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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

No Pará, nasceu um político fisiológico


Quando tentei responder a pergunta se o povo realmente é burro, dado os resultados do primeiro turno das eleições, acabei por terminar o texto acrescentando outra reflexão, que era justamente sobre a constituição do radialista Jefferson Lima (PP) como importante ator político, mas daqueles que têm sua importância pelos estragos e prejuízos que pode causar. E hoje a capa do Diário do Pará apresenta o referido radialista de mãos dadas com Helder Barbalho (PMDB), a quem declara apoio, depois de ter-se falado que seu apoio no segundo turno seria para o tucano Jatene, a quem já apoiava na primeira rodada dessas eleições.
Aliás, Jefferson Lima foi candidato a senador pela coligação de Jatene, minando a candidatura de Mário Couto, então detentor da vaga. Nisso Couto perdeu sua cadeira no Senado, que foi parar aos pés de Paulo Rocha, mesmo este tendo sido réu no esquema do mensalão e absolvido por falta de provas, o que, se o absolve das penas da lei, não o deveria absolver do julgamento nas urnas, afinal, falta de provas, em termos políticos, não redime qualquer candidato que seja. Políticos nunca são inocentes!
A "debandada" de Lima para o outro lado da oligarquia política paraense, mostra que Jatene alimentou político ganancioso que pode ser o principal responsável por sua derrota no segundo turno. Talvez Jatene esteja lembrando-se de quando ele próprio fora alimentado pelo agora adversário Jader Barbalho e pelo falecido coronel assassino de sem-terras Almir Gabriel, que, peitado por sua cria, rebarbou-se em eleição passada, dando apoio à Ana Júlia (PT) num pleito contra um candidato de seu partido, o já citado Jatene.
Vê-se que, em matéria de política, o Pará é dado a circularidades!
Interessante nisso tudo é que Lima diz que apoia porque não recebeu o apoio que queria e que acha que deveria receber de Jatene, o que o fez ir para os braços do PMDB, este sim um partido fisiológico por excelência. Ainda resta dúvida de que, no Pará, tanto Helder quanto Jatene são no fundo mais do mesmo que sempre causou tanto estrago para o Estado?

Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,


terça-feira, 7 de outubro de 2014

O povo realmente é burro?




Cartum d0 Henfil (retirado do livro "Henfil nas eleições")

Madrugada de terça-feira e resolvi escrever sobre um incômodo que me importuna cada vez mais desde os resultados do primeiro turno das Eleições 2014. É algo ao qual estou sensível nos últimos dias, embora já o tenha reproduzido no passado: o discurso de que o povo seria burro, por isso o resultado dessas nossas eleições. É lógico que não estou contente com o que saiu das urnas, as quais definiram um aumento da quantidade de legisladores (nos níveis estaduais e federais) que podem ser "qualificados" sem receio como conservadores, alguns inclusive de reacionários. Mas daí pra repetir com soberba que "nego é burro, burro, e continua votando errado" há muita coisa a ser considerada

Vejamos o Pará, por exemplo, que elegeu para a Alepa um coronel da polícia militar, e cujo deputado federal mais votado (e de maneira expressiva) foi Éder Mauro, delegado. Expressão clara de que os eleitores estamos preocupados com a escalada da violência e insatisfeitos com as políticas públicas de segurança. Porém, eleger Éder Mauro não é continuar investindo numa política de segurança que não vem dando certo, pois a reduz à repressão e ao uso da força? Elegê-lo também não é reforçar a crença de uma violência ubíqua, mesmo sabendo-se que a violência não se distribui de forma igualitária no espaço urbano, variando em sua intensidade e qualidade dependendo do lugar onde se está e de quem ali está? Reforçando-se essa ideia só se contribui para aumentar a anemia do espaço público, encolhendo-o, deteriorando-o e restringindo-o nas cidades contemporâneas como bem mostra Marcelo Lopes de Souza em seu livro Fobópole: o medo generalizado e a militarização da questão urbana. Essa contribuição que o Pará dá para a chamada bancada da bala será sentida nos rumos que serão dados a questões tão importantes, como a redução da maioridade penal; a descriminalização do consumo de entorpecentes e a legalização e regulamentação de sua compra e venda; a desmilitarização das polícias; a descriminalização e legalização do aborto; e a regulamentação do porte de arma, por exemplo. Claro me parece que essa maneira de tratar segurança pública somente cria impunidades seletivas  e, retomando novamente Souza, reduz a mobilidade intraurbana geral, criando e reforçando exclusões e autoexclusões. Foi o que Marcelo Yuka nos disse anos atrás sobre a dúvida que as grades dos condomínios trazem consigo, e reforçou recentemente quando disse que, junto a seu irmão, passou a temer a cidade toda vez que se fala em proteção.

