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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Segunda Vinda do Mr. Niterói

 
Imagem retirada do site de Gus
Black Alien, o liricista que quer tudo de volta, o mais querido da casa, já está preparado para sua segunda vinda. Pelo menos foi o que o rude boy style declarou recentemente, revelando que o esperadíssimo Babylon by Gus - Vol. II: No Princípio Era o Verbo já está pronto e será lançado e liberado para download na próxima quinta-feira, 3 de setembro [ouça o disco e acesse o link para baixá-lo no final dessa postagem].
Foram onze anos de espera, mas Gus justifica tanto tempo assim: "nesse tempo todo, eu trabalhei com diversos outros MCs, fiz cinema, fiz samba... mas eu não tinha nada pra dizer. Agora, tenho!", uma vez declarou.
E apesar de todos os percalços, todos os fantasmas e demônios que precisou esconjurar e exorcizar, B.A nos brindou durante esse tempo com momentos musicalmente antológicos, como o dueto na música Negro Gato com Luiz Melodia, que também terá participação no volume 2 do clássico lançado em mil novecentos e 2004.
Enquanto esperamos ansiosos a quinta-feira para conferir o resultado do esvaziamento desta outra gaveta de guardados, recordo-lhes que em março deste ano, A Lírica Bereta aproveitava de maneira útil sua passagem pelo YouTube para lançar uma série em 6 capítulos (confira-a no final desta postagem) sobre o processo de gravação e de criação desse segundo disco, e sobre muito mais do que isso. Na série, assim como na campanha de financiamento coletivo do No Princípio Era o Verbo, Gustavo reafirmava com outras palavras e atitudes que “está criando, com a humildade de olhar para trás, a curiosidade de olhar para a frente e a coragem de se olhar no espelho para ver que artistas somos hoje".
Logo, se é verdade que tirar foto é fácil, quero ver quem se retrata, Black Alien está levando à risca a provocação feita onze anos atrás e, deixando-nos de testamento o seu pensamento, conjura o Bem, o Sol e a Vida. E os admiradores de Gustavo só podemos nos sentir felizes em vê-lo assim.

No Princípio Era o Verbo - Capítulo 1

No Princípio Era o Verbo - Capítulo 2

No Princípio Era o Verbo - Capítulo 3

No Princípio Era o Verbo - Capítulo 4

No Princípio Era o Verbo - Capítulo 5

No Princípio Era o Verbo - Capítulo Final
      
Atualização em 03.09.2015:
A seguir, ouça faixa por faixa Babylon by Gus - Vol. 2: No Princípio Era o Verbo e baixe essa tijolada AQUI!

 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Mixando Sérgio Vaz ou "Feliz aniversário, otário, vivi nos anos 90"

O texto a seguir é resultado da fusão de dois textos de autoria do Poeta Sérgio Vaz (Paz na periferia e Antes que seja tarde). Seu título remete a isso e a uma música de Black Alien cuja letra demonstra bem que, em muitos aspectos, os anos 90 estão de volta, como Sérgio Vaz coloca em seu texto, ou nunca se foram, como eu prefiro considerar. Deixou-se as palavras do poeta como foram encontradas nos textos de referência, e as inserções feitas estão colocadas entre [ ]. Duas exclusões foram feitas, para adequar o texto com a minha trajetória de vida, e estão assinaladas com as palavras tachadas. Assino ao final somente para deixar claro que a responsabilidade pela fusão realizada é inteiramente minha, e também que concordo com o teor nela exposto.

Poeta Sérgio Vaz (foto retirada do Facebook do escritor)

