internacional de seu diferencial na hierarquia mundial, e passa, portanto, a lutar por um assento permanente no Conselho da Liga, contrariando os acertos dos Acordos de Locarno (1925), que concedeu o assento à Alemanha, o que culminou na retirada brasileira da Liga, que defendia o assento como direito adquirido pela sua contribuição ao esforço de guerra e pelo princípio de igualdade jurídica dos Estados, defendido pelo jurista Rui Barbosa desde a Segunda Conferência de Haia (1907).
No livro, Pinheiro afirma que, durante a República Velha e sob a gestão do Barão, houve a padronização da origem social dos novos diplomatas, possibilitando a homogeneidade e a coesão do meio. Zairo Cheibub classifica esse período como “carismático”, pois nele o Itamaraty acumulou prestígio graças aos feitos do Barão, sobretudo na consolidação das fronteiras brasileiras, e a seu surpreendente carisma. Entretanto, o “período carismático” enfraqueceu a estrutura administrativa da diplomacia brasileira, devido o perfil centralizador do Barão. Com o falecimento do Barão em fevereiro de 1912, quando assume o cargo de ministro das Relações Exteriores Lauro Severiano Muller, inicia-se o que foi denominado por Cheibub de “período burocrático-racional”, onde foram implementadas inúmeras reformas, como a reabertura de concurso para acesso à carreira, a padronização da correspondência e a substituição do francês pelo português como língua diplomática oficial, por exemplo. Tal período perdurou até o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945), em que houve uma reformulação mais ampla da administração pública.
Enfim, isso é parte do que o excelente livro de Letícia Pinheiro apresenta. Para verificar com mais profundidade o que foi apresentado e também ter conhecimento sobre o que a autora fala sobre os períodos posteriores à Velha República, é interessante ler o livro na íntegra, e a conclusão que se pode chegar sobre a obra é que o Brasil continua mantendo uma constância em seus padrões de política externa, que visa à diversificação de relações, mas sempre com um lastro mais forte com uma potência mundial, que, na atualidade, oscila entre China e EUA. Também é característica do Brasil um discurso de preservação da autonomia e soberania política dos Estados, evitando posicionamentos explícitos sobre medidas de intervenção internacional, porém isso é assunto que pode ser abordado em outra postagem.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Resenha: Administração, poder e ideologia

“Cada vez que na área do político sois chamados de 'meus filhos', a esfera de vossos direitos políticos desaparece.” Maurício Tragtenberg (1929-1998)

Editora: UNESP
Edição: 3ª edição revista, 2005
Sobre o autor: Maurício Tragtenberg (1929-1998) – descendente de imigrantes judeus, foi filiado ao PCB, de onde foi expulso por suas leituras das obras de Leon Trótski. Socialista libertário e autodidata, conseguiu habilitação para prestar vestibular na USP sem ter o primário concluído pela aceitação do ensaio Planificação - Desafio do século XX, sendo aprovado no curso de Ciências Sociais e, posteriormente, no curso de História. Doutor em Política pela USP, título adquirido durante a Ditadura Militar, foi professor de graduação e pós-graduação na PUC/SP, USP, UNICAMP e da EAESP-FGV. Crítico da burocracia acadêmica, foi um dos precursores do estudo da pedagogia libertária no Brasil. Manteve durante vários anos a coluna No Batente para o Jornal Notícias Populares, de São Paulo, além de ter publicado 8 livros e inúmeros artigos em jornais e revistas de grande circulação no país.
Preço: entre R$ 28,80 e R$ 32,00.
Analisando as teorias e práticas administrativas, Tragtenberg apresenta em Administração, poder e ideologia, publicado pela primeira vez em 1976, uma análise de como as organizações se estruturam para assegurarem a harmonia entre seus interesses e os interesses dos trabalhadores, anulando o indivíduo no mundo industrial para assegurar o alcance e o aumento progressivo do lucro. Dividido em 4 capítulos (A ideologia administrativa das grandes corporações; A cogestão e o participacionismo ou "Alice no país das maravilhas"; Exploração do trabalho I; e Exploração do trabalho II), além da Conclusão, o livro demonstra que, na indústria moderna, a liberdade é substituída pela unidade de comando e nesse cenário as relações se dão sob a forma de negociação.
A obra apresenta como se deu o início da escola participacionista na Alemanha, França e Bélgica, e atenta para o fato de que a corporação concentra poder econômico semelhante a um partido político ou à Igreja católica, detendo a hegemonia na sociedade industrial. Analisando o pensamento de Peter Druker, Adolf Berle e outros pensadores das organizações do século XX, Tragtenberg destacou a luta de poder entre trabalho e gerência, escondida sob a manifestação de reivindicação salarial, tornando necessária a neutralização do elemento causador do conflito.
Outro grande obstáculo a ser superado é a participação operária nas decisões da empresa, pois, de acordo com a obra, as organizações buscam mecanismos para evitar que o trabalho usurpe as funções de poder gerencial legitimadas, tornando, segundo Tragtenberg, a corporação cada vez mais antissocial e privatista.
No decorrer da obra, Tragtenberg apresenta o caráter sagrado do chefe, a impessoalidade da organização e a subentendida concepção individualista como fatores marcantes na estrutura hierárquica empresarial. E essas relações hierárquicas utilizam conceitos mecanicistas como forma de evitar colapsos, reduzindo o subordinado à dependência do saber e do poder, da mesma forma como se dá a relação educacional, onde o aluno se ver como ator passivo no cenário que a escola representa.
De acordo com a obra, “relações humanas” é um engodo escondido por trás do diálogo e da participação, que permite à empresa agir sobre indivíduos e grupos para provocar neles as atitudes que lhe convêm, sendo, portanto, simplificadora e idealista, manipuladora e realista, constituindo novo recurso para alcance de maior produtividade do trabalhador.
Nesse ponto, é apresentado o contexto histórico da origem das relações humanas, difusora da não-diretividade, da pedagogia da direção, da solução de conflitos, e da tomada de decisão. Preocupada com a dominação de conflitos, as relações humanas se institucionalizam com a pregação do uso da diplomacia, em detrimento do autoritarismo, nas relações entre capital e trabalho, surgindo, assim, na década de 1950, a humanização do trabalho (França), a humanização na empresa (Itália), e as técnicas de cogestão (Alemanha).