Para finalizar o tema segurança pública, costumo dizer que não acredito na violência, o que pode parecer estranho com tantas notícias que nos chegam pelos mais diversos veículos da mídia, pela conversa com conhecidos ou desconhecidos, e muitas vezes também pelo revólver que nos interpela aqui e acolá, mas que nem sempre vem despido de uniforme, afinal, ainda é frequente a ocorrência de fatos que nos fazem crer que o diabo veste farda, como li num muro na esquina da Avertano Rocha com a 16 de Novembro. Mas, contraditório, não acredito nela sabendo de sua existência e convicto de que a melhor forma de combatê-la não é rendendo-lhe tributo ou depositando-lhe minha fé e meu medo. E essa a-crença, minha alétheia particular, me tem sido útil até então, pois aprendi desde cedo a não temer as ruas e acredito que quem teme as ruas não soube amá-la nem respeitá-la como fonte de sabedoria que é.

No entanto, voltemos ao tema que o título desse texto suscita. Creio que disse que estava descontente com os resultados da eleição, mas deveria ter dito que estou descontente com essa eleição, independente de seus resultados, pois mais uma vez fomos impelidos à busca do candidato menos pior para depositarmos nosso voto e a ilusão que ele carrega nesse nosso sistema de democracia representativa (Maurício Tragtenberg apresenta muito bem isso em artigo de 1982 que tomo a liberdade de não pedir licença para reproduzir aqui um trecho que, quase em tom profético, fala muito sobre o PT de hoje: "O Partido dos Trabalhadores que inicialmente constituiu esperança de valorização da auto-organização dos mesmos, ao eleger o caminho eleitoral tende a formar, em cada trabalhador vereador, deputado ou senador, um ex-trabalhador.// Se não definir com clareza seu objetivo em termos de mudança estrutural, poderá ser cooptado pelo regime transformando-se em seu 'braço esquerdo'").