***

Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver.
Não que o mundo dependa só de mim para ser melhor, mas se o medo não fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a humanidade. Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.
Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas, nos assustam nos semáforos com armas na mão, nos pedem esmolas amontoadas em escolas que não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa subjugar a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é quase nada disso tudo.
Sou um covarde diante da violência contra a mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50.000 deles arrancados à bala do nosso pacífico planeta. Que dizer da violência contra os homossexuais que são apedrejados nas calçadas das avenida elegantes?
Se homicídio fosse esporte olímpico, São Paulo [Belém, Marabá, Santarém ou Abaetetuba...] ganharia[m] medalha de ouro. Mas como não é, ficamos nós com as medalhas de sangue e de lágrimas. E pra mim, nenhuma vida vale mais do que a outra, porque quem morre, deixa mais do que saudade, deixa família, filhos, lembranças... O homicídio é um crime extremamente deselegante.
É assustador tudo que está acontecendo na periferia paulistana [belenense, marabaense, santarena, abaetetubense...], é como se voltássemos ao final dos anos 80 e início dos anos 90, onde todos tínhamos medo de sairmos às ruas e sermos executados pelo simples fato de existirmos.
Pois é, esses dias estão de volta. O medo e a morte tomou conta das ruas.
A chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem.
E se [eu] tivesse mais fé na minha humanidade de maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro, mas sou tão covarde que nem religião tenho, e minhas mãos que não rezam, já que estão abertas, poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam todas elas, mas eu que não tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de produzir esse milagre. De repartir o pão.
E porque os índios estão tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu coração, não me importo que lhe tirem suas terras, sua alma, seus rios, e analfabeto de solidariedade não sei ler sinais de fumaça, eles fazendo guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se tivesse um nome indígena seria cachorro medroso.
Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por aí, não concordaria em aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando em busca de terra, ou morando em barracos de madeiras indignas pendurada nos morros, ou na beira de córregos. Não nasci na favela, mas [por isso] meu coração é de madeira, fraco.
A lei condena um homem comum que rouba outro homem comum e o enterra na masmorra moderna, mas nada faz contra aquele político corrupto que rouba milhares de pessoas apenas com uma caneta, ou duas, e que de quatro em quatro anos a gente aperta-lhes a mão, quando na verdade devíamos cuspir-lhes na cara. E eu como um juiz sem martelo não faço nada além de condená-lo ao meu não voto. É pouco, já que sei onde eles se entocam. A lei é cega, mas acho que lhe fizeram transplante de órgãos numa dessas votações secretas.
Não vejo outra forma de combater o crime, que não a educação pública de qualidade. Nós abandonamos as crianças, os professores e o ensino público, agora estamos com o cu na mão com medo dos adultos.
As Escolas públicas estão parecendo privadas, e só agora essa sociedade hipócrita está sentindo o cheiro, através desses crimes bárbaros de jovens que sangram nas calçadas quando deviam estarem suando nos bancos das universidades. Ah!, é contra as cotas raciais, né? Se quiserem podemos reservar uma cota de violência pra vocês. É, essa violência que vocês vem nos jornais, e nós, ao abrirmos as janelas... e desde sempre.
Assisto a falência da educação e o massacre contra os professores e sei que muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança máxima, fico em silêncio quando a multidão desinformada pede redução da maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos nossas crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12, depois, não teremos mais crianças nas ruas. E elas, as ruas, serão tão seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os brinquedos serão visitados nos museus.
As pessoas pedem a redução da maioridade penal, eu quero o aumento da maioridade educacional.
Chega de convites para enterros e visita em presídios, quero convite para assistir formaturas.
Podem mandar tanques de guerras, aviões da FAB, invadirem favelas, matarem todos nós nas esquinas escuras da periferia, porque se não investirem na educação, vão ter que continuar matando, matando, matando...porque vocês já sabem quem morre: nós os brasileiros pobres e pretos.
Viver, ainda que doa, é melhor do que deixar saudades, porque nenhuma vida é maior que a outra. Vale tanto para o Elefante como para a formiguinha.
Estão cortando as árvores, cortand as árvore, cortan a árvore, cort árv, co á… madeiraaaaa! E aceito a cara-de-pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado está nas minhas mãos. Depois fico abraçando o lago poluído quando na verdade deveria estar mergulhado nele, assim como os peixes mortos.
Pagos os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é essa tal consciência tranquila que está acabando com o mundo.
Calado assisto a falsa democracia deste país ilegal, sem alvará de funcionamento e sem licença pra ser pátria, e me emociono com o hino nacional cantado antes do jogo da seleção canarinho.
Perdoe-me por apenas ser poeta, e ter apenas poemas como arma, ainda que ninguém me diga, sei que isso é muito pouco, quase nada. O sangue que pulsa na veia tinha que estar nos olhos.
O Mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que tem atitude. Se não posso mudar o mundo deveria [começar] a mudar a mim mesmo.
Acho que é isso que vou fazer agora.
Antes que seja tarde.