“ceder um pouco de poder aos trabalhadores
pode ser um dos melhores meios de aumentar sua sujeição,
se essa lhes dá a impressão de influir sobre as coisas
(David Jenkins – Job power, Nova York, 1973, p.319-20)”



Tragtenberg concebe a empresa como produtora de excedente de trabalho onde se manifesta a oposição de classes, mas também como aparelho ideológico que extrai do trabalhador aquilo que é mais do que necessário para maior lucratividade. Nesse sentido, o trabalhador se apresenta como apático politicamente, pois o poder da organização fragmenta as classes sociais em indivíduos.
Logo, após o autor apresentar práticas aplicadas em empresas estadunidenses e brasileiras, conclui que o objetivo da organização moderna com o uso das práticas próprias das relações humanas é manipular a mão-de-obra, ocultando conflitos no nível político, para garantir a não divisão do poder. Assim, a obra demonstra que a cogestão e as práticas participativas permitem, além das manipulações patronais, a garantia da paz e da harmonia social e a mutação da sociedade por meio da empresa.

“(...) pagar o mais baixo possível numa organização é pagar com status
(Maurício Tragtenberg)

sábado, 3 de abril de 2010

Resenha A Administração de custos, preços e lucros

Nome do Livro: A Administração de Custos, Preços e Lucros
Autor: Adriano Leal Bruni – mestre e doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e sócio da Infinita Consultoria e Treinamento.
Editora: Atlas, 3ª Edição (2008)
Preço médio: R$ 60,00


Adquirido na XIII Feira Pan-Amazônica do Livro, realizada em novembro de 2009 no Hangar – Centro de Convenções e Feiras da Amazônia –, este livro apresenta conhecimentos básicos para qualquer profissional ou estudante das áreas administrativa, contábil ou financeira, que, entretanto, nem sempre buscam tais conhecimentos, ficando, nesses casos, com a empregabilidade comprometida. Quinto livro da série Desvendando as Finanças, a obra é dividida em 9 capítulos, sendo o último apresentação de um recurso elaborado por Bruni e disponível no site da editora Atlas ou no site dos livros da série (site Minhas Aulas), chamado de modelo CUSTOFACIL.XLS, tratando-se de uma planilha eletrônica que pode ser aplicada para análise de ponto de equilíbrio, decisões sobre materiais diretos, realização de rateios e elaboração de preços para comércio, serviços ou indústria. Além da CUSTOFACIL.XLS, existem outros recursos nos sites mencionados, como slides elaborados pelo autor e a resolução completa de todos os exercícios apresentados no decorrer do livro, dentre outros recursos.

O objetivo da obra, segundo o próprio autor, é apresentar de forma clara e simples os principais conceitos associados ao processo de registro e gestão de custos, o que realmente ocorre e justifica minha indicação do livro. Entretanto, convém citar que o livro pode frustrar o leitor que deseje ter uma obra em que as lições são apresentadas com aplicação prática no Excel ou na calculadora HP12C, uma vez que o livro traz em sua capa a citação “com aplicações na HP12C e Excel” e só apresenta tais aplicações nas páginas 144, 145 e 289 a 294 (aplicações com a HP12C) e no capítulo 9 (aplicações com o Excel, sendo este capítulo dedicado exclusivamente à apresentação da CUSTOFACIL.XLS). Considero também um erro o excesso de divulgação dos outros livros da série, que são indicados na orelha do livro, na apresentação da série, no final de cada capítulo e, em alguns momentos, no meio dos capítulos, o que ficou desgastante e gerou a sensação de que a editora, o autor ou ambos desejam enfiar goela abaixo e de qualquer forma a série toda, quando acredito que deveriam apostar no interesse que a leitura do livro geraria para obtenção dos outros de forma mais natural ou, se induzida, de forma menos “violenta”. Ademais, o livro é de boa leitura e tem certa contribuição para uma boa formação profissional, principalmente por apresentar uma quantidade de exercícios que facilita a fixação dos conceitos aprendidos.