Mas, somente começaram a se delinear os resultados desse primeiro turno e as redes sociais ficaram alvoroçadas como é de seu feitio, repetindo como papagaios recalcados que o povo é burro e sem memória; que o gigante acordou, bebeu água, pegou vinte centavos e dormiu; que protestamos como nunca, mas votamos como sempre; que necessitamos de vestibular político; que não adianta mais protestar depois desses resultados; e uma série de impropérios. Impropérios contra O povo, como se a culpa residisse nos outros, nas terceiras pessoas do singular e do plural, estas sendo, portanto, o povo. Ledo engano, afinal, quando se trata de política, essa ação impura e forma moderna da tragédia, não existe inocentes; no máximo, inocentados. Será que aí não está implícito um preconceito medioclassista/elitista com o popular? Tenho fortes razões para crer que sim.
E é triste ver que isso é um pensamento e um argumento reproduzido muitas vezes sem se debruçar minimamente sobre ele. Estendo a ele a mesma reflexão que fiz no texto (Foi pra rua? Vem pra urna!)?!: a de que sua reprodução pode contribuir para o desvanecimento da participação política tão importante para o impulsionamento de mudanças estruturais que nos são necessárias, com as quais nos será permitido ver uma possibilidade de não mais engolir o pior ou, quando muito, o menos pior.
O povo não é burro, talvez só esteja perdido em meio à pobreza extrema que ainda atinge cerca de 16 milhões de brasileiros; à educação em más condições físicas e qualitativas; ao pouco acesso à informação de qualidade, apesar da internet, que mesmo assim só consegue alcançar um pouco mais da metade do total da população; às condições resultantes do sistema eleitoral, que privilegia candidatos cujos bons recursos econômico-financeiros não harmonizam com seus conceitos políticos e que estimula alianças espúrias; dentre tantos outros fatores que, redutores da equidade, impossibilitam um cenário de escolha ótima.
Vejamos a Lei da Ficha Limpa, que torna inelegível candidatos que foram condenados por decisão de órgão colegiado, mesmo com possibilidade de recurso, que tiveram mandato cassado ou que renunciaram para evitar cassação. A lei é um avanço, mas incorre no depósito de confiança no seu cumprimento pleno e na realização "justa" da Justiça. Como crer cegamente nela quando há no país uma impunidade seletiva? Assim, a Lei é somente um mecanismo a ser considerado, pois o fato de ser "ficha limpa", isto é, de não ter sido tornado inelegível nos termos dessa lei, não é comprovante de idoneidade, como muitos políticos querem que acreditemos e acabam por utilizar essa própria lei para seu arsenal de marketing. Tais políticos que se orgulham de serem "ficha limpa", utilizando o termo quase como um título de nobreza inarredável do seu nome, devem entender, e nós eleitores principalmente, que ser "ficha limpa" é o mínimo necessário, sem o qual não há sequer possibilidade de candidatura, não sendo diferencial nenhum e, portanto, não deveria ser motivo de orgulho e tampouco de elemento de diferenciação na hora de escolher em quem votar. Orgulhar-se de ser "ficha limpa" é como dizer-se bom cidadão por pagar seus impostos. É orgulhar-se daquilo que é a lei o obriga a ser. E ainda assim nós eleitores somos tocados por esse discurso. Há burrice nisso? Não, o que há é pouca criticidade, e isto sim é arma de grosso calibre apontada para própria testa.
Para finalizar com uma reflexão que talvez fuja um pouco da proposta deste texto, quero expressar minha preocupação com algo nessa eleição: o despontar de um importante ator político, Jefferson Lima. Já falei sobre a demagogia a la Wlad deste que foi o segundo candidato mais votado para o cargo de senador no Pará - o qual, ouvi dizer por aí, a cada voto recebido caia uma lágrima da urna eletrônica (referência a uma propaganda em que o candidato aparece chorando tal qual crocodilo para convencer os eleitores a votarem nele).
Me preocupa sua ascensão como político que pode decidir, e sempre para o que considero como pior para nós, os resultados finais de uma eleição. Jefferson, por exemplo, ficou à frente nessas eleições de Mário Couto, tão péssimo político quanto ele, tendo 741.427 votos, ou 29,92% dos votos (ainda assim, 24,28 pontos percentuais a menos que o candidato eleito, Paulo Rocha, do PT, que, como quase todo o seu partido, sofre do que o trecho do artigo de Tragtenberg citado mais acima expressa). Nas eleições para prefeito de Belém, a qual se candidatou, Jefferson Lima obteve 99.714 votos, ou 12, 89%, ficando em terceiro lugar e tendo contribuído consideravelmente para a vitória do tucano Zenaldo Coutinho, também conhecido como Zenálcool ou Zenaldudu Coutinho Costa (belenenses entenderão).
Jefferson Lima é ganancioso, e vem tendo provas do poder político que tem, o que pode gerar péssimas surpresas para nós já nas próximas eleições municipais. E, mais do que isso, como me disse Larissa Guimarães quando lhe expressei essa minha preocupação, seu estrago certamente não se restringe aos cargos eletivos, pois a força que adquire para barganhar posições para si ou para os seus na formação do próximo governo também são preocupantes. Ao que parece, engendrou-se um político fisiológico no Pará.

Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,

terça-feira, 23 de setembro de 2014

(Foi pra rua? Vem pra urna!)?!

Assistindo às propagandas políticas aqui no Pará, em especial para a única vaga de senador disponível, percebe-se como ainda há um discurso fortemente marcado por uma política de implantar o medo no eleitor e de esvaziamento da participação política em períodos não eleitorais. Não entrarei detalhadamente na elevada desconfiança que tenho sobre todos os candidatos - desde o pretenso exemplo de homem e gestor públicos, Simão Bendayan, que, conhecedor de marketing político que é, e sobre o qual tem obra publicada, adotou o nome político de Simão do PV, passando por todos os outros candidatos, e culminando-se no "trabalhador" Duciomar Costa (sim, se há algo sobre o qual não se pode acusar Dudu é de não ser um "trabalhador", assim mesmo entre aspas, afinal o citado chegou inclusive a exercer a atividade de médico mesmo sem pode-la, e isso, desconfio eu, é prova cabal da sua vontade de "trabalhar para o povo", e não de sua "personalidade  com desvios de padrão de normalidade", seja lá o que isso signifique). Todos estes apresentam-se como representantes do povo, seus defensores. Minha dúvida é a mesma de M. Tragtenberg: quem irá defender o povo deles, no poder?

