quinta-feira, 2 de julho de 2015

O Patrimônio como letra morta


No último domingo (28/06/15), o jornal Diário do Pará publicou, em duas páginas, a matéria intitulada Digno de ser patrimônio? (foto). Na matéria, as autoras falam sobre o caso da proposição do deputado estadual Antônio Furlan (PTB-AP) de registrar o ritmo musical conhecido como melody como patrimônio cultural imaterial do estado do Amapá. Também falam sobre o registro do Círio de Nazaré como patrimônio cultural imaterial do município de Belém, destacando, nesse caso, a retirada da Festa da Chiquita do contexto dessa manifestação; e sobre o processo de registro dos Pássaros Juninos.
Diário do Pará, 28/06/15 (domingo), caderno Você, p. 4-5.
No mesmo dia, enviei um e-mail ao Diário com intuito de apresentar alguns fatos que devem ser considerados quando se refere ao tema do reconhecimento e registro de patrimônio cultural imaterial aqui no Pará. No entanto, e até a presente data, não recebi nenhum retorno do veículo de mídia indigitado, sequer resposta ao meu e-mail. Com isso, sou levado a acreditar que o jornal dos Barbalho, mais uma vez, pouco se importa para o que realmente está inserido nas questões que suscita em suas matérias, utilizando-as, quase sempre, somente para os seus desígnios políticos-eleitorais, afinal, parece-nos que basta-lhes inflar uma pretensa opinião pública contra seus adversários políticos, criticando-lhes os mesmos atos que, quando entronizados nas instituições governamentais, repetem. Mais uma vez, o Diário demonstra, assim como os periódicos do grupo de comunicação e família adversários, ser panfleto político travestido de jornal.