No silêncio da noite, um grito. No grito da noite, o silêncio.

Pah! Pah! Pah!

Se puderem, tenham paz.

***
Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O liricista que quer tudo de volta


Era "mil novecentos e 2004", ano do macaco no horóscopo chinês, e o rap nacional recebia uma das obras fonográficas que mais marcaram sua história recente, sendo aclamada como um dos melhores discos do gênero em terras tupiniquins. Oito anos se passaram e Gustavo Black Alien permaneceu calado grande parte desse tempo, segundo ele mesmo, por não ter nada para dizer. Mas, em 2012 o hiatus começou a ter fim. O teaser da produção de uma faixa (Pra quem a carapuça caiba) para seu novo álbum foi lançado no canal do músico no You Tube e anunciava: "o liricista está voltando", e com expectativa de que ele está trazendo coisa boa, ao menos pelo o que diz uma frase escrita na parede ("vou pegar tudo de volta").
Ao que parece, Black Alien se afastou dos holofotes por questões pessoais e extrapessoais: esteve travando uma batalha de superação de demônios, fantasmas, morte. Aguardamos com ansiedade o retorno anunciado, ainda mais depois que Toni Gadiolli disponibilizou o documentário Mr. Niterói - A Lírica Bereta no seu canal no site de compartilhamento de vídeos mais famoso do mundo. Assisti ao filme e, apesar de estar em baixa resolução, afinal é uma versão para a web, creio que mostra bem o quanto Gus é genial, controverso, sagaz, difícil de lidar e admirado dentro e fora do rap. Destaco, pela sensibilidade que Black Alien demonstra em tratar do assunto, a cena dessa película que você pode ver abaixo em que o próprio Gustavo fala sobre o preconceito que sofria por ser negro (aparecem fotos de sua época de escola em que ele é o único negro entre tantos garotos e garotas brancos).

 
Sem dúvida alguma, o que mais admiro no Black Alien é sua versatilidade e intelectualidade transcedentes que colocam no rap referências de ska, funk, reggae, ragga, literatura, cinema, artes plásticas, história, etc. Rappin Hood disse, e isto está registrado no documentário acima, que Black Alien talvez não saiba o tamanho que tem. Pode não saber seu tamanho, mas sabe seu valor ("De Almeida Ribeiro Gustavo, vale uma fortuna...", diz ele em sua participação na música Forty Days, do Funk Como Le Gusta) e nem por isso se perde em devaneios vaidosos (como fica latente ao completar a rima "...mas em moedas de um centavo"), o que demonstra o quanto Mr. Black é complexo. Abaixo, um regalo do vimeo.

Fonematíq # 1 Fat Lion e Black Alien


Fonematíq # 1 Fat Lion e Black Alien from Rio de Janeiro on Vimeo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O meu lugar

"Eu nasci junto à pobreza que enriquece o enredo
Eu cresci onde os 'moleque' virá homem mais cedo". (
Triunfo - Emicida)
"Sobrevoe num voo o zoo onde você sobrevive/
Observe a ordem natural das coisas em declive/
Inclusive eu tive lá, e não te vi lá". (From Hell Do Céu - Black Alien)
"Meu nome é favela/é do povo do gueto a minha raíz/Becos e vielas/Eu encanto e canto uma história feliz/De humildade verdadeira/Gente simples de primeira". (Favela - Arlindo Cruz)
"É só regar os lírios do gueto/Que o Beethoven negro vem pra se mostrar". (Brixton, Bronx ou Baixada - O Rappa)
"os verdadeiros heróis são os guerreiros da vida". (Fininho da Vida - O Rappa)
"Assim crescendo eu fui me criando sozinho/Aprendendo na rua, na escola e no lar/Um dia eu me tornei o bambambam da esquina/Em toda brincadeira, em briga, em namorar". (Espelho - João Nogueira)