Bem, mas há que ir-se ao discurso do medo e que demonstra-se como intenção de domesticar o protesto político. Jefferson Lima, com sua demagogia à Wlad, disse uma vez ao pedir votos que o momento era agora e, caso não votassem nele, não adiantaria nada ir reclamar com ele depois (o candidato citado é radialista, e tal posição lhe permite trasvetir-se de defensor dos interesses do povo, principalmente das camadas mais populares, das quais conseguiu o carinho com suas bravatas denuncistas que, no entanto, vê-se que foram mais úteis para o seu projeto político do que para a mitigação das mazelas que destacava).
Helenilson Pontes, vice-governador do candidato à reeleição Simão Jatene (este que desde 2004 figura como acusado em investigação do Ministério Público Federal (MPF) pelo recebimento de propina da empresa Cervejaria Paraense S.A (Cerpasa) em troca de incentivos fiscais e perdão de dívida fazendária), por sua vez, tem uma chamada em que afirma que o Pará corre o risco de escolher o senador errado novamente, o que não deixa de ter um fundo de verdade, afinal, com as opções dadas, as possibilidades de acerto, tanto à esquerda, quanto à direita, são nulas. A chamada continua, também dizendo que depois não adiantaria reclamar.
Mário Couto, para finalizar somente com estes três candidatos, também esbraveja, como é de seu feitio de péssimo ator político, que o Pará não pode escolher candidato impugnado, candidato que envergonhe o estado e ex-mensaleiro, referindo-se claramente ao candidato Paulo Rocha, do PT, mesmo sem nomeá-lo. Mas, não apresenta suas propostas, as quais parecem estar presentes na paráfrase "eu não apresento propostas, mas que as tenho, as tenho", e para esse candidato, da mesma forma que para muitos dos demais, o eleitor deve confiar que ele é a melhor opção somente porque o outro concorrente não é boa opção.
E estes são nossos candidatos, cada vez menos políticos, afinal, para eles só se pode continuar defendendo o que dizem que irão defender(?) se eles ganharem. Assim, a defesa de causas e ideias, ao menos na retórica de suas propagandas, está condicionada à ocupação do cargo eletivo que disputam. Caso percam, não adianta procurá-los, mesmo com eles jactando-se das qualidades de homens públicos que possuem e da dedicação que têm com seu ofício (sic) de político, sempre destinado à defesa do povo. Alguém dúvida de que para eles, mesmos se forem eleitos, também não adianta nada reclamar?

Aí vem o complementar dessa política do medo, que é o discurso frequente, sobretudo quando se está diante de protestos que afetem suas necessidades mais egoísticas, de que a hora de protestar é nas urnas, não podendo ser feito nada antes disso e nem depois, até que se passem quatro anos e o povo seja "autorizado" novamente a apresentar seus pontos de vista políticos. E, para completar, as próprias instituições oficiais reforçam essa ideia. Se analisarmos as propagandas destinadas a sensibilizar o eleitor a ir votar, e isto num contexto de votação obrigatória que ainda e infelizmente se mantém, fica clara tal postura. Ali apresenta-se essa ideia de que o lugar de protesto por excelência é na urna e que mesmo nesse contexto de desigualdade na detenção dos diversos tipos de capital existentes - como pode ser exemplificado com os contextos de informações oligopolizadas por mídias hegemônicas (vide a polaridade ORM/Maiorana/PSDB e RBA/Barbalho/PMDB-PT aqui no Pará, onde os dois grupos igualam-se nas mentiras e nas verdades que trocam entre si) que fazem com que os eleitores, de forma bem geral, não tenhamos as melhores condições de escolha do voto, esta prática a nós imputada de maneira quase desumana -, parece ser em nós que reside a responsabilidade final sobre os atos de corrupção.
 É a mesma lógica de outros discursos conservadores e reacionários: "bem feito ter sido assaltado. Quem mandou ficar zanzando por aí na rua?!", "mas se vestir assim, minha filha, é pedir para ser estuprada", "acho precipitação ter se manifestado contra: quanto mais se falar, mas vai ter racismo", etc. Ao que parece, se não fosse tão somente pela conduta do assaltado, da estuprada, do negro, e do eleitor, não teríamos roubos, estupros, racismo e nem corrupção no Brasil. 
Esta é a crença basilar da democracia representativa que adotamos, que urge por uma revisão e por uma democratização. Defende-se a ideia de que todos os setores da sociedade estão ali representados, mas esquece-se da ilusão que representa este dito pacto social, posto em cada agente haver um peso que lhe é próprio e que faz com que não existam condições equitativas de representatividade e de acesso às arenas públicas onde os embates políticos se dão. E aquelas arenas públicas mais próximas de nós nos são ora negadas, ora esvanecidas com esse discurso de que o protesto só pode ocorrer na urna e que depois da eleição não adianta reclamar, pois toda a sujeira feita por quem foi eleito é culpa nossa, que, envergonhados como na propaganda da Justiça Eleitoral, só poderemos mudar o quadro nas próximas eleições. E assim se vê que a atual política brasileira vira a obra de More do avesso.

Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie.

P.S: Não estou tentando dizer que não há uma responsabilidade imputada no ato de votar. Pelo contrário, acredito que na conjuntura política que nos é contemporânea, tal ato beira a desumanidade tamanha a sua responsabilidade. O que se refere aqui é que a responsabilidade política, isto é, a congruência entre retórica e ação, deve estar presente não somente nesse momento, mas em todos aqueles que se apresentarem e que se vislumbrem como oportunos e necessários para os que ali desenvolverão esta ação impura por si mesma que é a ação política. Também digo que os dois discursos apresentados em lugar de gerarem uma conscientização do eleitorado, distanciam cada vez mais dele uma participação política espontânea e livre. É lógico que há muito mais por trás do que apresentei, e inclusive no que apresentei, afinal, como disse Castoriadis, o que existe por trás das aparências são outras aparências.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pós-plebiscito

Ontem o povo do Pará foi às urnas e decidiu em plebiscito pela não divisão do Estado! Meu voto também foi nesse sentido, mas, passada a eleição, devemos ponderar sobre alguns fatores. Considero justa e legítima a vontade do POVO das regiões separatistas, posto que tais regiões estão abandonadas pelo poder público. Entretanto, não vejo a divisão como solução, uma vez que foi proposta por oportunistas políticos que queriam se aproveitar do abandono presente nas regiões separatistas para obtenção de maior parcela de poder. Convém citar que os propusentes dos projetos de lei a favor da divisão do Estado nem eram paraenses (o principal marketeiro deles, por exemplo, foi Duda Mendonça, baiano que foi contra a divisão de seu Estado, mas é a favor da divisão do nosso por ter terras em solos papa-xibés e que, portanto, se beneficiaria política, financeira e economicamente com a divisão), e são os mesmos pecuaristas, fazendeiros, grileiros e afins que lucram sobre a exploração de nossas terras, desmantando-as e ocasionando diversos outros fatores, como a deprimente posição do Pará como Estado brasileiro que possui maior número de trabalhadores em condições de trabalho escravo.
Além disso, percebe-se, nessa situação, manobra política análoga à que Sarney fez ao transferir seu domicílio eleitoral para o Amapá, transformando esse nosso vizinho em surcusal do Maranhão, estado em que o coronel manda e desmanda e que figura como herança no testamento do Don Corleone tupiniquim. O caso é que, pelo menos de acordo com a análise que fiz e que me levou a votar pelo NÃO, tais políticos vislumbraram a chance de, com a divisão do Pará, passar a ocupar melhores posições políticas e econômicas no decaído sistema sociopolítico brasileiro. Outro ponto importante, é que essa realidade de abandono não é exclusividade das regiões separatistas (em que pese ser mais representativa nessas áreas): basta caminhar por alguns bairros aqui da capital e presenciar o abandono, dentre eles posso citar a Vila da Barca, algumas regiões da Santissíma Trindade (Jurunas, Guamá e Terra Firme), o Benguí, o Parque Verde, etc.
Tudo isso que abordei não foi apenas para justificar meu voto contrário à divisão, mas também para parabenizar o povo paraense por não deixar esse esquartejamento acontecer, e, sobretudo, para deixar claro que não se pode ficar dessa forma e que foi válida a discussão gerada pelo plebiscito para que as autoridades possam refletir sobre seus modelos de gestão, que excluem a maioria para benefício de minorias.
Para que ocorra a melhoria desejada, é necessário não somente que a gestão administrativa seja repensada, mas a própria postura da população seja reformulada, passando-se a votar com maior consciência, distanciando do poder políticos corruptos e oportunistas e fiscalizando e cobrando daqueles que forem eleitos melhores ações para o povo, não ficando calados enquanto a Alepa, por exemplo, aprova lei que aumenta prazo de permanência de temporários, numa manobra descarada de garantir preenchimento de cargos por cabos eleitorais que nada contribuem para o engradecimento do Estado.
Por fim, deve-se também ficar atento para os rancores gerados pelo plebiscito, que pode ocasionar maiores distanciamentos de identidade cultural, e que, portanto, devem ser bem administrados para evitar que o Pará possa se tornar ingovernável tão somente por mágoas de coroneis locais que se viram distanciados da tão almejada fatia de poder, além de analisar outras propostas que já estão no nascedouro, como de possível novo plebiscito e, dessa vez, com peso de voto diferente para os eleitores das regiões separatistas como forma de compensar a baixa densidade demográfica dessas áreas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Acredito em Ordem e Progresso quando o povo tem acesso ao ingresso