Abaixo, eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,


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Após ler a matéria Digno de ser patrimônio?, de Monique Malcher e Aline Monteiro, e publicada ontem (28/06/15), neste jornal, considerei importante acrescentar alguns pontos ao debate. Inicialmente, tangencio a polêmica em torno da proposta do deputado estadual Antônio Furlan (PTB-AP) de que o ritmo musical denominado como melody torne-se patrimônio cultural imaterial do Estado do Amapá. Faço isso para falar detidamente sobre a questão desse tipo de patrimônio aqui no Pará, o que nos ajudará a buscar o fio da meada para entender esse caso aparentemente cômico que ocorre no Estado vizinho ao nosso.
O termo patrimônio cultural integra, inicialmente, o léxico político e, posteriormente, administrativo. Daí falar-se primeiramente em reconhecimento e, depois, em registro do bem como patrimônio cultural – seja material ou imaterial –, o que implica que, após a execução de tais atos administrativos, evidenciar-se-á ainda mais o dever que o Estado possui com a preservação e continuidade de tal bem. Sendo um discurso, o patrimônio cultural, assim como a tradição – este outro termo estando intimamente ligado àquele –, é inventado social e politicamente, e nessa invenção pública, o verbo dever oculta-se no substantivo compromisso que marca o discurso do Estado.
Se discursivamente o ato de reconhecer e registrar um bem como patrimônio cultural constitui uma opção em inseri-lo na pauta de prioridades do Estado, a fim de salvaguardá-lo, devem-se ter, para ir além do discurso, mecanismos legais suficientes para e capazes de permitir tal transição. Aliás, não devemos somente tê-los, como devemos utilizá-los, e, no caso do Pará, esta é nossa debilidade.
Realizando-se um breve levantamento cronológico, chegaremos ao seguinte quadro: (1) em 1989, o artigo 286 da Constituição do Estado do Pará define os bens que compõem o patrimônio cultural paraense, já os dividindo em material e imaterial, embora sem especificar cada um dos termos, e estabelece as seis categorias que o compõem e as formas como o Estado, “com a colaboração da comunidade”, promoverá e protegerá cada bem: “por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento, desapropriação e outras formas de acautelamento e preservação”; (2) no ano seguinte, a Lei n.º 5.629/1990 dispõe sobre a preservação e proteção do que chama de Patrimônio Histórico, Artístico, Natural e Cultural do Estado do Pará, estabelecendo os quatro Livros de Tombo ou de Registro de Bens Culturais, que estariam sob responsabilidade do Departamento Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Estado de Cultura (DPHAC/Secult) e dos Agentes Municipais de Preservação e Proteção do Patrimônio Cultural (AMPPPC); (3) em agosto de 2009, o Decreto n.º 1.852/2009 “institui o registro dos bens culturais de natureza imaterial que constituem patrimônio cultural imaterial paraense” e “cria o Programa Estadual do Patrimônio Imaterial”; (4) em novembro deste mesmo ano, a Portaria n.º 779/2009 institui normas complementares ao Decreto n.º 1.852/2009, determinando os procedimentos que deverão ser observados para a instauração e instrução do processo administrativo de Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, e deixando explícita a responsabilidade do Poder Executivo, através do DPHAC/Secult, na instrução técnica de tal processo administrativo; (5) em outubro de 2010, o Decreto n.º 2.558/2010 institui o Inventário do Patrimônio Cultural do Estado do Pará (IPCPA), “uma metodologia de pesquisa com a finalidade de produzir informações pormenorizadas sobre bens de natureza material e imaterial, de maneira a contribuir para o conhecimento, a salvaguarda e a divulgação do Patrimônio Cultural do Estado do Pará”; (6) e no mês seguinte, a Instrução Normativa n.º 001/2010 irá dispor sobre os meios necessários para que os interessados obtenham autorização para o uso da metodologia do IPCPA.
Note-se que, declinando-se por ora em avaliar o teor de tais dispositivos de reconhecimento e registro de bens como patrimônio cultural imaterial do Pará, há uma visível evolução no assunto, com estabelecimento de uma metodologia própria e de uma instrução que normatiza o uso de tal metodologia, embora, se formos mais um pouco na análise, perceba-se a repetição quase que integral do teor da legislação federal (Decreto n.º 3.551/2000; Manual de Aplicação do Inventário de Referências Culturais; Resolução n.º 001/2006 – Iphan; Instrução Normativa n.º 001/2009 – Iphan) trocando-se somente os termos que designem as esferas de poder e de atuação.
No entanto, e apesar da constatação de que tal repetição demonstra o tratamento essencialmente burocrático da questão, o que desejo destacar é que, apesar da existência de tais mecanismos, ainda hoje o que se vê é o processo de reconhecimento e registro de bens como patrimônio cultural imaterial sendo realizado por meio de projetos de lei propostos por deputados estaduais e apreciados pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), para posterior sanção do Governador do Estado.
Cito como exemplos de tal prática os três últimos bens registrados como patrimônio cultural imaterial do Estado do Pará, todos originários de projetos de lei aprovados na Alepa: o Festival de Integração Nordestina, realizado no município de Mojuí dos Campos, reconhecido através da Lei n.º 8.175, de 1.º de junho de 2015, a partir do Projeto de Lei n.º 71/2014, de autoria do deputado José Megale (PSDB); o Cacau Fest, realizado no município de Medicilândia, reconhecido através da Lei n.º 8.160, de 09 de abril de 2015, a partir do Projeto de Lei n.º 189/2011, de autoria do deputado Ozório Juvenil (PMDB); e o Festival Jacaré Verão, realizado no município de Jacareacanga, reconhecido através da Lei n.º 8.161, de 09 de abril de 2015, a partir do Projeto de Lei n.º 116/2014, de autoria do deputado Airton Faleiro (PT).
Não entro na discussão (e na polêmica) sobre o merecimento do reconhecimento destes e dos outros bens registrados via tal prática, e destaco mais do que o não cumprimento da legislação por vários agentes públicos. Os procedimentos técnicos necessários e definidos para tais registros não são seguidos e, apesar de tais projetos de lei tramitarem em algumas comissões da Alepa – fato grave, pois demonstra que os deputados, cuja responsabilidade primordial está ligada às leis estaduais, ignoram, de forma deliberada ou não, a legislação em vigor –, pouco se sabe sobre o estado em que se encontrava cada um dos bens que foi registrado, o que é de fundamental importância para conhecermos as condições em que se deu esse registro e, mais ainda, para que posteriormente sejam delineadas políticas e ações de salvaguarda, afinal, esta não é a finalidade do registro?
Em relação à Alepa, causa-me estranhamento que o site da própria instituição informe que o tema [votação do Projeto de Lei n.º n.º 71/2014] levantou a questão da pesquisa e critérios para a aplicação da classificação de ‘patrimônio imaterial’”, e que “o deputado Edilson Moura (PT) [...] informou que apresentou há cerca de dois anos [2012] um projeto para disciplinar a escolha do que pode ou não ser considerado patrimônio imaterial [...]”, desconhecendo, portanto, que durante os quatro anos de seu partido no executivo estadual houve a criação dos dispositivos legais existentes que tratam especificamente desse ponto.
Se assim é, que se manifestem, sobre tal tema, a Alepa, a Secult, o Governador do Estado, e quem mais esteja incluído ou se sensibilize por tal discussão, afinal, feito da maneira que ainda se verifica, pouco ou quase nada significa a realização do registro, pois gera leis que servem mais aos desígnios de promoção política de seus proponentes. Além da marca de patrimônio cultural do Estado do Pará que imputam aos bens registrados, que outros benefícios efetivos lhes destinam? Nesses casos, pagar somente com o prestígio de carregar tal marca é pagar aos detentores (para usar a terminologia estatal) o que de mais baixo e de mais enganoso há – seja em termos culturais, seja em termos políticos.
A partir do que expus, vê-se que há uma homologia com o que ocorre no vizinho Amapá, e talvez por isso o projeto de Furlan trate do melody, ritmo musical de maior penetração popular e, portanto, passível de maior eficácia em gerar frutos políticos-eleitorais ao seu proponente, assim como há homologia no que ocorre no nível municipal em Belém, embora a eliminação da Festa da Chiquita do escopo da lei que reconhece o Círio de Nazaré como patrimônio cultural imaterial do município reflita, além dessa homologia, os preconceitos, a ignorância e a mediocridade do vereador Victor Cunha (PTB) e do prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB) quando se trata do tema patrimônio cultural. Talvez, bem mais do que isso...

