quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Mixando Sérgio Vaz ou "Feliz aniversário, otário, vivi nos anos 90"

O texto a seguir é resultado da fusão de dois textos de autoria do Poeta Sérgio Vaz (Paz na periferia e Antes que seja tarde). Seu título remete a isso e a uma música de Black Alien cuja letra demonstra bem que, em muitos aspectos, os anos 90 estão de volta, como Sérgio Vaz coloca em seu texto, ou nunca se foram, como eu prefiro considerar. Deixou-se as palavras do poeta como foram encontradas nos textos de referência, e as inserções feitas estão colocadas entre [ ]. Duas exclusões foram feitas, para adequar o texto com a minha trajetória de vida, e estão assinaladas com as palavras tachadas. Assino ao final somente para deixar claro que a responsabilidade pela fusão realizada é inteiramente minha, e também que concordo com o teor nela exposto.

Poeta Sérgio Vaz (foto retirada do Facebook do escritor)

***

Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver.
Não que o mundo dependa só de mim para ser melhor, mas se o medo não fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a humanidade. Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.
Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas, nos assustam nos semáforos com armas na mão, nos pedem esmolas amontoadas em escolas que não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa subjugar a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é quase nada disso tudo.
Sou um covarde diante da violência contra a mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50.000 deles arrancados à bala do nosso pacífico planeta. Que dizer da violência contra os homossexuais que são apedrejados nas calçadas das avenida elegantes?
Se homicídio fosse esporte olímpico, São Paulo [Belém, Marabá, Santarém ou Abaetetuba...] ganharia[m] medalha de ouro. Mas como não é, ficamos nós com as medalhas de sangue e de lágrimas. E pra mim, nenhuma vida vale mais do que a outra, porque quem morre, deixa mais do que saudade, deixa família, filhos, lembranças... O homicídio é um crime extremamente deselegante.
É assustador tudo que está acontecendo na periferia paulistana [belenense, marabaense, santarena, abaetetubense...], é como se voltássemos ao final dos anos 80 e início dos anos 90, onde todos tínhamos medo de sairmos às ruas e sermos executados pelo simples fato de existirmos.
Pois é, esses dias estão de volta. O medo e a morte tomou conta das ruas.
A chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem.
E se [eu] tivesse mais fé na minha humanidade de maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro, mas sou tão covarde que nem religião tenho, e minhas mãos que não rezam, já que estão abertas, poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam todas elas, mas eu que não tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de produzir esse milagre. De repartir o pão.
E porque os índios estão tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu coração, não me importo que lhe tirem suas terras, sua alma, seus rios, e analfabeto de solidariedade não sei ler sinais de fumaça, eles fazendo guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se tivesse um nome indígena seria cachorro medroso.
Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por aí, não concordaria em aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando em busca de terra, ou morando em barracos de madeiras indignas pendurada nos morros, ou na beira de córregos. Não nasci na favela, mas [por isso] meu coração é de madeira, fraco.
A lei condena um homem comum que rouba outro homem comum e o enterra na masmorra moderna, mas nada faz contra aquele político corrupto que rouba milhares de pessoas apenas com uma caneta, ou duas, e que de quatro em quatro anos a gente aperta-lhes a mão, quando na verdade devíamos cuspir-lhes na cara. E eu como um juiz sem martelo não faço nada além de condená-lo ao meu não voto. É pouco, já que sei onde eles se entocam. A lei é cega, mas acho que lhe fizeram transplante de órgãos numa dessas votações secretas.
Não vejo outra forma de combater o crime, que não a educação pública de qualidade. Nós abandonamos as crianças, os professores e o ensino público, agora estamos com o cu na mão com medo dos adultos.
As Escolas públicas estão parecendo privadas, e só agora essa sociedade hipócrita está sentindo o cheiro, através desses crimes bárbaros de jovens que sangram nas calçadas quando deviam estarem suando nos bancos das universidades. Ah!, é contra as cotas raciais, né? Se quiserem podemos reservar uma cota de violência pra vocês. É, essa violência que vocês vem nos jornais, e nós, ao abrirmos as janelas... e desde sempre.
Assisto a falência da educação e o massacre contra os professores e sei que muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança máxima, fico em silêncio quando a multidão desinformada pede redução da maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos nossas crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12, depois, não teremos mais crianças nas ruas. E elas, as ruas, serão tão seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os brinquedos serão visitados nos museus.
As pessoas pedem a redução da maioridade penal, eu quero o aumento da maioridade educacional.
Chega de convites para enterros e visita em presídios, quero convite para assistir formaturas.
Podem mandar tanques de guerras, aviões da FAB, invadirem favelas, matarem todos nós nas esquinas escuras da periferia, porque se não investirem na educação, vão ter que continuar matando, matando, matando...porque vocês já sabem quem morre: nós os brasileiros pobres e pretos.
Viver, ainda que doa, é melhor do que deixar saudades, porque nenhuma vida é maior que a outra. Vale tanto para o Elefante como para a formiguinha.
Estão cortando as árvores, cortand as árvore, cortan a árvore, cort árv, co á… madeiraaaaa! E aceito a cara-de-pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado está nas minhas mãos. Depois fico abraçando o lago poluído quando na verdade deveria estar mergulhado nele, assim como os peixes mortos.
Pagos os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é essa tal consciência tranquila que está acabando com o mundo.
Calado assisto a falsa democracia deste país ilegal, sem alvará de funcionamento e sem licença pra ser pátria, e me emociono com o hino nacional cantado antes do jogo da seleção canarinho.
Perdoe-me por apenas ser poeta, e ter apenas poemas como arma, ainda que ninguém me diga, sei que isso é muito pouco, quase nada. O sangue que pulsa na veia tinha que estar nos olhos.
O Mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que tem atitude. Se não posso mudar o mundo deveria [começar] a mudar a mim mesmo.
Acho que é isso que vou fazer agora.
Antes que seja tarde.