The accursed power that rests on privilige
And goes with women, and champagne, and bridge,
Broke : and Democracy resumed her reign
That goes bridge, women and champagne
                                                                          (Hillaire Belloc)

Lendo o espetacular livro "A Era dos Impérios", de Eric J. Hobsbawm, encontrei nas páginas 145 e 146 esses versos, e achei impressionante a atualidade deles, embora tenham sido escritos em 1954 para retratar um evento ocorrido em 1906. Ah, o título do post é um par de versos da música UmaExtraPunkPrumExtraFunk, do rapper carioca Black Alien.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

“Prontuário de frases para todos os usos para preencher o vazio de nada”

Lendo o Manual de Redação Oficial da Presidência da República achei esse texto que me lembrou o FhC (superlativo de PhD). É um texto "(...) a partir do qual podem ser feitas inúmeras frases, combinando-se as expressões das várias colunas em qualquer ordem, com uma característica comum: nenhuma delas tem sentido! O quadro tem aqui a função de sublinhar a maneira de como não se deve escrever:"

Clique na imagem para ampliar

FONTE: Manual de redação da Presidência da República. 2. ed. rev. e atual. – Brasília: Presidência da República, 2002.




domingo, 24 de abril de 2011

O #orgulhoFhC e Millôr Fernandes


Durante essa última semana fomos surpreendidos por manifestações no Tuíter de um suposto #orgulhoFhC, o que me causa indignação, afinal, até o referido episódio, eu achava que orgulho e FHC não poderiam figurar no mesmo contexto. Enfim, conversando sobre o assunto com a antropofágica Jéssica Souza, fiquei sabendo de um tal texto do Millôr em "homenagem" ao ilustríssimo ex-presidente da República e, dando uma googada, o encontrei no Óleo do Diabo (coincidência?) e decidi colocá-lo a seguir. Divirtam-se!

O pensamento de FHC analisado por Millôr Fernandes

LIÇÃO PRIMEIRA
De uma coisa ninguém podia me acusar — de ter perdido meu tempo lendo FhC (superlativo de PhD). Achava meu tempo melhor aproveitado lendo o Almanaque da Saúde da Mulher. Mas quando o homem se tornou vosso Presidente, achei que devia ler o Mein Kampf (Minha Luta, em tradução literal) dele, quando lutava bravamente, no Chile, em sua Mercedes (“A mais linda Mercedes azul que vi na minha vida”, segundo o companheiro Weffort, na tevê, quando ainda não sabia que ia ser Ministro), e nós ficávamos aqui, numa boa, papeando descontraidamente com a amável rapaziada do Dops-DOI-CODI.