sábado, 4 de abril de 2015

Artigo completo IV EICS - Turismo Cultural na Amazônia: ressonância de processos afetivos, sensíveis e morais em um festival cultural em Abaetetuba, Pará, Brasil

Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (imagem de Amarildo Ferreira Júnior, 2014)


O município de Abaetetuba, no estado do Pará, é caracterizado artístico-culturalmente pela presença de artesãos que criam, a partir da palmeira conhecida popularmente como miriti, diversos tipos de artesanato, com destaque para os denominados Brinquedos de Miriti, atividade única e própria do município. Depois de ter disponibilizado os slides de apresentação, deixo-lhes a seguir o artigo que discute a ressonância de processos afetivos, sensíveis e morais nas relações sociais e culturais que os artesãos que criam esse tipo de brinquedo, denominados de artesãos de miriti, desenvolveram entre si ou com agentes responsáveis por controles mercadológicos ou por políticas públicas durante a realização do 11º MiritiFestival, evento de importância social, cultural e econômica que ocorreu em um espaço público de Abaetetuba no mês de maio de 2014.
Versão com a escrita revisada daquela apresentada no GT 04 - Cidades e Turismo: processos de cooperação e conflito no uso dos espaços urbanos, do IV EICS – Encontro Internacional de Ciências Sociais: espaços públicos, identidades e diferenças, realizado entre 18 e 21 de novembro de 2014, em Pelotas (RS), este trabalho foi elaborado mediante observações e entrevistas durante a organização e realização do festival, com realização prévia de revisão bibliográfica para articulação dos quadros teóricos aplicados na investigação, os quais partem dos conceitos apresentados por Bourdieu de campo de relações e de habitus, e aprofundam-se com a contribuição dos estudos dos ajuntamentos e das interações que Goffman empreendeu e que permitem a compreensão dos significados e sentidos que ressonam durante o encontro de dois ou mais indivíduos que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento.
Clique AQUI para ter acesso à versão original, e, em casos de citação, recomenda-se a seguinte referência:


FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. Turismo Cultural na Amazônia: ressonância de processos afetivos, sensíveis e morais em um festival cultural em Abaetetuba, Pará. In: EICS - Encontro Internacional de Ciências Sociais: espaços públicos, identidades e diferenças, IV, 2014, Pelotas (RS). Anais... [recurso eletrônico]. Pelotas (RS): UFPel, 2014. p. 1-18. Disponível em: <http://www2.ufpel.edu.br/ifisp/ppgs/eics/arquivosgts/GT%2004/7.pdf>.

