quinta-feira, 17 de março de 2016

O Fascismo, por Luis Britto García

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Hollywood representa o fascismo como bando de mal-encarados em uniformes, que agitam estandartes e gritam palavras de ordem. A realidade é mais perversa. Segundo Franz Leopold Neuman em Behemoth: The Structure & Practice of National Socialism, 1933-1944, o fascismo é a cumplicidade absoluta entre o grande capital e o Estado. Onde os interesses do grande capital passam a ser os da política, anda próximo o fascismo. Não é casual que surja como resposta à Revolução comunista da União Soviética.
2
O fascismo nega a luta de classes, mas é o braço armado do capital nela. Aterroriza à baixa classe média e os excluídos com o pavor à crise econômica, à esquerda e à proletarização, e as enrola como paramilitares para reduzir pela força bruta a socialistas, sindicalistas, trabalhadores e movimentos sociais. Mussolini foi subvencionado pela fábrica de armas Ansaldo e o Serviço Secreto inglês; Hitler financiado pelas indústrias armamentistas do Ruhr; Franco, apoiado por terra-tenentes e industriais; Pinochet pelos Estados Unidos e a oligarquia chilena.
3
A crise econômica, filha do capitalismo, é por sua vez a mãe do fascismo. Apesar de estar no lado vencedor da Primeira Guerra Mundial, Itália sai dela tão destruída que a classe média se arruína e participa massivamente da Marcha sobre Roma de Mussolini. Na eleição de maio de 1924, Hitler obteve somente 6,5% dos votos. Nas de dezembro desse ano, somente 3,0%. Mas, nas eleições de 1928, quando rebenta a grande crise capitalista, obtém 2,6%, em 1930 ganha 18,3%, e em 1932, 37,2%, com o que ascende ao poder e o utiliza para anular os restantes partidos. Mas, o fascismo não remedia a crise: a piora. Durante Mussolini, o custo da vida se triplicou sem nenhuma compensação salarial nem social. Hitler empregou os desempregados na fabricação de armamentos que conduziram à Segunda Guerra Mundial, que devastou a Europa e causou sessenta milhões de mortos. Franco inicia uma Guerra Civil que custa mais de um milhão de mortos e várias décadas de ruína; os fascistas argentinos eliminam uns trinta mil compatriotas; Pinochet assassina uns três mil chilenos. O remédio é tão mal quanto a enfermidade.
4
O fascismo convoca as massas, mas é elitista. Corteja e serve às aristocracias, seus dirigentes vêm de das classes altas e instauram sistemas hierárquicos e autoritários. Charles Maier, historiador, acentuar que até 1927, 75% dos membros do partido fascista italiano vinha da classe média e média baixa; só 15% eram trabalhadores, e 10% procedia das elites, que, sem embargo, ocupavam as altas posições e eram quem definitivamente fixavam seus objetivos e políticas. Hitler estabelece o “Fuhrer-Prinzip”: cada funcionário usa seus subordinados como melhor deseje para alcançar a meta, e presta contas somente ao seu superior. O Caudilho falangista responde somente ante Deus e a História, isto é, perante ninguém.
5
O fascismo é racista. Hitler postulou a superioridade da “raça” ariana, Mussolini arrasou com líbios e abissínios, e planejou o sacrifício de meio milhão de eslavos “bárbaros e inferiores” a favor de 50.000 italianos superiores. O fascismo sacrifica os povos ou culturas que despreza em troca de atingir seus objetivos. Os falangistas ocuparam Espanha com tropas mouras de Melilla. Alber Speer, o ministro de Indústrias de Hitler, estendeu a Segunda Guerra Mundial de dois a três anos mais com a produção armamentista ativada por três milhões de escravos de raças “inferiores”.
6
Fascismo e capitalismo têm rostos aborrecíveis que necessitam máscaras. Os fascistas copiam consignas e programas revolucionários. Mussolini se dizia socialista, o nazismo usurpou o nome de socialismo e se proclamava partido trabalhista (Arbeite); em seu programa, sustentava que não se devia tolerar outra renda que não a do trabalho. Por sua falta de criatividade, roubam os símbolos de movimentos de signo oposto. Os estandartes vermelhos comunistas e a cruz gamada, símbolo solar que no Oriente representa a vida e a boa fortuna, foram confiscados pelos nazistas para seu culto da morte.
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O fascismo é beato. O padres apoiaram aos falangistas que saiam a matar próximos e fuzilar poetas. O Papa bendisse as tropas que Mussolini mandou à guerra; nunca denunciou os atropelos de Hitler. Franco e Pinochet foram idolatrados pela Igreja.
8
O fascismo é misógino. A missão das mulheres se resume em Kirche, Kuchen, Kinder, isto é, igreja, cozinha, filhos. Nunca figurou publicamente uma companheira ao lado de seus líderes; quem as tiveram, as escondiam ou relegaram minuciosamente. Nunca aceitaram que uma mulher ascendera por próprio mérito ou iniciativa. Hitler as encerrou em estabelecimentos de criação para parir arianos; Mussolini lhes designou o papel de ventres para incrementar a demografia italiana; Franco e Pinochet as confinaram na igreja e na sala de partos.
9