Quando, afinal, arranjei o tal Opus Magno — Dependência e Desenvolvimento na América Latina — tive que dar a mão à palmatória. O livro é muito melhor do que eu esperava. De deixar o imortal Sir Ney morrer de inveja. Sem qualquer partipri, e sem poder supervalorizar a obra, transcrevo um trecho, apanhado no mais absoluto acaso, para que os leitores babem por si:


"É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação 'casual-analítica', nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de 'causal-significante’ — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente 'mecânico-causal', que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘conseqüências internas’.”

Concurso – E-mail:

Qualquer leitor que conseguir sintetizar, em duas ou três linhas (210 toques), o que o ociólogo preferido por 9 entre 10 estrelas da ociologia da Sorbonne quis dizer com isso, ganhará um exemplar do outro clássico, já comentado na primeira parte desta obra: Brejal dos Guajas — de José Sarney.

LIÇÃO SEGUNDA
Como sei que todos os leitores ficaram flabbergasted (não sabem o que quer dizer? Dumbfounded, pô!) com a Lição primeira sobre Dependência e Desenvolvimento da América Latina, boto aqui outro trecho — também escolhido absolutamente ao acaso — do Opus Magno de gênio da "profilática hermenêutica consubstancial da infra-estrutura casuística", perdão, pegou-me o estilo. Se não acreditam que o trecho foi escolhido ao acaso, leiam o livro todo. Vão ver o que é bom!

Estrutura e Processo: Determinações Recíprocas
“Para a análise global do desenvolvimento não é suficiente, entretanto, agregar ao conhecimento das condicionantes estruturais a compreensão dos ‘fatores sociais’, entendidos estes como novas variáveis de tipo estrutural. Para adquirir significação, tal análise requer um duplo esforço de redefinição de perspectivas: por um lado, considerar em sua totalidade as ‘condições históricas particulares’ — econômicas e sociais — subjacentes aos processos de desenvolvimento no plano nacional e no plano externo; por outro, compreender, nas situações estruturais dadas, os objetivos e interesses que dão sentido, orientam ou animam o conflito entre os grupos e classes e os movimentos sociais que ‘põem em marcha’ nas sociedades em desenvolvimento. Requer-se, portanto, e isso é fundamental, uma perspectiva que, ao realçar as mencionadas condições concretas — que são de caráter estrutural — e ao destacar os móveis dos movimentos sociais — objetivos, valores, ideologias —, analise aquelas e estes em suas relações e determinações recíprocas. (…) Isso supõe que a análise ultrapasse a abordagem que se pode chamar de enfoque estrutural, reintegrando-a em uma interpretação feita em termos de ‘processo histórico’ (1). Tal interpretação não significa aceitar o ponto de vista ingênuo, que assinala a importância da seqüência temporal para a explicação científica — origem e desenvolvimento de cada situação social — mas que o devir histórico só se explica por categorias que atribuam significação aos fatos e que, em conseqüência, sejam historicamente referidas.

(1) Ver, especialmente, W. W. Rostow, The Stages of Economic Growth, A Non-Communist Manifest, Cambridge, Cambridge University Press, 1962; Wilbert Moore, Economy and Society, Nova York, Doubleday Co., 1955; Kerr, Dunlop e outros, Industrialism and Industrial Man, Londres, Heinemann, 1962.”

Comentário do Millôr, intimidado:

A todo momento, conhecendo nossa precária capacitação para entender o objetivo e desenvolvimento do seu, de qualquer forma, inalcançável saber, o professor FhC faz uma nota de pata de página. Só uma objeçãozinha, professor. Comprei o seu livro para que o senhor me explicasse sociologia. Se não entendo o que diz, em português tão cristalino, como me remete a esses livros todos? Em inglês! Que o senhor não informa onde estão, como encontrar. E outra coisa, professor, paguei uma nota preta pelo seu tratado, sou um estudante pobre, não tenho mais dinheiro. Além do que, confesso com vergonha, não sei inglês. Olha, não vá se ofender, me dá até a impressão, sem qualquer malícia, que o senhor imita um velho amigo meu, padre que servia na Paróquia de Vigário-Geral, no Rio. Sábio, ele achava inútil tentar explicar melhor os altos desígnios de Deus pra plebe ignara do pequeno burgo e ensinava usando parábolas, epístolas, salmos e encíclicas. E me dizia: “Millôr, meu filho, em Roma, eu como os romanos. Sendo vigário em Vigário-Geral, tenho que ensinar com vigarice".