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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Congregation Leaving the Reformed Church in Nuenen

Congregation Leaving the reformed Church in Nuenen, janeiro-fevereiro de 1884 e outono de 1885, Vincent van Gogh (1853-1890)

"Théo, eu decididamente não sou um paisagista; se faço paisagens, sempre haverá nelas vestígios de figuras".
(Vincent van Gogh, Haia, 7 de janeiro de 1882)


Obs.: na manhã de 7 de dezembro de 2002, esta pintura, além do quadro View of the Sea at Scheveningen, foi roubada do Van Gogh Museum, em Amsterdam. Em dezembro de 2003, a polícia holandesa condenou dois homens pelo crime, mas as obras não foram recuperadas. Caso tenham quaisquer informações sobre a localização dos quadros, entrem em contato com a embaixada ou consulado holandês mais próximo.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Apresentação IV EICS - Ressonância de processos afetivos, sensíveis e morais em um festival cultural em Abaetetuba, Pará, Brasil

Em novembro do ano passado, estive na bela Pelotas (RS), onde fui muito bem recebido, especialmente pelo casal Fabíula Rosso e Leonardo Reichert, que me levaram nos locais dos melhores doces da cidade, para apresentar um artigo originário da minha pesquisa de dissertação. Apresentado no GT 04 - Cidades e Turismo: processos de cooperação e conflito no uso dos espaços urbanos, do IV EICS – Encontro Internacional de Ciências Sociais: espaços públicos, identidades e diferenças, o trabalho apresenta considerações sobre o MiritiFestival, realizado anualmente na cidade de Abaetetuba, conforme sintetizo no resumo abaixo. Sendo assim, disponibilizo-lhes os slides utilizados naquela ocasião. Posteriormente, compartilharei com vocês o trabalho completo.

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RESUMO: o município de Abaetetuba, no estado do Pará, é caracterizado artístico-culturalmente pela presença de artesãos que criam, a partir da palmeira conhecida popularmente como miriti, diversos tipos de artesanato, com destaque para os denominados Brinquedos de Miriti, atividade única e própria do município. Este trabalho discute a ressonância de processos afetivos, sensíveis e morais nas relações sociais e culturais que os artesãos que criam esse tipo de brinquedo, denominados de artesãos de miriti, desenvolveram entre si ou com agentes responsáveis por controles mercadológicos ou por políticas públicas durante a realização do 11º MiritiFestival, evento de importância social, cultural e econômica que ocorreu em um espaço público de Abaetetuba no mês de maio de 2014. Para alcance desse objetivo, foram realizadas observações e entrevistas durante a organização e realização do festival, com realização prévia de revisão bibliográfica para articulação dos quadros teóricos aplicados na investigação, os quais partem dos conceitos apresentados por Bourdieu de campo de relações e de habitus, e aprofundam-se com a contribuição dos estudos dos ajuntamentos e das interações que Goffman empreendeu e que permitem a compreensão dos significados e sentidos que ressonam durante o encontro de dois ou mais indivíduos que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento. Esse procedimento permitiu constatar que as relações que ocorrem no interior de atividades artístico-culturais específicas e que contribuem para defini-las permitem entender que práticas consideradas culturais também exercem funções econômicas e sociais – o que é facilmente percebido no MiritiFestival enquanto evento de celebração dos Brinquedos de Miriti de Abaetetuba, atrativo turístico desse município denominado como “Capital Mundial dos Brinquedos de Miriti”, e momento de realização de trocas simbólicas e econômicas entre expositores e visitantes, agentes mercadológicos ou responsáveis por políticas públicas. Também permitiu entender por que os artesãos de miriti, talvez como resposta às pressões exercidas por turistas e outros tipos de consumidores, por lojas de artesanato, por produtores culturais, por instituições de fomento ao empreendedorismo e por órgãos culturais e de gestão e planejamento turístico, por exemplo, ampliam as formas de artesanato que criam e modificam suas maneiras de criar, comercializar e se associar sem mudarem, contudo, o princípio gerador de suas práticas e, por isso, conseguem manter-se e reproduzir-se no campo de relações do qual fazem parte. Ademais, também se pode afirmar que o evento constituiu-se em diversos lugares para onde confluíram significados e sentidos e nos quais as ações eram orientadas e se modificavam de acordo com cada situação vivenciada pelos atores durante aquela ocasião social, ora suscitando relações de cooperação, ora trazendo à tona conflitos.