O fascismo é anti-intelectual. Todas as vanguardas do século passado foram progressistas: a relatividade, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o construtivismo, o cubismo, o existencialismo, a nova figuração. A todas, salvo ao futurismo, tratou como “Arte Degenerada”. O fascismo não inventa, recicla. Somente acredita no ontem, um ontem imaginário que nunca existiu. O fascismo assassinou Matteotti, encarcerou Gramsci, fuzilou García Lorca e provocou a morte de José Hernández no cárcere. Pinochet assassinou Víctor Jara. Quando ouço falar de cultura, saco minha pistola, dizia Goering. Quando ouçamos falar de fascismo, saquemos nossa cultura.

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Com farinha e sem açúcar,


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Arenas públicas & vida associativa: perspectivas de abordagem

Em novembro de 2015, o Grupo de Pesquisa Estado, Territórios, Trabalho e Mercados Globalizados (GETTAM) organizou, com o apoio do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido da Universidade Federal do Pará (PPGDSTU/NAEA/UFPA), o Seminário Internacional América Latina: política e conflitos contemporâneos – SIALAT 2015. O evento, de acordo com sua organização, objetivava "[...] criar um espaço de reflexão, e de interpretação, sobre as transformações que vem ocorrendo em diferentes países da América Latina em função de avanço dos interesses de mercado sobre os territórios ocupados e seus recursos naturais, evidenciando o crescimento de conflitos e de lutas sociais".
Participei dessa contribuição para ampliar o debate e a compreensão sobre as transformações e os conflitos ocorrentes na Pan-Amazônia e América  Latina, assistindo algumas de suas conferências e mesas redondas, e apresentando o trabalho a seguir em uma das sessões do Grupo de Trabalho 08 - Pensamento social na Pan-Amazônia e imaginário latino-americano.


Em caso de citações, recomendo o uso da seguinte referência:

FERREIRA JÚNIOR, A. Arenas públicas & vida associativa: perspectivas de abordagem. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL AMÉRICA LATINA: políticas e conflitos contemporâneos, I, 2015, Belém. Anais... Organização de Edna Maria Ramos de Castro et al. Belém:  GETTAM - NAEA - UFPA, 2015. p. 1665-1676. Disponível em: <http://produtoracolaborativa.com.br/sialat2015/wp-content/uploads/2015/12/SEMINARIO-SIALAT.pdf>.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O ringue sociológico