Inicialmente, no capitulo 1 (Os custos, a Contabilidade e as Finanças), Bruni apresenta conceitos como o de Contabilidade Financeira, patrimônio, resultado e fluxo de caixa, com as respectivas importâncias e os seus componentes. O capítulo apresenta a estrutura de balanço patrimonial e aborda a questão dos prazos de pagamento ou recebimento. Também são apresentados nesse capítulo os regimes de competência e de caixa, os principais termos técnicos contábeis (gastos, receitas, custos, deduções, investimentos, despesas, resultado, perdas) e as visões da contabilidade financeira, da gerencial e da contabilidade de custos, fazendo-se um paralelo entre elas e entre a contribuição que cada uma traz para a empresa.

O capítulo 2 (Os Custos e a Contabilidade Financeira) vem apresentar as diferentes formas de classificar os custos (em função da forma de associação aos produtos elaborados, de acordo com a variação em relação ao volume produzido, de acordo com a controlabilidade, em relação a alguma situação específica ou em função da análise do comportamento passado) e o custeio por absorção. O próximo capítulo (Os Custos e a Contabilidade Gerencial) apresenta a forma como as decisões se relacionam com os gastos, descrevendo os gastos fixos e variáveis e a implicação de cada um desses no processo decisório, além de apresentar a relação custo-volume-lucro dentro da contabilidade gerencial. Aqui também é apresentado o conceito, a análise e as diferentes formas de calcular o ponto de equilíbrio; o que são e qual a importância dos três tipos de alavancagem e das margens de segurança, apresentando-se, também, os conceitos de ROI (Retorno sobre o Investimento) e ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido).

O quarto capítulo (Os Custos e seus Componentes) apresenta os três componentes formadores dos custos (Material Direto, Mão-de-Obra Direta e Custos Indiretos de Fabricação), apresentando formas de calcular cada um destes e maneiras de realizar seus lançamentos contábeis para auxiliar na tomada de decisões. Este capítulo também apresenta três critérios que podem ser utilizados para avaliação do estoque de mercadorias – PEPS (Primeiro que Entra, Primeiro que Sai), UEPS (Último que Entra, Primeiro que Sai) ou Custo Médio Ponderado – citando suas respectivas vantagens e desvantagens. Também são apresentados conteúdos referentes à programação de compras e estoques de materiais diretos (cálculos de custo de estocagem, custo de pedido, estoque médio, intervalo de pedido, número de ressuprimentos a serem realizados num determinado intervalo e Lote Econômico de Compra) e à mão-de-obra ociosa durante a produção. Além desses conceitos, são apresentados os principais centros de custos e a importância de sua utilização para facilitar o processo de rateio dos custos e alocação das despesas aos produtos. Por fim, o capítulo apresenta o custeio por atividades e é nele a primeira vez que o autor apresenta uma aplicação da HP12C, descrevendo como a calculadora pode efetuar cálculos de média aritmética simples ou ponderada.

No capítulo 5 (Os Custos e A Margem de Contribuição), Bruni faz uma comparação entre o custeio direto e o custeio variável, apresenta a margem de contribuição e sua importância e descreve os principais problemas no rateio dos custos, sugerindo soluções e adaptações das formas de rateio para cada situação apresentada. Há neste capítulo uma abordagem sob a ótica da Teoria das Restrições associada à margem de contribuição para determinação do mix de produtos que deve ser produzido. O capítulo 6 (Tributo, Custos e Preços) vem apresentar como os diferentes impostos, sobretudo o Imposto de Renda e a forma de sua tributação adotada pela empresa, implicam na administração dos custos e formação dos preços. Para isso, Bruni apresenta as três formas de tributação do IR no Brasil (Lucro Real, Presumido ou Simples Nacional), descrevendo as principais vantagens de cada uma e em qual momento uma vai ser mais vantajosa que as outras duas. Mas, Bruni não se resume apenas a apresentar as formas de tributação do IR, ele também apresenta tabelas com as porcentagens de que são aplicadas a cada atividade e descreve quais atividades se encaixam em qual forma de tributar o IR. O autor também apresenta as formas de se calcular impostos “por dentro” ou “por fora” e explica a cumulatividade ou não-cumulatividade fiscal e a substituição tributária, além de apresentar os principais impostos associados à formação de preço e maneira de trabalhar com cada um deles nesse processo (Cofins, PIS, IR, CSSL, ISS, ICMS, IPI). Interessante é que Bruni divide didaticamente os impostos em Impostos Gerais (Cofins, PIS, CSSL, IR) e Impostos Específicos (ISS, ICMS e IPI – impostos para serviços, comércio e indústria, respectivamente), o que facilita o processo de aprendizado. Quanto ao ICMS, Bruni tem maior cuidado ainda ao apresentar a forma como se dá a cobrança deste em relações comerciais entre os Estados diferentes ou quando este possui substituição tributária.