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sexta-feira, 27 de março de 2015

Diálogo com o jornalista sobre o Memorial da cabanagem

Reproduzo abaixo o diálogo estabelecido por correio eletrônico com o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto, editor do quinzenário Jornal Pessoal, publicado na seção Cart@s da edição 580 do periódico. Considero Lúcio Flávio um dos intelectuais (aqueles que, segundo ele mesmo, comem pelo menos três vezes por dia e são pagos para trabalhar usando o cérebro como ferramenta) e jornalistas paraenses que tratam de forma mais profícua de importantes questões, levando-as para as ruas e libertando-as de nossa torre de marfim. E não são somente assuntos importantes, mas muitas vezes espinhosos para os que estão na parte de cima da pirâmide do poder, daí a quantidade de processos que ele responde na Justiça movidos por aqueles afeitos a somente receber da imprensa fluxos de irrigação para o imenso jardim de seus reis na barriga.
E ainda assim percebo que com Lúcio Flávio ocorre o que passa com muitos daqueles que possuem essa característica de não recearem expressar suas opiniões e análises, feitas de forma apurada, embora em fluxo contínuo e mote continuado, perante os fatos da realidade, colocando-as à disposição do julgamento e da avaliação históricos, e que discorrem sobre temas por vezes tão delicados: proporcionalmente, deles muito se fala e pouco se reflete sobre o que falam e sobre como falam, como se somente citar seus nomes fosse suficiente para dar pinceladas de enriquecimento aos diálogos mais superficiais, - portar-se como poser, como se fala atualmente.
Eis o diálogo; desfrutem (ou não).

Lúcio Flávio Pinto (foto retirada da página de Rogelio Casado)


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Prezado Lúcio,

Há pouco menos de um ano, deixei de ser leitor intermitente de seu Jornal Pessoal para lê-lo continuamente, o que tem me oferecido bons momentos de reflexão, incentivados por suas análises e provocações. E nesse novo compromisso de leitura que decidi assumir, vem me satisfazendo muito suas publicações sobre a cabanagem, sobretudo o Dossiê n.º 9 deste JP, lançado na recente data dos 180 anos da revolta.
Em um parágrafo da matéria "A revolta nos manuais e numa melhor história" (JP n.º 579, 2.ª quinzena de fevereiro de 2015), você se refere ao Memorial da cabanagem, construído durante o primeiro mandato de governador de Jader Barbalho, em comemoração ao sesquicentenário da revolta.
Ler isso me lembrou um fato: no dia 12 de janeiro de 2012, aniversário de Belém, saía de casa para ir ao trabalho, quando passei em frente a tal monumento, diante do qual fiquei parado por conta do engarrafamento, comuns naquela área na qual este termo e o termo como o local é conhecido infelizmente tornaram-se intercambiáveis.
Na ocasião, notei o abandono em que o monumento se encontrava (e ainda se encontra), e utilizei uma rede social para expressar minha indignação pelas condições do local, acrescentando-lhe observações sobre o fato de que tal obra é uma das poucas em que o famoso arquiteto teve algum tipo de atividade direta no norte do Brasil. Dias depois, resgatei esse desabafo em um blog no qual lanço notas, acrescentando-lhe um poema escrito por Niemeyer.
Passado algum tempo, em novembro do ano passado, recebi um comentário de Kadu Niemeyer, neto de Oscar, no qual agradece pela admiração que demonstrei por seu avô e lamenta o estado da obra, mas afirma não conhecer pessoalmente o monumento, "falha minha que como fotógrafo que desde 1973 vem fotografando os projetos do meu avô e realizando exposições pelo Brasil e mundo a fora. Quem sabe um dia desses vou até aí para registrar o projeto e ou mesmo realizar uma exposição".
Tal comentário me instigou, embora não tenha me deixado surpreso, porque já havia verificado a ausência do monumento em alguns registros da obra do arquiteto, mesmo que seu registro conste, inclusive com esboços, na página eletrônica dedica a Oscar. Ainda assim, procurei um pouco mais sobre o assunto, que à época era um interesse mais lateral, apesar de sua importância, e deparei-me com uma notícia publicada na página eletrônica de Jader Barbalho em dezembro de 2012, na qual o atual senador diz que "[...] nesse momento, em que o mundo todo comenta a morte de Oscar Niemeyer, eu registro o episódio sobre o monumento à Cabanagem, que ele projetou e doou ao nosso Estado. É a única obra erguida, de Niemeyer, em todo o Norte do País. Eu o conheci no momento em que – quando fui governador –o Pará se preparava para festejar o sesquicentenário do movimento da Cabanagem. Eu e o jornalista e historiador Carlos Rocque estabelecemos contato com ele e fizemos muitas reuniões no Posto 6 da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Levamos a Niemeyer extenso material sobre o assunto. Quando o projeto ficou pronto, perguntei qual era o custo e ele me disse haver se encantado com os cabanos e que se sentia devedor depois ter conhecido a história da única revolução no Brasil e na América Latina, na qual o povo havia tomado o poder. E explicou a sua obra, que é a representação de um dedo da mão da história. Um dedo fraccionado, justamente quando os cabanos são derrotados. A mão fica embaixo e o dedo aponta para o infinito, porque a história não termina. Abaixo da mão, está a cripta que guarda os restos mortais de líderes do movimento".
Nesse ponto, cautela é necessária, afinal você já destacou em sua matéria o uso utilitário dado ao acontecimento da cabanagem. Em minha resposta, dada por e-mail e em comentário no blog de Kadu, sugeri sua vinda a Belém para realizar o registro e tentar uma exposição, que, se no momento me escapou a lembrança dos 180 anos da cabanagem, sugeria para os 400 anos de Belém. Recentemente, li n'O Globo que, com a falta de patrocínios para suas exposições e para publicar um livro sobre o avô, Kadu vem trabalhando como taxista, o que tem lhe afastado um pouco da fotografia, apesar de afirmar que pretende seguir expondo e vir a lançar o livro. Ainda espero que o fotógrafo venha a Belém registrar esse monumento e expor, e quem sabe possa trazer informações que, dentre as tantas brumas que rodeiam a cabanagem, nos permitam dissipar as que rodeiam o monumento feito em sua homenagem. E, claro, melhorar a situação em que se encontra.