Todas fotos apresentadas nesta postagem foram
tiradas pelo autor com uma câmera de 1.3 MP de um celular Samsung Duos.
As fotos são da Comunidade Novo Progresso (irônico, não é?!), localizada no
bairro do Benguí, , periferia de Belém/PA, onde o autor viveu sua infância,
adolescência e o início da vida adulta, quando se mudou para o bairro
do Jurunas, também na periferia de Belém.
O objetivo do autor é mostrar o descaso que sua comunidade sofre
mesmo após mais de duas décadas de existência.

segunda-feira, 19 de março de 2012

As Veias Abertas da América Latina - Prefácio

Vou costurar as veias abertas da América Latina
Dividiram em três, jogaram duas na latrina
Por que a América do Sul quebra?
Por que banqueiros guardam seus dinheiros em cofres em Genebra?
Tony Blair, Saddam Hussein
George W. Bush, Osama Bin Laden também
O demônio e seus assessores diretos
Eu vim pra salvar o mundo pro meu e pros seus netos
(trecho da música América 21, do rapper carioca Black Alien)

Nessa última semana estava tentando terminar de ler A Era dos Impérios 1875-1914, de Eric J. Hobsbawm, mas não resisti em deixar essa leitura de lado e pegar o recém adquirido As veias abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano, que estava em cima de meu criado-mudo aguardando sua vez de ser lido. Então, como bom brasileiro que sou, decidi utilizar nosso famoso jeitinho e colocar essa leitura, de Esquerda, que há tempos despertou meu interesse na frente dos também de Esquerda Burocracia e Ideologia, de Maurício Tragtenberg, e A Teoria Marxista Hoje, organizado por Boron, Amadeo e González. Assim sendo, As veias abertas da América Latina furou a fila e eu descobri que tudo que eu já tinha ouvido e esperava de Eduardo Galeano está muito aquém daquilo que pude constatar. Galeano conseguiu espaço ali ao lado de meus autores preferidos, dentre eles Gabriel García MárquezSérgio Buarque de Holanda, Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e o já citado Tragtenberg, e, por isso, deixo-lhes o prefácio da edição adquirida do livro. Boa leitura!!!


Este volume oferece uma nova versão brasileira de As veias abertas da América Latina.
Esta tradução, excelente trabalho de Sergio Farao, melhora a não menos excelente tradução anterior, de Galeno de Freitas. E graças ao talento e à boa vontade destes dois amigos, meu texto original, escrito há quarenta anos, soa melhor em português do que em espanhol.

*

O autor lamenta que o livro não tenha perdido a atualidade. A história não quer se repetir - o amanhã não quer ser outro nome do hoje -, mas a obrigamos a se converter em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita paciência, nos ensina dia após dia.

*

Segundo a voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço).
Entrar no mundo: o mundo é o mercado. O mercado mundial, onde se compram países. Nada de novo. A América Latina nasceu para obedecê-lo, quando o mercado mundial ainda não se chamava assim, e aos trancos e barrancos continuamos atados ao dever de obediência.
Essa triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata, e seguiu com o açúcar, o tabaco, o guano, o salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau, a banana, o café, o petróleo... O que nos legaram esses esplendores? Nem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas estagnadas, longas caravanas de infelizes condenados à morte precoce e palácios vazios onde deambulam os fantasmas.
Agora é a vez da soja transgênica, dos falsos bosques da celulose e do novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo ou gás, mas também milho e cana-de-açúcar de imensas plantações. Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas. E outra vez voltam as glórias efêmeras, que ao som de suas trombetas nos anunciam grandes desgraças.