O capítulo 6 (Os Custos, os Preços e os Lucros) trabalha com três diferentes métodos de formar preços (baseado em custos, baseado no valor percebido ou análise da concorrência). É apresentada aqui a relação entre preços, custos e valores percebidos e é nesse capítulo que se enumera os componentes do preço (lucro, impostos, despesas e custos). Bruni também apresenta a maneira como se elabora e aplica uma taxa de marcação (Mark-up) e atenta para o fato de que não se deve usar uma única maneira de elaboração de preço para evitar preços que não correspondam ao valor dado ao produto/serviço ou preços fora de uma intersecção que traga benefícios tanto para o consumidor como para a empresa. Aqui também é feita uma relação entre lucratividade e rentabilidade como forma de avaliação de desempenho de uma empresa. É nesse capitulo que aparece, pela segunda vez, aplicações da HP12C, agora já sob uma ótica financeira levando em consideração juros, valores presentes ou futuros e séries de pagamentos antecipadas ou postecipadas.

Por fim, o capítulo 8 (Os Preços, o Marketing e a Estratégia) é o único em que não há predominância de cálculos, mas tem sua importância justificada ao atentar para a importância do posicionamento estratégico nas empresas. O capítulo vem apresentar conceitos como valor percebido e seus condicionantes, posicionamento de produtos e sua relação com a formação do preço, formas de percepções do produto, cadeia de valor e estratégia de negócios, apresentando, para tanto, vários casos práticos, inclusive em seus exercícios, alguns dos quais adaptados mas que, com um pouco de conhecimento de mercado e de percepção, podem ser identificados.

Bem, como disse no inicio deste artigo, o que me influenciou a indicar esse livro como uma foi a simplicidade como o autor expôs seus conhecimentos, alguns dos quais eu já até possuía, mas, no todo, sua leitura me enriqueceu um pouco mais, cumprindo o que se propôs. Como principal ensinamento, posso dizer que o livro me mostrou que não é tão complicado gerir custos e formar preços para atingir lucro, bastando, para tanto, não utilizar apenas este ou aquele método, mas integrar todo o conjunto de conhecimentos adquiridos e aplicá-los associadamente, buscando sempre o ponto de inflexão que melhor se apresentar.

Até a próxima Resenha!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Resenha Cultura Organizacional e Cultura Brasileira