P.S: compartilho da opinião da ombudsman Cintia Moura dada na edição de n.º 573 do JP (1.ª quinzena de novembro de 2014) da satisfação em encontrar notícias sobre temas distintos, como cultura, por exemplo, do que o quinzenário habitualmente mais destaca. Creio que isso enriquece ainda mais o periódico. Também confesso que, devido a importância e o destaque que o JP deu durante o período de gestação da reforma administrativa promovida por Jatene no fim do ano passado, venho esperando com certa ansiedade, embora sem saber se virá, a análise do editor do jornal sobre os termos e consequências de tal reforma. Ademais, também ficaria feliz se, caso possível, a seção Memória do Cotidiano pudesse trazer algum registro da concentração dos girandeiros com seus brinquedos de miriti, tema que me é caro, durante os antigos Círios ocorridos em Belém.

RESPOSTA DE LÚCIO FLÁVIO PINTO

Realmente, faltou completar a análise sobre a reforma do governo Jatene. Além da falta de tempo para tanta coisa que preciso fazer, estava esperando pela sua maturação para checar a hipótese que levantei. Em miúdos, como diria um açougueiro: trocar seis por meia dúzia. A intenção de acrescentar mais racionalidade e eficiência com menor custo foi anulada pela distância entre a teoria e a prática, uma característica marcante no PSDB.
Loquaz e de boa voz, o governador parece se encantar com suas teorizações, várias delas oportunas e promissoras. Mas ao praticar a administração no dia a dia, o que prevalece é o interesse político e a busca por mais poder - ou, ao menos, manter o que ele já detém. Até agora, o governo é o mesmo neste terceiro mandato.
Registro a importância das informações do Amarildo sobre o monumento da cabanagem. É um exemplo de como um intelectual, com as ferramentas que a academia lhe fornece, especialmente para lhe dar régua e compasso, se interessa pela realidade incluindo-a no processo do conhecimento.