No silêncio da noite, um grito. No grito da noite, o silêncio.

Pah! Pah! Pah!

Se puderem, tenham paz.

***
Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Relações de gênero e Brinquedos de Miriti no Simpósio GEPEM/UFPA

A seguir, disponibilizamos o resumo do artigo "Pintando Gênero na bucha: o status da mulher no processo criativo dos Brinquedos de Miriti de Abaetetuba/PA", que será apresentado amanhã (24.09.2014), entre 14h e 16h15, durante a sessão 1 do GT 1 - Gênero, Identidade e Cultura, do Simpósio GEPEM/UFPA: Mulheres, Gênero, Histórias e Saberes em 20 anos. Posteriormente publicaremos aqui no MC o trabalho completo e os slides usados na apresentação.

Mais informações em: Programação, Inscrições, Caderno de Resumos, e Cronograma de apresentações.


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(Foi pra rua? Vem pra urna!)?!

Assistindo às propagandas políticas aqui no Pará, em especial para a única vaga de senador disponível, percebe-se como ainda há um discurso fortemente marcado por uma política de implantar o medo no eleitor e de esvaziamento da participação política em períodos não eleitorais. Não entrarei detalhadamente na elevada desconfiança que tenho sobre todos os candidatos - desde o pretenso exemplo de homem e gestor públicos, Simão Bendayan, que, conhecedor de marketing político que é, e sobre o qual tem obra publicada, adotou o nome político de Simão do PV, passando por todos os outros candidatos, e culminando-se no "trabalhador" Duciomar Costa (sim, se há algo sobre o qual não se pode acusar Dudu é de não ser um "trabalhador", assim mesmo entre aspas, afinal o citado chegou inclusive a exercer a atividade de médico mesmo sem pode-la, e isso, desconfio eu, é prova cabal da sua vontade de "trabalhar para o povo", e não de sua "personalidade  com desvios de padrão de normalidade", seja lá o que isso signifique). Todos estes apresentam-se como representantes do povo, seus defensores. Minha dúvida é a mesma de M. Tragtenberg: quem irá defender o povo deles, no poder?