Nome do Livro: Cultura Organizacional e Cultura Brasileira
Editora: Atlas
Edição: 1ª edição (1997), 7ª Tiragem
Organizadores: Fernando C. Prestes Motta (foi professor titular na Escola de Administração de Empresas de São Paulo – FGV e professor livre-docente da Universidade de São Paulo; seus campos de pesquisa e docência têm sido Administração de Empresas, Administração Pública e Administração da Educação, pelos quais já publicou cerca de 50 trabalhos entre livros, artigos, comentários e resenhas) e Miguel P. Caldas (é graduado em Administração pela UnB, mestre e doutor em Administração pela EAESP – FGV, de onde é professor).
Preço: entre R$ 60,00 e R$ 70,00.
Após uma pausa para as comemorações de Natal e Réveillon e para a análise do que foi feito no ano que terminou, além de projeções do que queremos realizar nesse novo ano, nada melhor do que iniciar 2010 enriquecendo nosso conhecimento, já que estamos em plena Era da Informação, onde só se desenvolvem plenamente como pessoas e profissionais aqueles que obtêm os conhecimentos adequados e, mais importante que isso, sabem utilizá-los da melhor forma. Por isso, irei comentar um pouco sobre o livro Cultura Organizacional e Cultura Brasileira, obra organizada por Fernando C. Prestes Motta e Miguel P. Caldas. Li o livro em setembro de 2009, movido, em primeiro lugar, pelo meu interesse por cultura (que ficou excitado ao verificar o quanto a cultura de uma organização brasileira é influenciada pelas manifestações da cultura nacional) e, como segunda motivação, mas não menos importante, por ter utilizado conceitos apresentados no livro na elaboração de um projeto de pesquisa que busca analisar os resultados gerados pelo Programa de Qualidade na Gestão do Estado do Pará (PQG) à luz das influências da cultura nacional sobre a maneira como é direcionada a administração pública no Brasil.
A obra, dividida em seis partes, totaliza 19 textos e conta com a participação de 25 autores, além de Caldas e Motta, seus organizadores. Nela, é apresentada uma análise de como o contexto social e cultural nacional influenciam na construção do comportamento presente nas organizações brasileiras em seus diferentes níveis hierárquicos. Rico em conhecimento, o livro apresenta todo um contexto histórico-social de criação da sociedade brasileira e dos traços que a caracteriza, estabelecendo de que forma tais traços adentram nas organizações e como se manifestam. Porém, antes de me aprofundar na análise da obra, convém apresentar um pouco do tema e destacar sua importância, sobretudo para estudantes e profissionais das Ciências Sociais.
       Estudos sobre cultura organizacional são relativamente recentes, passando a aparecerem com maior frequência no mundo a partir dos anos 1980, quando a globalização passou a se intensificar, sobretudo com o maior acesso a novos mercados pelas empresas multinacionais, embora no final da década de 1960 e durante a década de 1970 terem se destacado os trabalhos de Geert Hofstede e Edgard Shein, que utilizavam conceitos e pressupostos da psicologia social e da antropologia para analisar e gerar conclusões sobre a formação e manifestação do comportamento organizacional. A influência exercida pela globalização nessa perspectiva organizacional que foi vista, em seu início, como mais um modismo dentro do estudo das organizações, consolidando-se mais tarde como importante linha de pesquisa, foi a necessidade de conhecer questões relacionadas à cultura de determinadas regiões para assim poder conceber os melhores modelos de gestão, tornado eficiente os procedimentos adotados na prática gerencial e gerando os melhores resultados, lógica e razão de ser da Administração. Entretanto, o Brasil só veio atentar para a importância do tema a partir do final da década de 1980 e inicio de 1990, e mesmo assim ainda com fraca aplicabilidade no contexto nacional, pois nessa e em muitas áreas ainda predomina a dominação de teorias e técnicas estrangeiras não adaptadas às nossas peculiaridades, quando aquelas deveriam servir apenas como ponto referencial para podermos construir conhecimentos voltados para nossa realidade, ponto onde a obra aqui analisada constitui-se rara exceção.
Ora, o conceito consagrado para cultura sugere esta como sendo um sistema de crenças, costumes, ideologias, valores, leis, rituais, símbolos e estilos de vida que contém uma série de significações e interpretações da realidade, sendo compartilhado por um grupo de pessoas. Na verdade, essa cultura é formada por um determinado grupo de subculturas que interagem entre si dentro de um grupo definido de pessoas, como, por exemplo, a cultura brasileira, que possui suas particularidades regionais, mas no seu todo apresenta traços fortes e bem definidos que caracterizam a maioria dos brasileiros, servindo, inclusive, de meios pelos os quais uma pessoa se assume brasileiro, sendo este o ponto de partida para a explanação, ou melhor, para as explanações apresentadas no livro.
Motta e Caldas consideraram a importância de se compreender a diversidade cultural para após usá-la na geração de valor para a organização, seja esta pública ou privada. Para possibilitar tal compreensão, eles utilizam-se da análise da cultura nacional, pois é bem demonstrado no livro como esta influencia na cultura de uma organização. O conceito de cultura organizacional parte do axioma de que uma organização é formada por um conjunto de pessoas que compartilham objetivos comuns ou, pelo menos, dependentes. Assim, uma organização não existe sem pessoas e estas possuem culturas próprias, adquiridas no meio onde vivem e por suas experiências de vida, que são levadas para dentro da organização e, uma vez dentro desta, interagem com outras culturas presentes originando a cultura organizacional, que é a reunião de traços culturais presentes na organização que passam a ser compartilhadas pelas pessoas por meio de rituais, valores e crenças disseminadas, além de normas, linguagens, formas de comunicação e símbolos, que ajudam a afirmar e reafirmar a cultura adotada pela organização.
            Caldas e Motta utilizam-se do pressuposto de que os indivíduos adotam traços particulares da cultura brasileira para se enxergarem como brasileiros e tais traços são transferidos para seu ambiente de trabalho, o que influencia diretamente a formação da cultura organizacional, criando assim estilos brasileiros de administrar e também de ser gerenciado. Segundo eles, esses traços possuem como origem todo um desenvolvimento histórico, econômico e antropológico que se deu desde a chegada dos colonizadores em nosso solo, passando pelo tráfico negreiro, Proclamação da República, Golpe Militar, entre outros fatos. Destaca-se nesse processo de formação da cultura brasileira e, posteriormente, da cultura de nossas organizações, o papel do português, raça que exerceu influência por um longo período de tempo, principalmente com o que é considerado no livro como falta de orgulho de raça (capacidade de hibridização portuguesa ocasionada pelo constante contato dos povos da Península Ibérica com diversos outros povos, principalmente mouros, e que encontrou em solo brasileiro condições propicias à sua continuidade), com a inclinação para exaltação da sexualidade e com o paternalismo herdado a partir da vinda da Coroa portuguesa em 1808, trazendo consigo uma legião de pessoas que eram alocadas em cargos específicos apenas para manterem seu status quo e receberem uma fatia do Tesouro sem nenhuma contribuição efetiva para o reino que se instalava, hoje refletindo no repudiado nepotismo e apadrinhamento de aliados políticos.
            Nas diversas fases passadas pelo “Impávido Colosso”, verifica-se uma alternância na detenção do poder, nos objetivos das políticas públicas e nos referenciais adotados (no príncipio em Portugal, depois França e Inglaterra e, relativamente mais recente, Estados Unidos). Tais fatos influenciaram cabalmente a formação do imaginário nacional, que é apresentado no livro pela maneira como vemos as figuras do estrangeiro e do pai, por nossa flexibilidade e criatividade (exemplificadas no jeitinho brasileiro e na maneira como encaramos o termo “malandro”) e, também, por nossos paradoxos. Segundo o livro, o brasileiro é caracterizado por traços como a distância do poder, o personalismo, a malandragem, o sensualismo, o espírito aventureiro e o formalismo, que são apresentados em seis partes: Cultura, cultura organizacional e cultura brasileira; Cultura organizacional brasileira e figuras recorrentes: o "estrangeiro" e o "pai'; Imaginário brasileiro e cultura organizacional; A cultura organizacional e o cotidiano nas organizações brasileiras; Cultura organizacional e cultura popular brasileira: futebol, samba e Salvador da Bahia; e Reflexões: cultura organizacional e nossas organizações.
            Os autores do livro consideram que no Brasil as organizações apresentam alta distância do poder quando analisamos a relação líder-liderado, fruto, principalmente, do sistema escravocrata adotado no passado, onde o senhor convivia constantemente com seus escravos, porém existia a separação dos dois mundos, representada pelo simbolismo da casa-grande e da senzala. Também citam como exemplo o carnaval, manifestação de origem popular que a elite passou a adotar e onde as diversas classes sociais, embora compartilhem o mesmo espaço, estão separadas, distantes: a elite como destaque no alto dos carros alegóricos e os menos abastados abaixo, desfilando na avenida, formando um de nossos tantos paradoxos. O personalismo também apresenta antíteses, pois, sendo a busca por relações pautadas no afeto, no domínio moral e econômico, é o avesso da distância de poder, porém não tem pretensão e condições de extingui-la. Na verdade, é a busca pela aproximação por meio de gostos em comum, laços afetivos, morais ou econômicos para estabelecimento de uma rede de relacionamentos capaz de nos trazer benefícios, que se manifesta no paternalismo, apadrinhamento, nepotismo, coronelismo e desigualdade no tratamento dos indivíduos, pelo lado negativo, e pela nossa celebrada hospitalidade e solidariedade, na outra face da moeda.
            Na análise apresentada pelo livro, tem espaço especial um traço que é exaltado por uns e condenado por outros: a malandragem, ou, na sua forma eufemística, o jeitinho brasileiro, utilizado para adquirir vantagens, apresentar soluções e, mais ainda, como meio de navegação social, pelo o qual nos adaptamos às situações e, geralmente, as revertermos a nosso favor, as vezes de maneira benéfica, outras em forma de corrupção. Aliás, o jeitinho implica no formalismo, que é a necessidade de colocar todos os assuntos com defesa em lei, uma vez que a malandragem cria mecanismos para burlar leis, ocasionando a necessidade de sanção de novas legislações, originando o enorme número de leis existentes no papel sem efeitos na prática. Ademais, somos apresentados com maior inclinação para os sonhos do que para a disciplina e com grande tendência à aversão ao trabalho metódico ou manual, o que caracteriza nosso espírito aventureiro, herdado, em grande parte, dos colonizadores portugueses, que eram grandes navegadores e escravocratas. Um exemplo é a nossa consideração de que trabalhos braçais são menos nobres e dignos do que outros tipos de atividades, herança do sistema escravocrata, onde tais atividades eram exercidas pelos escravos.
            Pelo o que foi apresentado até agora, o leitor pode formar uma opinião de que o livro destaca apenas os lados negativos de nossa cultura, o que não é verdade. Acredito que o principal objetivo de Caldas e Motta ao organizarem os artigos que compõem o livro era apresentar argumentos e fatos observados que nos permitam desenvolver nosso senso crítico e analítico, refletindo sobre a realidade e a forma como esta se formou para, a partir daí, poder agir sobre ela e modificá-la, utilizando nossa capacidade de lidar com o ambíguo e com o miscigenado para transformar problemas em soluções, pontos fracos em pontos fortes e ameaças em oportunidades, não só adaptando ou dando um “jeitinho” nos fatos e situações, mas agindo ativamente sobre a realidade. Para tanto, destaco os capítulos 5 (Gerência e autoridade nas empresas brasileiras: uma reflexão histórica e empírica sobre a dimensão paterna nas relações de trabalho, Eduardo Paes Barreto Davel e João Gualberto M. Vasconcelos), 13 (Cultura brasileira e organização cordial: ensaio sobre a Torcida Gaviões da Fiel, André Lucirton Costa), 14 (A cultura brasileira revelada no barracão de uma escola de samba: o caso da Família Imperatriz, Sylvia Constant Vergara, Cintia de Melo Moraes e Pedro Lins Palmeira) e 19 (Compreendendo as organizações latino-americanas: transformação ou hibridização?, Marta B. Calás e Maria Eugenia Arias) como excelentes pontos referenciais nesse processo de compreensão da sociedade brasileira.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Resenha Memórias Póstumas de Brás Cubas