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OBS. 1: além da resposta que Lúcio Flávio publicou no próprio quinzenário, recebi dele outra por correio eletrônico assim que o jornalista recebeu meu e-mail. Nela, apesar de curta, o editor apresenta argumentos que podem enriquecer a resposta exposta acima. Pensei em acrescentá-la ao texto, logicamente assinalando-a, mas declinei porque não possuo autorização para tanto. Quem sabe em outro momento...
OBS. 2: neste texto, a palavra CABANAGEM aparece com duas grafias (com a inicial minúscula e com a inicial maiúscula). Essa distinção não é trivial, pois relaciona-se com o significado dado à revolta por quem escreve o termo. Decidi utilizar a escrita com letra minúscula para respeitar a forma como Lúcio Flávio se refere à revolta, e somente escrevi com inicial maiúscula ao reproduzir o trecho do texto de Jader Barbalho, que assim a escreveu.
OBS. 3: Jader está equivocado ao dizer que o memorial é a única obra de Niemeyer erguida no norte do país. Na época do desabafo que me refiro no texto, também sustentava tal crença, alimentada pelo elevado ufanismo que nutrimos, o que gera reflexões vulgares e superficiais sobre fatos e relatos, impede o avanço e aprofundamento de pesquisas, e também serve de ferramenta ideológica para os mais diversos grupos. No entanto, pelo menos outra obra de Niemeyer chegou a ser erguida no norte do Brasil, na cidade de Marabá (Pará), doada pelo arquiteto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Denominada Monumento Eldorado Memória, a obra é uma homenagem aos trabalhadores sem terra mortos no episódio conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, durante o governo de Almir Gabriel, que, assim como vosso atual governador - que dele foi secretário de planejamento (1995-1998) e, nos meandros da disputa interna por poder, também ganhou a pecha de preguiçoso -, igualmente do PSDB. Ademais, Manaus está às voltas para que o Memorial Encontro das Águas, projetado em 2005 por Niemeyer, venha a ser definitivamente construído e inaugurado na cidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Papers do NAEA n.º 334 - Notas introdutórias para o estudo da vida associativa dos artesãos de miriti: relatório de campo

Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (serra-serra e barcos). Foto de Amarildo Ferreira Júnior (2014).

Resumo: Esta nota de pesquisa apresenta um relatório de campo de caráter exploratório realizado durante a festividade do Círio de Nazaré, ocorrida em outubro de 2013, e no qual se acompanhou a inserção dos artesãos que criam os denominados Brinquedos de Miriti de Abaetetuba em quatro espaços públicos. Seu objetivo é subsidiar definições metodológicas e de categorias teóricas da pesquisa em andamento sobre a vida associativa no processo criativo desses agentes sociais. Realizado na cidade de Belém (Pará), este estudo coletou dados mediante observação direta dos espaços visitados e de realização de entrevista com alguns artesãos e com algumas pessoas relacionadas diretamente com eles ou com a realização dos eventos dos quais participavam. Em seu decorrer, o relatório apresenta os espaços visitados e descreve as observações realizadas em cada um deles e as informações obtidas durante as entrevistas realizadas. Em sua conclusão, são feitas considerações sobre as contribuições deste tipo de procedimento para a continuidade da pesquisa em curso e demonstra-se como sua realização pode contribuir para uma primeira aproximação empírica com o tema estudado, para a melhor definição das categorias teóricas a se analisar, e para a identificação das limitações metodológicas que a pesquisa pode apresentar.
Palavras-chave: Artesãos de miriti. Vida associativa. Relatório de campo. Círio de Nazaré. Técnicas de pesquisa.

INTRODUCTORY NOTES FOR STUDY THE ASSOCIATIVE LIFE OF MIRITI ARTISANS: FIELD REPORT

Abstract: This research note presents an exploratory field report conducted during the festivity of Círio de Nazaré, which occurred in October 2013, and which followed the inclusion of artisans who produce so called Miriti Toys of Abaetetuba in four public spaces. It aims to support methodological definitions and theoretical categories of ongoing research about associative life inside the creative process of those social agents. Held in the city of Belém (located in the state of Pará in the north of Brazil), this study collected data through direct observation of the spaces visited and conducting interview with some artisans and some people related directly to them or to the achievement of events of which participated. In its course, the report presents the visited areas and describes the observations made in each of them and the information obtained during the interviews. In its conclusion, we discuss the contributions of this type of procedure to continue the ongoing research and demonstrate as its realization can contribute to a first empirical approach to the subject studied, for better definition of theoretical categories to analyze and to identify the methodological limitations that research can present.
Keywords: Miriti artisans. Associative life. Field report. Círio de Nazaré. Research techniques.

Acesse o artigo completo abaixo ou clicando AQUI, e, em casos de citação, recomenda-se a seguinte referência:

FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. Notas introdutórias para o estudo da vida associativa dos artesãos de miriti: relatório de campo. Papers do NAEA, n. 334, p. 1-33, dez. 2014. Disponível em: <http://www.naea.ufpa.br/naea/novosite/paper/408>.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quis custodiest ipsos custodes?

Atualizado em 7 novembro de 2014.