Para o filósofo e sociólogo francês Pierre Félix Bourdieu (1930-2002), "não há democracia efetiva sem um verdadeiro contra-poder crítico". Esta afirmativa, que pincei de um texto de Thomas Ferenczi publicado originalmente no jornal francês Le Monde dois dias após o falecimento de Bourdieu, que também era articulista do jornal, pode ilustrar bem como o professor do Collège de France percebia a ideia do intelectual crítico e sua importância para a sociedade.
Frequentemente referindo-se à sociologia como um esporte de combate, espaço para luta e conflito, o que reflete sua concepção teórica de campo social, não se pode negar que Bourdieu, em que pese as críticas que possam (e devem) ser feitas à sua obra, foi um intelectual de combate, engajado social e politicamente, e seu sucesso nos meios acadêmicos – há quem diga que ele é o autor mais citado em todo o mundo , pode ter grande correlação com essa concepção das ciências, em especial a social, da qual extraía táticas de ocupação de lugares de fala e de elaboração de programas de pesquisa e de publicações.
Inspirado nesta concepção, o cineasta francês Pierre Carles acompanhou Bourdieu durante três anos (1998-2001), filmando-o em entrevistas para rádio e TV, palestras, manifestações, etc., com o objetivo de compreender suas posições teóricas e o processo de criação de sua "revolução simbólica" e de sua forma de desmascarar a realidade social, isto é, de apresentar os meios de produção desses processos de crença, denegação e ilusão que os poderes constituídos costumam produzir. Daí surge o documentário A sociologia é um esporte de combate (La sociologie est un sport de combat, no original), lançado em 2 de maio de 2001, que vocês podem assistir abaixo, via o canal de vídeos do cardgame Lutas Simbólicas, cuja base referencial é a obra do filósofo e sociólogo francês.

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: The Yellow House (The Street)

The Yellow House (The Street), 1888, Vincent van Gogh (1853-1890)

"É uma coisa admirável olhar um objeto e achá-lo belo, pensar nele, retê-lo, e dizer em seguida: vou desenhá-lo, e trabalhar então até que ele esteja reproduzido.
Naturalmente, contudo, esta não é uma razão para que eu me sinta satisfeito com minha obra a ponto de acreditar que não precisaria melhorá-la. Mas o caminho para fazer melhor mais tarde é fazer hoje tão bem quanto possível, e então naturalmente haverá progresso amanhã".
(Vincent van Gogh, Haia, abril de 1882)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O artesanato de miriti e os espaços públicos da cidade de Belém (capítulo de livro)

Amanhã (12/01), Belém, capital do Pará, completará 400 anos da construção de um forte às margens da Baía do Guajará, acontecimento tido como o marco temporal da fundação da cidade e que por isso define seu aniversário. É uma data redonda que, como tal, tem levado a diversas programações (oficiais, oficiosas e alternativas) de comemoração e/ou reflexão crítica sobre a cidade. Por enquanto, não entrarei no mérito de discutir a qualidade, a quantidade e a intencionalidade dessas programações, atitude necessária, vale ressaltar, que vem sendo tomada por diversas pessoas nestes tempos - por algumas, desde tempos antes deste -, com as quais entro em acordo em diversos pontos. Deixo para outro momento a expressão de uma reflexão um pouco mais profunda sobre o tema, talvez colocando-a aqui neste espaço, mas com certeza levando-a para a rua, onde deve estar todo o pensamento que se pretende crítico (não compreendo os intelectuais críticos que supostamente desejam forjar contra-poderes que temem elas, as ruas, que, como eu lhes disse outrora, são mães de toda a Sabedoria).
Portanto, hoje, acho importante destacar o óbvio: Belém não é vivida, concebida e percebida somente por quem é belenense ou nela vive, e por isso não há impedimento para uma ligação íntima com a cidade dessas muitas pessoas que não vivem cotidianamente Belém, e igualmente não há impedimento para a contribuição dessas pessoas para que Belém seja Belém, principalmente uma Belém melhor. Por isso, deixo abaixo um texto que fala sobre um grupo social que vive nossa cidade um pouco mais de longe, do ponto de vista físico, do que nós, que aqui moramos, mas que nutre afetos por Belém, e de como ocorre a produção social de alguns espaços públicos desta cidade durante a festa do Círio; tais espaços têm em comum o fato de serem locais para onde fluem essas pessoas, conhecidas como artesãs e artesãos de miriti de Abaetetuba, cidade distante cerca de 70 km da capital, que presenteiam anualmente a cidade com um dos principais símbolos de sua principal festa, os Brinquedos de Miriti de Abaetetuba, que são uma festa do olhar, como já disse o poeta J. J. Paes Loureiro, dentro da festa da Naza.