LIÇÃO TERCEIRA
 Há vezes, e não são poucas, em que FhC atinge níveis insuperáveis. Vejam, pra terminar esta pequena explanação, este pequeno trecho ainda escolhido ao acaso. Eu sei, eu sei — os defensores de FhC, a máfia de beca, dirão que o acaso está contra ele. Mas leiam:

“É oportuno assinalar aqui que a influência dos livros como o de Talcot Parsons, The Social System, Glencoe, The Free Press, 1951, ou o de Roberto K. Merton, Social Theory and Social Structure, Glencoe, The Free press, 1949, desempenharam um papel decisivo na formulação desse tipo de análise do desenvolvimento. Em outros autores enfatizaram-se mais os aspectos psicossociais da passagem do tradicionalismo para o modernismo, como em Everett Hagen, On the Theory of Social Change, Homewood, Dorsey Press, 1962, e David MacClelland, The Achieving Society, Princeton, Van Nostrand, 1961. Por outro lado, Daniel Lemer, em The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East, Glencoe, The Free Press, 1958, formulou em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento, o enfoque do tradicionalismo e do modernismo como análise dos processos de mudança social”.

Amigos, não é genial? Vou até repetir pra vocês gozarem (no bom sentido) melhor: “formulou (em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento) o enfoque (do tradicionalismo e do modernismo) como análise (dos processos de mudança social)”.

Formulou o enfoque como análise!

É demais! É demais! E sei que o vosso sábio governando, nosso FhC, espécie de Sarney barroco-rococó, poderia ir ainda mais longe.

Poderia analisar a fórmula como enfoque.

Ou enfocar a análise como fórmula.

É evidente que só não o fez em respeito à simplicidade de estilo.

Tópico avulso sobre imodéstia e pequenos disparates do eremita preferido dos Mamonas Assassinas.

Vaidade todos vocês têm, não é mesmo? Mas há vaidades doentias, como as das pessoas capazes de acordar às três da manhã para falar dois minutos num programa de tevê visto por exatamente mais ou menos ninguém. Há vaidades patológicas, como as de Madonas e Reis do Roque, só possíveis em sociedades que criaram multidões patológicas.
Mas há vaidades indescritíveis. Vaidade em estado puro, sem retoque nem disfarce, tão vaidade que o vaidoso nem percebe que tem, pois tudo que infla sua vaidade é para ele coisa absolutamente natural. Quem é supremamente vaidoso, se acha sempre supremamente modesto. Esse ser existe materializado em FhC (superlativo de PhD). Um umbigo delirante.


O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal — se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta — e fala pessimamente — seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma, é considerado o maior sociólogo brasileiro.

Nunca vi nada que ele fizesse (Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro que o elevou à glória, é apenas um Brejal dos Guajas, mais acadêmico) e dissesse que não fosse tolice primária. “Também tenho um pé na cozinha”, “(os brasileiros) são todos caipiras”, “(os aposentados) são uns vagabundos”, “(o Congresso) precisa de uma assepsia”, “Ser rico é muito chato”, “Todos os trabalhadores deviam fazer checape”, “Não vou transformar isso (a moratória de Itamar) num fato político”. “Isso (a violência, chamada de Poder Paralelo) é uma anomia”. E por aí vai. Pra não lembrar o vergonhoso passado, quando sentou na cadeira da prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros, segundo ele “um fantasma que não mete mais medo a ninguém”.

Eleito prefeito, no dia seguinte Jânio Quadros desinfetou a cadeira com uma bomba de Flit.

E, sempre que aproxima mais o país do abismo no qual, segundo a retórica política, o Brasil vive, esse FhC (superlativo de PhD) corre à televisão e deita a fala do trono, com a convicção de que, mais do que nunca, foi ele, the king of the black sweetmeat made of coconuts (o rei da cocada preta), quem conduziu o Brasil à salvação definitiva e à glória eterna. E que todos querem ouvi-lo mais uma vez no Hosana e na Aleluia. Haja!

Millôr Fernandes



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Fora, Temer!