Belém sangra, e os matadores não percebem que atiram no próprio espelho.
Belém chora, e ainda há quem peça mais mortes, pois para esses "bandido bom é bandido morto, e quem sentir pena, adota". Esquecem que, como disse Sérgio Vaz, a chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem. Para estes "meritocratas", existe uma régua com a qual se mede quem é melhor e quem é pior, e tudo bem se quem a utiliza é o mesmo que empunha a macaca ou dirige o camburão, que de Norte a Sul sempre tem um pouco de navio negreiro. Sendo assim, quem vigiará os vigilantes?
Já falei uma vez que não acredito na violência, afinal, o medo dá origem ao mal, como dizia Chico Science. Me recuso, portanto, a depositar minha crença na violência enquanto meio para se alcançar o fim da própria violência, e também me recuso a prescindir de minha liberdade em andar pelas ruas, mães de toda Sabedoria, por medo de uma polícia que decide quem vive e quem morre a seu bel-prazer, aplaudida de pé por quem defende a permanência desse Circo dos Horrores, dessa Fantástica Fábrica de Cadáveres. Devemos nos contentar em lavar copos e contar corpos?
As pessoas são importantes, é por meio delas que os valores são criados. Esse tipo de polícia, que se coloca acima da lei, do bem e do mal, é?

Eis a tragédia. Não a desfrute.

Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie

P.S.

Segundo dados da Anistia Internacional, só no ano de 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. É esse o perfil das vítimas de ações de extermínio como as que ocorreram em Belém na noite de terça e na madrugada de quarta-feira: jovens, negrxs/caboclxs, pobres, que vivem na periferia.
São pessoas vitimadas tanto por problemas socioeconômicos estruturais, quanto pela violência, esta mesma originária da maioria desses problemas socioeconômicos que se perpetua quando o Estado está presente quase sempre somente com sua fachada perversa. São pessoas vitimadas, portanto, por violências simbólicas e concretas, sejam estas praticadas pelos criminosos presentes nessas áreas de periferia, que são oprimidos que oprimem outros oprimidos; seja praticadas por agentes públicos, estes também oprimidos que oprimem outros oprimidos e, o que se torna agravante, investidos de prebendas burocráticas que se por um lado os transforma em representantes do Estado no momento do exercício de suas atividades, por outro lado não lhes permite que utilizem-se da própria posição que ocupam para extravasar um tipo de poder que, para o próprio bem da sociedade em geral, sem essa distinção hipócrita e moralista que define com base em preceitos sociocentristas quem é e quem não é cidadão de bem, não deveria lhes ser outorgado.
Infelizmente, ações como essas que ocorreram em Belém, que fogem da legalidade e são prenhes de uma discrição corrompida, demonstram que seus realizadores estão revestidos de uma crença de que estão acima da lei, do bem e do mal, e que por isso podem ser os julgadores e executores de um tipo de sentença, que se constitui em sentença de morte, um tipo de sentença que se não tem existência legal no Brasil, acaba por existir de forma "real", basta olhar um pouco mais com acuidade para a realidade das nossas periferias. Mais infelicidade é ver que tais ações ganham ecos de defesa por parte da população, o que se expressa nos embustes de que "bandido bom é bandido morto", "direitos humanos para humanos direitos", etc, quase sempre seguidas da expressão "e quem acha ruim, adota, leva pra casa, etc." ou dos impropérios de "defensor de bandido", "protetor de vagabundo", "quem defende bandido é porque tá se beneficiando de alguma forma", etc. Ou seja, o discurso de quem defende esses tipos de ação como sendo a panaceia para o problema da violência é, ao repetir tais frases como papagaios recalcados, medíocre e acrítico, para ficarmos somente nesses dois adjetivos.
O resultado vocês podem ver no número de pessoas mortas e no medo instalado que esvazia espaços públicos e contribui para aumentar a sensação de insegurança. E, infelizmente, todos nós somos culpados por isso. Esse sangue tá na mão de cada um de nós: de quem pede a redução da maioridade penal achando que ela vai acabar com a violência quando somente vai vitimizar quem é já é vitimizado há anos nesse país, as crianças; de quem pede que mais e mais bandidos sejam mortos e ignora que se o problema da violência não for tratado de uma outra forma "se eu morrer, nasce outro, igual ou pior ou melhor" e mais e mais sangue irá cair sobre a terra, vindo de todos os lugares; e de quem se cala diante disso, seja por medo, seja por comodidade.
Nessa tragédia, não existe inocentes; no máximo, inocentados.

Fora, Temer!