Sobre o texto: Este é o quinto capítulo do livro Sociedade, campo social e espaço público, organizado pelos professores Edna Maria Ramos de Castro e Silvio Lima Figueiredo e publicado pela editora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), inaugurando a série "Desenvolvimento e sustentabilidade".
No livro constam trabalhos de pesquisa de professores e discentes do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU), do NAEA, elaborados numa perspectiva interdisciplinar com contribuições teóricas e metodologias trazidas por disciplinas da grande área de humanidades, dividindo-se em três partes: (1) estudos sobre transformações sociais, econômicas e territoriais; (2) artigos que tratam da área da comunicação e informação sob várias perspectivas e recortes temáticos; e (3) discussões de questões relativas à desigualdade social, políticas públicas e modelos de gerenciamento de bens e recursos públicos.
Localizado na primeira parte do livro, este capítulo demonstra a produção dos espaços usados pelos chamados artesãos de miriti de Abaetetuba durante os festejos do Círio de Nazaré, que ocorrem anualmente no mês de outubro, em Belém, capital do Pará, apresentando as diferenças entre esses espaços da cidade e suas consequências para os artesãos.


Em caso de citações, recomendo o uso da seguinte referência:
FERREIRA JÚNIOR, A.; FIGUEIREDO, S. L. O artesanato de miriti e os espaços públicos da cidade de Belém. In: CASTRO, E. M. R.; FIGUEIREDO, S. L. (Org.). Sociedade, campo social e espaço público. Belém: NAEA, 2014. p. 74-88.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Wheat Field with the Alpilles Foothills in the Background

Wheat Field with the Alpilles Foothills in the Background, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890)
"E é a consciência de que nada (exceto a doença) pode me arrancar esta força que começa agora a se desenvolver, é esta consciência que faz com que eu encare o futuro com coragem, e que no presente eu possa suportar muitos dissabores".
(Vincent van Gogh, Haia, abril de 1882)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A importância da literatura para a mulher e o homem de cultura universitária (e não somente para eles)


Considero o ato de ler uma de minhas necessidades atávicas, ademais de ser também um prazer espontâneo, exercido não importa o lugar ou o horário. Por conta disso, tenho sempre buscado enriquecer meus escritos acadêmicos com aquilo que a literatura me proporciona. E me é prazeroso perceber que posso entender o conceito bourdiesiano de habitus ou refletir sobre paisagem por meio de Guimarães Rosa; constatar o sufoco labiríntico que a burocracia nos impõe através de uma leitura de Kafka; enxergar a ideia de incesto que Marcel Mauss nos legou ou uma complexa narrativa sobre a dominação masculina em García Márquez; ou discutir alteridade por meio de William Ospina, dentre tantas outras possibilidades. E a contribuição literária não se restringe a um patamar meramente ilustrativo, podendo contribuir para a própria definição da abordagem que direcionará um estudo. Neste caso, Borges e Allan Poe, para ficar somente nesses dois exemplos, têm muito a nos ensinar sobre rigor metodológico, arbitrariedade em análises e classificações, e sobre técnicas de coleta de dados.
No entanto, e em especial em determinadas áreas de estudo, o recurso à literatura é desdenhado. Importo-me com isso, mas não deixo-o definir minha relação acadêmica com a literatura, e por isso não reconheço nada além de litania em tal tipo de desdém. Dito de outro forma, desdenho desse desdém e confio que ser leitor, no sentido pleno da palavra, faz parte do processo de formação e suscita profundidade reflexiva.
Por cultivar esta crença, estabeleci uma sorte de conduta permanente que consiste em indicar logo na primeira reunião que estabeleço com um(a) orientado(a) pelo menos um texto literário, mesmo que curto, sendo normalmente os de Borges, e o breve artigo que compartilho abaixo com vocês, de Maurício Tragtenberg (1929-1998), um dos autores mais queridos desta casa, e que trata justamente sobre a importância da literatura para homens e mulheres de cultura universitária. Aproveitem-no, e sigam lendo! ;)

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A importância da literatura para o homem de cultura universitária, qualquer que seja sua especialização*, por MaurícioTragtenberg

(licenciado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
Universidade de São Paulo - USP)

*Trabalho premiado – prêmio Graciliano Ramos – no concurso de literatura
para os universitários do país, instituído pelo Ministério de Educação e Cultura e pela revista O Cruzeiro, conforme sua publicação de 2-1-60.