*

Nós nos negamos a escutar as vozes que nos advertem: os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos. Continuamos aplaudindo o sequestro dos bens naturais com que Deus, ou o Diabo, nos distinguiu, e assim trabalhamos para a nossa perdição e contribuímos para o extermínio da escassa natureza que nos resta.
Exportamos produtos ou exportamos solos e subsolos? Salva-vidas de chumbo: em nome da modernização e do progresso, os bosques industriais, as explorações mineiras e as plantações gigantescas arrasam os bosques naturais, envenenam a terra, esgotam a água e aniquilam pequenos plantios e as hortas familiares. Essas empresas todo-poderosas, altamente modernizadas, prometem mil empregos, mas ocupam bem poucos braços. Talvez elas bendigam as agências de publicidade e os meios de comunicação que difundem suas mentiras, mas amaldiçoam os camponeses pobres. Os expulsos da terra vegetam nos subúrbios das grandes cidades, tentando consumir o que antes produziam. O êxodo rural é a agrária reforma; a reforma agrária ao contrário.
Terras que poderiam abastecer as necessidades essenciais do mercado interno são destinadas a um só produto, a serviço da demanda estrangeira. Cresço para fora, para dentro me esqueço. Quando cai o preço internacional desse único produto, alimento ou matéria-prima, junto com o preço caem os países que de tal produto dependem. E quando a cotação subitamente vai às nuvens, no louco sobe e desce do mercado mundial, ocorre um trágico paradoxo: o aumento dos preços dos alimentos, por exemplo, enche os bolsos dos gigantes do comércio agrícola e, ao mesmo tempo, multiplica a fome das multidões que não podem pagar seu encarecido pão de cada dia.

*

O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?
As veias abertas da América Latina nasceu pretendendo difundir informações desconhecidas. O livro compreende muitos temas, mas talvez nenhum deles tenha tanta atualidade como esta obstinada rotina da desgraça: a monocultura é uma prisão. A diversidade, ao contrário, liberta. A independência se restringe ao hino e à bandeira se não se fundamenta na soberania alimentar. Tão só a diversidade produtiva pode nos defender dos mortíferos golpes da cotação internacional, que oferece pão para hoje e fome para amanhã. A autodeterminação começa pela boca.
Em 27 de julho de 2001, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, perguntou aos seus compatriotas:
- Vocês já imaginaram um país incapaz de cultivar alimentos suficientes para prover sua população? Seria uma nação exposta a pressões internacionais. Seria uma nação vulnerável. Por isso, quando falamos de agricultura, estamos falando de uma questão de segurança nacional.
Foi a única vez em que não mentiu.

Eduardo Galeano (Montevidéu, 2010) 


terça-feira, 18 de outubro de 2011

“So, let’s go build a nation...”



Em meu olhar havia um brilho:
Era a Alegria de saber da tua existência!
Mas, por duas vezes ele se esvaiu,
E a Felicidade, transfigurada em filho,
Por entre os dedos escapuliu

Pois o mesmo Deus que te deu pra mim,
Por qualquer motivo que não tenho ciência,
Achou melhor que fosse assim:
Que meu pequeno Chico fosse apenas uma faísca no meu olhar 
                                                                                         sem paciência!

Belém/PA, 18 de Outubro de 2011
(Dom Aquiles Crowley)

*O título da poesia é um verso da música Real Gold, de Black Alien.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cabe a um Palhaço sonhador a lápide de um poeta?


"Todo som emitido pra sempre se propaga
Respeito com a palavra
Nada é pra sempre, a não ser Ele
Até o Sol se apaga
Mas hoje não tem eclipse
Black Alien, cancela o apocalypse"




No dia em que meus olhos de Capitu fecharem
(sim, de Capitu, posto que são oblíquos e dissimulados!),
No dia em que eles se cerrarem,
Não quero que os teus fiquem molhados,
Pois não desejo que na minha derradeira hora,
No dia em que encontrar o mal súbito,
Não possa dar acalanto para quem chora
E com isso acalmar teu coração aflito.

Quero ir numa noite de sexta
Em que no Céu não haja nuvem plúmbea,
Ali, por entre a hora do jantar e da ceia,
Pois é justo que eu parta em dia de festa!

Porém, minha ida não deverá cessar a boêmia,
Deixando que fique tua noite triste:
- Vai e chama nossos amigos, filhos de Hermes e Afrodite,
E deles faça tua companhia
Para que nessa noite de cerveja em verso e prosa
Cubras meu caixão com um azul clarinho de alegria
E ouvindo a música de JAH ou de Noel Rosa
Eu possa partir vendo a noite virar dia.