“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.”
(Machado de Assis)

Nome do Livro: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Publicação: 1880
Autor: Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Filho de mulato em uma sociedade escravocrata, Machado de Assis foi autodidata. Aos 15 anos, começou a trabalhar em uma tipografia, o que possibilitou conhecer escritores importantes, abrindo-lhe caminho para a carreira literária. Sua primeira publicação foi um poema na revista Marmota Fluminense, em 1855. Logo após, torna-se burocrata, galgando cargos até conquistar a posição de Ministro substituto. Entretanto, tal carreira era mantida apenas para ganhar o sustento que o possibilitava escrever. Foi um dos principais responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras, em 1896, da qual é eleito presidente vitalício. Consagrado como o maior escritor brasileiro, é enterrado com pompa no Rio de Janeiro em 1908, quatro anos após a morte de sua esposa, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais. Suas obras são carregadas de ironia e sarcasmo, pessimismo e ceticismo, contribuição das experiências vividas (como o grave preconceito racial da família de sua esposa), da gagueira e da saúde precária que viveu a partir dos 40 anos, quando se agravou a epilepsia.
Preço: o livro pode ser encontrado numa faixa de preço que compreende, em média, R$ 7,00 à R$ 70,00, dependendo da editora ou do formato do livro, podendo também ser adquirido no formato PDF e gratuitamente no site Domínio Público, do Ministério da Educação (MEC).