A mensagem literária dirige-se hoje para um homem que vive numa época de especialização, que exige o culto às ciências naturais como o único digno de si. Partindo dessa premissa, uma evidência nos aponta: encontramos médicos, engenheiros e advogados, mas não o “homem” inserido nessas profissões. Essa especialização diferencia-os do resto da humanidade. Submergidos em suas atividades estes não têm oportunidade para serem no meio dos homens, “iguais entre iguais”.

A especialização é o signo de nossa época. O gigantesco desenvolvimento do conhecimento nas ciências naturais, a centralização de esforços dos Institutos Universitários em torno das pesquisas físicas longe de prescindirem de um sentido humano à sua atividade, colocam-no com mais dramaticidade.

É o espantoso desenvolvimento das ciências naturais que revela o fato do homem achar-se num período de transição. Os velhos valores fenecem e os novos não foram ainda encontrados. Esse vácuo é preenchido pela incerteza do homem quanto ao seu destino [1].

Numa época de especialização [2], a literatura define os ideais de um período de crise e transição. Daí toda grande obra literária ser de um período de transição (veja-se a importância da mensagem de Dante, Dostoievski ou Kafka).

Pois é nesses períodos que se põe dramaticamente ao homem essa interrogação: qual o sentido de sua vida, qual a significação do mundo que o cerca?

O médico, engenheiro, advogado, encarnam especializações necessárias ao exercício de suas atividades, mas têm em comum, um atributo, o de serem humanos e o de enfrentarem idênticos problemas numa sociedade em transição.

Somos filhos de uma sociedade individualista e liberal e caminhamos para um outro tipo de sociedade planificada. Como dar-se-á tal mudança? Quais os agentes desse processo? Não o sabemos. O que sabemos é que assistimos a um espetáculo de crise, de transição, onde os velhos quadros sociais desaparecem e os novos ainda não se estruturaram.

A literatura é uma forma de resposta a essa interrogação. Ela, pelos escritos de Homero, transmitia-nos uma mensagem corporificando um tipo de homem: o cavaleiro e o nobre; pela pena de Hesíodo, transmitia-nos uma ética do trabalho e sua dignificação como sentido da vida [3]. Os escritos de Joyce, Kafka e Faulkner, constituem uma mensagem adequada aos tempos novos: as formas clássicas do romance estão fenecendo; cabe ao homem descobrir uma nova linguagem para exprimir novas experiências de uma nova vida [4].

De todas as formas de arte a literatura é a mais próxima da vida e a mais sintética, pois reúne a arquitetura, quando no processo de composição do romance, a música, na estrutura melódica da frase, a pintura, no traçar o caráter dos personagens, a filosofia, ao definir seus ideais de vida. Daí sua importância para a cultura.

Sendo ela acessível aos diferentes especialistas, poderá formular novas formas de ação ética e padrões morais. Como um sismógrafo poderá ela captar o sentido interno da mudança que se opera no mundo. Para tal, conta com a intuição artística, que faz com que as mudanças sejam pressentidas antes pelos seus possuidores, passando depois aos campos sistemáticos do conhecimento.

A transição do século XIX e XX foi assinalada, em primeiro lugar, pelos impressionistas, pelo naturalismo literário e posteriormente pelos teóricos de política, economia e filosofia.

A literatura pertencendo a um dos campos assistemáticos do conhecimento tem esse poder. Pode auscultar as mudanças que se operam no mundo e pela imaginação de seus grandes nomes, definir ao homem comum, novos caminhos.

Se não conseguir formulá-los com nitidez, pelo menos servirá como testemunho de uma época. A época que produz Camus, Kafka e Faulkner [5], já escolheu seu destino: eles testemunham por ela.

Na época moderna à literatura cabe um papel integrador. O papel de superar o abismo existente entre a arte e a vida, arte e ciência, na medida em que ela mesma é concebida como uma forma de conhecimento dessa totalidade, que é o homem.