Belém/PA, 14 de Outubro de 2011

(Dom Aquiles Crowley)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Acredito em Ordem e Progresso quando o povo tem acesso ao ingresso


The accursed power that rests on privilige
And goes with women, and champagne, and bridge,
Broke : and Democracy resumed her reign
That goes bridge, women and champagne
                                                                          (Hillaire Belloc)

Lendo o espetacular livro "A Era dos Impérios", de Eric J. Hobsbawm, encontrei nas páginas 145 e 146 esses versos, e achei impressionante a atualidade deles, embora tenham sido escritos em 1954 para retratar um evento ocorrido em 1906. Ah, o título do post é um par de versos da música UmaExtraPunkPrumExtraFunk, do rapper carioca Black Alien.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Homenageio gente que eu admiro - Black Alien: o homem que não sabe o tamanho que tem

Gustavo de Almeida Ribeiro (Black Alien) - "Ele é o Chico Buarque do Rap" (BrunoTorres)

Nessa nova série de postagens, o Monkey Club decidiu apresentar um pouco das pessoas que influenciam seu pensamento e modo de ver o mundo, sejam músicos, pintores, intelectuais, atores, stripers ou anônimos que, de algum modo, são admirados pelo autor do blog. E essa lista é relativamente numerosa, indo da primeira personalidade que será apresentada, o rapper e raggaman brasileiro Gustavo de Almeida Ribeiro (mais conhecido como Black Alien), à pin up e artista burlesca Dita Von Teese.
A escolha por iniciar essa série falando de Black Alien foi motivada tanto pelo fato das músicas desse cantor nascido em São Gonçalo e criado em Niterói (cidades do Rio de Janeiro) estarem muito presentes em minha vida nos últimos dias, como pelo título atribuído à série ter sido tomado de um trecho da música Caminhos do Destino, onde o rapper afirma “Homenageio gente que eu admiro:/Chico Buarque, Van Gogh, Robert De Niro/Francisco França, Mauro Mateus/Nobres e plebeus que foram ao encontro de Deus (...)”, em que, coincidência ou não, são citados nomes de personalidades que também são admiradas pelo Monkey Club (aliás, cabe acrescentar que um dos motivos da mudança do nome do blog de AParáTto para Monkey Club foi influenciado por um verso da música Jah Jah Overall, de Black Alien, mas isso é outra história) e que poderão figurar como tema de algumas das próximas postagens da série.
Gustavo de Almeida Ribeiro é de uma família de posses mas, por ser negro, sofria discriminação do círculo social da zona sul, predominantemente branco. Por outro lado, a parte menos favorecida de sua família também o via como estranho, mas, neste caso, a causa era sua melhor condição financeira.
Educado nos melhores colégios de Niterói, Black Alien fala inglês fluentemente desde os 12 anos de idade e, aos 15 anos, fez um tour por 8 países europeus, visitando museus e mantendo contato com culturas diferentes. Skatista amador antes de começar a cantar, subiu ao palco pela primeira vez em setembro de 1993, quando foi convencido pelo rapper niteroiense Cláudio Márcio, conhecido como Speed Freaks e assassinado em 26 de março de 2010, que tinha ouvido uma rima que Gustavo gravou junto com o DJ Rodriguez, a deixar o emprego de comissário de bordo na Varig e se dedicar à música. Nesse ano, Speed, na época Speed Gonzalés, DJ Rodriguez e Gustavo, que na época adotou o nome artístico de Bulletproof devido o episódio em que saiu ileso de um tiroteio, lançaram uma demotape intitulada Speedfreaks (homônimo da banda), com forte influência do estilo musical conhecido como freestyle, e se apresentaram durante os anos 1990 com artistas como Afrika Bambaataa, De La Soul, Beastie Boys, Chad Smith (Red Hot Chili Peppers), Carlos Lyra, Roberto Menescal, Nação Zumbi, Otto, Marcelo D2, dentre outros, dando notoriedade à musicalidade apresentada e vindo a se separar no ano de 1996 devido seus constantes desentendimentos.