Primeiro livro que li de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas foi seu quinto romance e marca a transição que o autor realizou do Romantismo inicial de sua carreira, recheado de fantasias e inconstâncias, para o Realismo, sendo considerado por muitos a obra que introduziu essa nova escola literária no Brasil. A partir desse romance, Machado assume a postura que o caracterizaria no plano literário, tornando-se crítico sagaz da Sociedade em que vivera e surpreendendo o público e a crítica literária da época, causando, como resposta à ousadia apresentada na obra, um silêncio frente ao livro e sua difícil classificação entre os estilos literários até então existentes. Aliás, a ousadia de Memórias gerou uma falta de interesse do público, sobretudo o feminino que o lia em revistas, e uma reação de boicote por parte da crítica, que supervalorizava obras de menor qualidade literária para, assim, ofuscar a história de Brás Cubas, o defunto-autor de Memórias Póstumas. Tal reação se exemplifica no fato de que entre a 1ª e 2ª edição do livro transcorreram 15 anos (1880-1896).
Memórias Póstumas foi publicado originalmente como uma série de folhetins na Revista Brasileira em 1880, transformando-se, no ano seguinte, em um livro com correções realizadas por Machado. O livro é todo escrito em primeira pessoa e apresenta a biografia de Brás Cubas, que decide contar sua história de forma franca e isenta diretamente do túmulo, tornando-se um defunto-autor, como o próprio se apresenta no primeiro capítulo (Óbito do Autor). O humor negro e a ironia perpassam todos os capítulos do livro, inclusive o prólogo e dedicatória, pois, de acordo com o autor, Brás Cubas é particular por possuir rabugens de pessimismo.
A obra possui o poder de incluir o leitor na história, dando-lhe vida e contornos no texto, por vezes subestimando seu entendimento e inteligência e, por outras, o convidando a refletir. Agressivo, Machado de Assis utiliza recursos narrativos e gráficos inusitados, como capítulos curtos e até em brancos, que quebram o ritmo da narrativa e convidam à reflexão, ou o embaralhamento da ordem cronológica dos capítulos, associados a uma inteligência e ironia que corta a carne do leitor, mas que também o surpreende a cada página e o prende a cada linha lida. Suas palavras buscam deslocar o foco de interesse do romance tradicional, colocando a forma como seus personagens veem e sentem as circunstâncias em que vivem em primeiro plano, caracterizando o interior das personagens e apresentando suas contradições e problemáticas existenciais, estilo de escrita conhecido como romance psicológico.
Em sua abertura, o livro apresenta uma dedicatória escrita sob a forma de um epitáfio, que dá início a apresentação do inusitado autor do livro, Brás Cubas, e já traz um pouco do humor negro e cético que irá caracterizar a obra. Brás Cubas, conhecido entre os críticos literários como “o grande hipócrita da Literatura brasileira”, é um homem que passou a vida sem conquistar nenhuma realização (como se conclui no capítulo final Das Negativas), sem possuir objetivos definidos e apresenta-se como um turbilhão de contradições éticas, comportamentais e sentimentais. Quando criança fora criado com privilégios e proteção, mas, ao atingir a juventude, mostra-se irresponsável, sempre buscando tirar vantagem de tudo e adquirir poder. Na maturidade, consegue um cargo público e busca notoriedade e respeitabilidade ao querer tornar-se ministro, numa tentativa de compensar a existência sem nada de notável, exemplificada na falta de filhos, no desconhecimento do casamento, em não ter sido ministro e em não ter alcançado a celebridade com a invenção do emplasto, última tentativa de perpetuar seu nome entre os homens, “acima da ciência e da riqueza”.
Além da personagem principal, personagens secundárias também são apresentadas durante o livro, surgindo e desaparecendo sem uma ordem estabelecida, pois acompanham os pensamentos de Brás Cubas e a importância que este dá para os fatos e as pessoas. Dentre elas destacam-se Marcela, Eugênia, Virgília, sua irmã Sabina e Quincas Borba. Marcela foi sua primeira paixão da adolescência, aos 17 anos, e, como Brás gastava excessivamente presenteando-a, seu pai o obriga a estudar Direito em Coimbra, Portugal, retornando ao Brasil devido a doença e morte da mãe, seu primeiro contato com o dilema da Vida e da Morte. Mas na frente, Brás reencontra Marcela, velha e doente, e põe-se a refletir sobre a passagem do tempo, utilizando para tanto o que chamava teoria das edições da vida, anunciada nos primeiros capítulos. Eugênia era a filha de uma amiga pobre da família, a qual Brás Cubas namorou enquanto o pai procurava arranjar um casamento de interesse com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, um influente político. Entretanto, Virgília casa-se com Lobo Neves e posteriormente se torna amante de Brás, sendo uma das três senhoras que este relata terem visto-lhe morrer, junto à Sabina, sua irmã, com a qual Brás Cubas teve uma desavença devido a divisão da herança deixada pelo pai, e sua sobrinha, filha de Sabina com Cotrim. 
Já Quincas Borba é considerado a personagem secundária em Memórias Póstumas que mais importância teria na obra de Machado de Assis que se seguiria, tanto que torna-se personagem-título para outra obra, publicada em 1891. Amigo dos tempos de escola, Quincas Borba e Brás reencontram-se anos depois, ocasião na qual Quincas lhe apresenta uma doutrina filosófica que criara, o Humanitismo. Quincas é um mendigo que vai enlouquecendo progressivamente, morrendo completamente fora de si. Sua doutrina pregava que tudo o que acontece na vida faz parte de um quadro maior de preservação da essência humana, artifício irônico utilizado por Machado ao fazer que uma doutrina de valorização da Vida seja defendida por um mendigo louco. Brás encontra na teoria do amigo justificativas para sua existência vazia, iludindo-se com a descoberta de um sentido para a vida, até perceber que Quincas Borba está enlouquecendo progressivamente.
Brás Cubas morre aos 64 anos, após adoecer por conta da idéia fixa de inventar um emplasto anti-hipocondríaco que levaria seu nome, tornando-o famoso. Após sua morte, decide contar sua vida em detalhes, seguindo a lógica de seu pensamento, devido sua falta de sistematização das ideias e a excitação ainda presente pelo o fato de estar morto. Enfim, Memórias Póstumas é uma obra feita para compreender através das reflexões da personagem que brinca com a ordem cronológica das narrativas, um marco da literatura brasileira que apresenta todo o talento daquele que foi o maior expoente das letras no Brasil.