Cabe ao escritor viver plenamente sua época, pois só atinge a grandeza, aquele que sentiu seu próprio tempo. Este é o segredo da universalidade de um Goethe, Balzac ou Cervantes.

Nessa tentativa de traçar com lucidez os quadros do mundo, onde se desenrola o drama humano, num período de transição, é que a literatura deixará de ser o “sorriso da sociedade”, para ser testemunho de uma época, uma mensagem acessível a todos, que permitia ao homem independente de sua especialidade sentir-se junto ao seu semelhante, como “igual entre iguais”, cumprindo um sábio preceito chinês.

Se as profissões diferenciam o homem, cabe à arte uni-lo em torno de ideais comuns. Isso ela pode fazê-lo, pois sua linguagem é universal e a condição humana idêntica em toda a face da terra.

NOTAS:
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[1] - A respeito da incerteza do homem quanto ao seu destino individual, num mundo em mudança, existe uma vasta bibliografia, cujos pontos de vista mais relevantes aparecem expostos em:
S. Freud – Civilisation and its discontents. Londres, 1930.
J. Ortega y Gasset – La rebelión de las massas. Madri, 1930.
Huizinga – Entre las sombras Del mañana. Madri, 1936.
Niebuhr – Moral and imoral society. A study in ethics and politics. Nova York, 1932.
Os trabalhos acima estão pautados por uma visão romântica e pessimista ante os problemas da técnica numa sociedade de massas e suas repercussões morais, políticas e econômicas.
Uma posição mais construtiva e realista em relação aos mesmos fenômenos se encontrará em:
Karl Mannheim – Libertad y Planificacion Social. México, 1946.
Karen Horney – The neurotic personality of our time. Londres, 1937.
Erich Fromm – Psicanálise da sociedade contemporânea. São Paulo, 1959.
[2] - A respeito da tendência irrecorrível de nossa civilização à especialização, veja-se Gerth e Mills – “From Max Weber”, cap. Science as vocation. Londres, 1955.
[3] - Sobre a importância da literatura como “formação do homem” em Homero e Hesíodo, veja-se, Werner Jaeger – Paidéia – I Volume,\ págs. 53-93. México, 1955.
[4] - O “tipo ideal” de romance construído arquitetonicamente é o de Balzac. “La Commedie Humaine” representa o ideal linear do romance do século XIX. Com “Lês Faux Monnayeurs” de A. Gide, este esquema de desenvolvimento linear da ação do romance deixa lugar à simultaneidade das ações. Esta ruptura com a construção tradicional de romance é salientada por Claude Edmonde-Magny quando escreve: “en écrivant “Les Faux Monnayeurs”, ce modèle de “sur-roman”, Gide refuse la conception traditionelle du genre, avec une vigueur, à peine moins grande, que celle de son ami Paul Ambroise” in “Histoire du roman français depuis de 1918, pág. 229.” Paris, 1950. Joyce representa uma nova experiência construtiva utilizando um tema clássico. Diferentemente dos modernos, é introspectivo. O monólogo interior é a razão de Dédalo, é uma forma de existência. Joyce lançou essa técnica já descoberta anteriormente por um francês, Edouard Dejardin. Antes de Joyce, já o inglês Stephen Hudson dele já fazia uso. Até o nosso semiconhecido Adelino Magalhães já o usava.
[5] - Em Faulkner o diálogo não é uma relação entre duas consciências, é uma relação com vistas à ação. Ele não exclui inteiramente o monólogo, como por exemplo em “Tandis que j’agonise”. Nota Claude Edmonde Magny, que “chez Faulkner l’analyse intérieure alterne perpetuellement avec l’énoncé des comportements” in L’Age du roman americain, pág. 50. Paris, 1948. No entanto, sua obra, como a de Hemingway, Dos Passos e Caudwel estrutura-se sob modelos behaivoristas inspirados na técnica do cinema norte-americano. A respeito das influências do cinema no romance americano e francês após-guerra, veja-se as pertinentes observações de Magny, ob. cit., pág. 11.

Fora, Temer!