"Um dia, um cara me interpelou dizendo que tinha ouvido a minha fita. Se apresentou como Speed.
Disse que era sinistro, que eu tinha que ser aquilo, para eu tocar na banda dele. Na real, me deu uma vontade de bater nele.
Mas eu disse: 'não, eu não sou artista. Sou só um maluquinho que escreve letra'.
Aí ele mandou: 'vai tomar...' Eu não acreditei, e falei: 'o quê?'. Ele mandou de novo! Não acreditei.
Eu tava com o skate na mão, uma  arma branca, né? Aí ele mandou: 'beleza, Tom Jobim é só um maluquinho que toca piano.'
Porra, Tom Jobim e eu na mesma frase, já achei maneiro".

Entretanto, Ribeiro despontou para o grande público brasileiro durante o tempo que desenvolveu seu trabalho com a banda Planet Hemp, na qual participou de três discos (participação no álbum Usuário – 1995, e como músico contratado nos álbuns Os Cães Ladram E A Caravana Não Para – 1997, e A Invasão Do Sagaz Homem Fumaça – 2000). A contratação de Gustavo pela banda ocorreu após a saída de BNegão do grupo, que foi integrar a banda Funk Fuckers e indicou o rapper niteroiense para substituí-lo devido ser a pessoa mais familiarizada com as letras das músicas.
Paralelamente ao Planet Hemp, Gustavo desenvolveu um projeto intitulado de Black Alien, em que era responsável pelo vocal, violoncelos e percussão, enquanto o DJ Rodriguez ficava nos scratchs. Com duração de cerca de um ano, o projeto foi finalizado e Gustavo pediu autorização ao DJ Rodriguez para adotar Black Alien como seu nome artístico.
No ano de que 1999, Black Alien volta a tocar com Speed, formando a dupla Black Alien & Speed, que grava o álbum Na Face, com produção de Carlo Bartolini, durante os anos 2000 e 2001 em São Paulo. De acordo com algumas afirmações, o álbum nunca foi lançado, embora grande parte das músicas possam ser acessadas pela internet, devido as divergências musicais entre os três envolvidos (Speed queria algo mais parecido ao RAP dos anos 1980; Gustavo preferia a proximidade com o ragga; e Carlo Bartolini desejava um trabalho com mais rock). Outra suposta causa do não lançamento do álbum seria a morte de Lucy Vianna, ex-esposa de Herbert Vianna (Os Paralamas do Sucesso), que seria a futura empresária da dupla.

"Eu confronto os dragões
Os truques por trás dos batuques
Os vilões por trás dos violões
Os impostores por trás dos tambores
O sindicato de ladrões
Falsos produtores, safados atrás dos cifrões
Os empresários e políticos enchem os caminhões
Containers e vagões
Ganham milhões e milhões por terra, mar e ar
O negócio é faturar
Black Alien no estilo Solana Star
Quando a situação é grave, se organizar
Concentração é a palavra-chave
Doa a quem doer, eu não acredito em você
Não acredito no sucesso, não acredito na TV
Não acredito no que me vem impresso
Acredito em ordem e progresso
Quando o povo tem acesso ao ingresso
Então dá um dois no kunk
A válvula de escape pro motor de arranque"
(Trecho da música Umaextrapunkprumextrafunk - Black Alien)




Versátil, despojado e de uma capacidade incomum de vocalizar em diferentes tons, Black Alien lançou no ano de 2004, pela Deck Disc, seu primeiro disco solo. O disco é intitulado Babylon by Gus – Vol. 1 – O Ano do Macaco, remetendo ao LP Babylon by Bus (1978), do cantor jamaicano Bob Marley, e ao horóscopo chinês, em que 2004 representa o ano do macaco que, segundo o próprio Black Alien, é muito bom para as mentes criativas. Composto por 12 faixas autorais, Babylon by Gus traz em suas letras temas que vão desde a violência, presente em faixas como Estilo do Gueto, ao romantismo, que marca presença na faixa Como Eu Te Quero.