Faça o download do livro gratuitamente AQUI.

domingo, 22 de novembro de 2009

Resenhas

A partir de hoje, inicio a postagem de uma série de resenhas, onde vou apresentar sugestões de livros que considero interessantes de serem lidos. A série não será contínua, o que significa que será intercalada por outros tipos de postagens. Os livros que indicarei a vocês serão dos mais diversos gêneros e expressarei minha opinião sobre eles sempre deixando espaço aberto para a opinião de vocês, sejam elas a favor ou ao contrário da minha. Abaixo segue minha primeira sugestão. Conto com a participação de vocês!
Amarildo Ferreira Júnior

Nome do Livro: Administração – Teoria e Prática no Contexto Brasileiro

Autores: Filipe Sobral (Doutor em Administração pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, Mestre em Ciências Empresariais pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, e Coordenador Acadêmico do Programa de Certificação de Qualidade da FGV) e Alketa Peci (Doutora em Administração e Mestre em Administração Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas).

Editora: Prentice Hall

N° de páginas: 416

Preço: em média R$ 100,00

Primeiro livro que li relacionado à Administração, Teoria e Prática no Contexto Brasileiro é um livro indicado a quem está iniciando seus estudos nessa ciência social aplicada, tendo como objetivo familiarizá-lo ao universo da Administração, pois apresenta conceitos básicos para o administrador e seu conteúdo está aplicado diretamente à realidade brasileira, algo raro quando se trata de literatura para administradores, onde ainda há predominância de compilações e traduções de livros estrangeiros, que muitas vezes não apresentam nas teorias defendidas um ponto de aplicação em solo brasileiro. O livro se divide em 12 capítulos, que passeiam pela apresentação dos conceitos básicos para um administrador, a descrição e análise do processo de tomada de decisão, uma visão geral e evolutiva das principais escolas do pensamento em Administração, analisa e retrata as 4 principais funções de um administrador (Planejar, Organizar, Dirigir e Controlar) e, por fim, apresenta as áreas funcionais de Operações, Marketing, Recursos Humanos e Financeira. A leitura do livro permite a aquisição da percepção do que é uma organização, quem é o administrador e em que consiste a expressão administrar uma organização, dando ao leitor pressupostos básicos para adquirir maturidade e, assim, manter contato com livros mais profundos sobre temas administrativos, consolidando de maneira mais eficiente conhecimentos adquiridos.

Os autores também apresentam uma visão dinâmica da Administração, análises de alguns casos, dentre eles se destacam o da Gol Linhas Aéreas e de Roger Agnelli, Diretor-Presidente da Vale, e buscam apresentar as tendências e os desafios para o administrador contemporâneo, o que aumenta ainda mais a necessidade de leitura desse livro por qualquer pessoa que se interesse ou pretenda atuar na ciência da Administração.

Leia abaixo dois comentários sobre o livro apresentado:

"O livro Administração: Teoria e Prática no Contexto Brasileiro preenche uma importante lacuna entre os livros-texto de administração em língua portuguesa. Os professores Filipe Sobral e Alketa Peci elaboraram um trabalho não só rigoroso e claro, mas principalmente aplicado à realidade brasileira. Trata-se de uma obra de leitura obrigatória para estudantes de administração e administradores. Os leitores se beneficiarão da visão sistêmica, integrada e abrangente apresentada no texto."

(Antonio Freitas, Ph.D. Presidente da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração – ANGRAD)

"Administração: teoria e prática no contexto brasileiro constitui uma inestimável contribuição para a formação básica dos futuros administradores que buscam graduar-se ou daqueles que, em nível de pós-graduação, procuram complementar os estudos, qualificando-os a vôos mais ambiciosos como dirigentes, consultores ou professores e pesquisadores."

(Bianor Scelza Cavalcanti, Ph.D. Diretor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas - EBAPE/FGV)

Fora, Temer!