Essa demora de 11 anos para o lançamento de seu primeiro CD solo tem explicação: Black Alien esteve envolvido em diversos projetos desde 1993 e, embora tivesse material disponível para o lançamento de um trabalho, optou por criar novas canções, alegando ter mudado muito durante os 11 primeiros anos de carreiras. Dentre estes projetos, pode ser citada a já mencionada banda Planet Hemp e a dupla Black Alien & Speed, e também a big band Reggae B, fundada em 2001, a qual o cantor integrou junto com Bi Ribeiro e Bidu Cordeiro, baixista e trombonista dos Paralamas do Sucesso, respectivamente, e onde eram trabalhadas músicas do lado B do reggae, ritmo que, de acordo com Gustavo, conheceu primeiro do que o Rap, juntamente com suas vertentes ragga e dub.
E, além dessas atividades, Black Alien também fez inúmeras participações em álbuns de outros artistas, como Charlie Brown Jr., Raimundos, Paralamas do Sucesso, Sabotage, Rappin Hood, Banda Black Rio, Carlos Lyra, Fernanda Abreu, DJ Marcelinho da Lua, NatiRuts, Ultramen, e, mais recentemente, nos álbuns Alegria Compartilhada, da banda Forfun, e Desorientado, do grupo de RAP Oriente, ambos em 2011. Outro ponto importante na carreira do rapper de Niterói foi a participação no CD Baião de Vira Mundo – Tributo a Luiz Gonzaga, onde canta a música Vozes da Seca junto com Speed e Rica Amabis. Com toda essa atividade, Black Alien ainda consegue tempo para apenas compor, como é o caso da música Eu Não Quero Brigar Mais Não, faixa do álbum Intimidade entre estranhos (2008) de Frejat.
Considerado intelectual do Rap, Black Alien gosta de cinema, que inclusive apresenta muita influência em sua maneira de compor (que frequentemente apresenta letras de músicas como se fossem roteiros de filmes), gosta de literatura e é fã de nomes como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Luiz Gonzaga, Vinícius de Moraes, Clementina de Jesus, João Gilberto, Dorival Caymmi e Chico Buarque.


Algumas curiosidades de Black Alien: 
  • Em 2001, Black Alien, após sua saída do Planet Hemp, lança, junto com Speed, o hit Quem Que Caguetou?/Follow Me Follow Me, que foi remixado posteriormente por Afrika Bambaata e pelo DJ FatBoy Slim e em 2003 foi utilizado como trilha de um comercial da caminhote Frontier da Nissan lançado na Europa e denominado Le Marathon, além de ser a música que tocou antes da exibição do filme Kill Bill: vol. 1, de Quentin Tarantino, durante toda a temporada em cartaz na Europa. Em 2011,  a mesma música entra para a trilha sonora do filme Velozes e Furiosos 5; 
  • Foi encontrado no porta-luva do carro batido de Chico Science a fita demo do Speed Freaks, grupo do qual faziam parte Speed Freaks, Black Alien e DJ Rodriguez; 
  • Black Alien gravou a música Stileira, produção de Marcos Cunha, para o filme Fabio Fabuloso, de Ricardo Bocão;
  • No ano de 2005, a Rede Globo colocou sua música Coração Do Meu Mundo na trilha sonora da novela Bang Bang como tema da personagem Diana Bullock, interpretada por Fernanda Lima; 
  • Ainda no ano de 2005, as músicas Perícia Na Delícia e Como Eu Te Quero integraram a trilha sonora do seriado americano Mandrake, exibido pela HBO; 
  • No ano de 2006 a música Real Gold integrou para a trilha sonora da também global Malhação;
Faça download da mixtape clicando aqui!
  • Em 2007, Ton Gadioli começou a rodar um documentário sobre a vida artística de Black Alien, intitulado Mr. Niterói – A Lírica Bereta, que participou do Festival de cinema da Costa do Sol, em Cabo Frio, e ganhou o prêmio de melhor personagem para Black Alien. Junto ao documentário, Black Alien elaborou uma mixtape para o filme compostas por diversas músicas do MC, muitas delas desconhecidas de seu público, em suas diferentes fases musicais; e
  • Até o fim do ano de 2012 está previsto o lançamento de um novo disco, intitulado Babylon by Gus – Vol. 2, que estava previsto inicialmente para o dia 11 de setembro de 2011. Atualmente, está em fase de finalização o DVD Black Alien Ao Vivo na Lapa.

Fora, Temer!