Bem, mas há que ir-se ao discurso do medo e que demonstra-se como intenção de domesticar o protesto político. Jefferson Lima, com sua demagogia à Wlad, disse uma vez ao pedir votos que o momento era agora e, caso não votassem nele, não adiantaria nada ir reclamar com ele depois (o candidato citado é radialista, e tal posição lhe permite trasvetir-se de defensor dos interesses do povo, principalmente das camadas mais populares, das quais conseguiu o carinho com suas bravatas denuncistas que, no entanto, vê-se que foram mais úteis para o seu projeto político do que para a mitigação das mazelas que destacava).
Helenilson Pontes, vice-governador do candidato à reeleição Simão Jatene (este que desde 2004 figura como acusado em investigação do Ministério Público Federal (MPF) pelo recebimento de propina da empresa Cervejaria Paraense S.A (Cerpasa) em troca de incentivos fiscais e perdão de dívida fazendária), por sua vez, tem uma chamada em que afirma que o Pará corre o risco de escolher o senador errado novamente, o que não deixa de ter um fundo de verdade, afinal, com as opções dadas, as possibilidades de acerto, tanto à esquerda, quanto à direita, são nulas. A chamada continua, também dizendo que depois não adiantaria reclamar.
Mário Couto, para finalizar somente com estes três candidatos, também esbraveja, como é de seu feitio de péssimo ator político, que o Pará não pode escolher candidato impugnado, candidato que envergonhe o estado e ex-mensaleiro, referindo-se claramente ao candidato Paulo Rocha, do PT, mesmo sem nomeá-lo. Mas, não apresenta suas propostas, as quais parecem estar presentes na paráfrase "eu não apresento propostas, mas que as tenho, as tenho", e para esse candidato, da mesma forma que para muitos dos demais, o eleitor deve confiar que ele é a melhor opção somente porque o outro concorrente não é boa opção.
E estes são nossos candidatos, cada vez menos políticos, afinal, para eles só se pode continuar defendendo o que dizem que irão defender(?) se eles ganharem. Assim, a defesa de causas e ideias, ao menos na retórica de suas propagandas, está condicionada à ocupação do cargo eletivo que disputam. Caso percam, não adianta procurá-los, mesmo com eles jactando-se das qualidades de homens públicos que possuem e da dedicação que têm com seu ofício (sic) de político, sempre destinado à defesa do povo. Alguém dúvida de que para eles, mesmos se forem eleitos, também não adianta nada reclamar?

Aí vem o complementar dessa política do medo, que é o discurso frequente, sobretudo quando se está diante de protestos que afetem suas necessidades mais egoísticas, de que a hora de protestar é nas urnas, não podendo ser feito nada antes disso e nem depois, até que se passem quatro anos e o povo seja "autorizado" novamente a apresentar seus pontos de vista políticos. E, para completar, as próprias instituições oficiais reforçam essa ideia. Se analisarmos as propagandas destinadas a sensibilizar o eleitor a ir votar, e isto num contexto de votação obrigatória que ainda e infelizmente se mantém, fica clara tal postura. Ali apresenta-se essa ideia de que o lugar de protesto por excelência é na urna e que mesmo nesse contexto de desigualdade na detenção dos diversos tipos de capital existentes - como pode ser exemplificado com os contextos de informações oligopolizadas por mídias hegemônicas (vide a polaridade ORM/Maiorana/PSDB e RBA/Barbalho/PMDB-PT aqui no Pará, onde os dois grupos igualam-se nas mentiras e nas verdades que trocam entre si) que fazem com que os eleitores, de forma bem geral, não tenhamos as melhores condições de escolha do voto, esta prática a nós imputada de maneira quase desumana -, parece ser em nós que reside a responsabilidade final sobre os atos de corrupção.
 É a mesma lógica de outros discursos conservadores e reacionários: "bem feito ter sido assaltado. Quem mandou ficar zanzando por aí na rua?!", "mas se vestir assim, minha filha, é pedir para ser estuprada", "acho precipitação ter se manifestado contra: quanto mais se falar, mas vai ter racismo", etc. Ao que parece, se não fosse tão somente pela conduta do assaltado, da estuprada, do negro, e do eleitor, não teríamos roubos, estupros, racismo e nem corrupção no Brasil. 
Esta é a crença basilar da democracia representativa que adotamos, que urge por uma revisão e por uma democratização. Defende-se a ideia de que todos os setores da sociedade estão ali representados, mas esquece-se da ilusão que representa este dito pacto social, posto em cada agente haver um peso que lhe é próprio e que faz com que não existam condições equitativas de representatividade e de acesso às arenas públicas onde os embates políticos se dão. E aquelas arenas públicas mais próximas de nós nos são ora negadas, ora esvanecidas com esse discurso de que o protesto só pode ocorrer na urna e que depois da eleição não adianta reclamar, pois toda a sujeira feita por quem foi eleito é culpa nossa, que, envergonhados como na propaganda da Justiça Eleitoral, só poderemos mudar o quadro nas próximas eleições. E assim se vê que a atual política brasileira vira a obra de More do avesso.

Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).

Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie.

P.S: Não estou tentando dizer que não há uma responsabilidade imputada no ato de votar. Pelo contrário, acredito que na conjuntura política que nos é contemporânea, tal ato beira a desumanidade tamanha a sua responsabilidade. O que se refere aqui é que a responsabilidade política, isto é, a congruência entre retórica e ação, deve estar presente não somente nesse momento, mas em todos aqueles que se apresentarem e que se vislumbrem como oportunos e necessários para os que ali desenvolverão esta ação impura por si mesma que é a ação política. Também digo que os dois discursos apresentados em lugar de gerarem uma conscientização do eleitorado, distanciam cada vez mais dele uma participação política espontânea e livre. É lógico que há muito mais por trás do que apresentei, e inclusive no que apresentei, afinal, como disse Castoriadis, o que existe por trás das aparências são outras aparências.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre Luciana Genro e o êxito do capitalismo

Eis a tragédia. Desfrute-a. Ou não.



Analisando puramente a retórica, Luciana Genro sempre eleva o nível dos debates e das entrevistas das quais participa, mesmo quando tais entrevistas têm como leitmotiv, no sentido que a dramaturgia dá a esse termo, tomar entrevistado e espectador por imbecis.
Nessa entrevista em particular, no entanto, discordo de um ponto levantado pela candidata: de que o capitalismo falhou em todos os confins e circunvizinhanças do planeta onde instalou-se.
Pelo contrário: se levarmos em consideração a essência própria desse sistema econômico, resumida por Robert Gilpin como a criação congênita e necessária para sua reprodução de ganhadores e perdedores, e acrescida, dentre tantos outros elementos, da pregação e da assunção com pouca criticidade de que a meritocracia pretensamente corrigiria os efeitos de lógica tão nefasta, o capitalismo - e isso é duro de reconhecer - obteve êxito. Mas - e enfatizo este porém -, obteve êxito pura e estritamente nos termos que lhe são próprios: exploração, alienação, exclusão, acumulação, subsunção, etc.
Dessa forma, e estimulado pela utopia concreta que a candidata cita durante a entrevista, permito-me lembrar das palavras proferidas por Don Durito de la Lacandona sobre o neoliberalismo, mistério eucarístico do capitalismo contemporâneo:
"Vocês pensam que o “neoliberalismo” é uma doutrina do capitalismo para enfrentar as crises econômicas que o mesmo capitalismo atribui ao “populismo”. Certo? [...]
- Claro que certo! Bem, resulta que o “neoliberalismo” não é uma teoria para enfrentar ou explicar a crise. É a crise mesma feita teoria e doutrina econômica! É dizer que o “neoliberalismo” não tem a mínima coerência, não tem planos nem perspectiva histórica. Enfim, pura merda teórica."


Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie.

Açaí ou Barbárie

Eis a tragédia:
por Amarildo Ferreira Júnior
Açaí ou Barbárie é/será um espaço para apresentar algumas de minhas reflexões políticas (e algumas não tão minhas, mas com as quais concordo com certa intensidade). Não será um espaço do qual se utilizará com uma frequência determinada, posto que a disciplina em escrever não venha sendo um dos meus fortes, como podem comprovar aqueles que esperam as continuações dos textos sobre a religiosidade na música d'O Rappa.
O nome, Açaí ou Barbárie, explicitamente inspirado na famosa frase de Rosa Luxemburgo e no grupo de pensadores socialistas libertários franceses liderados por Cornelius Castoriadis, demonstra muito sobre o pensamento que buscarei apresentar. É evidente, portanto, que proposições desses pensadores aparecerão aqui ou alhures, quase sempre talvez de forma intrínseca, juntamente com outras correntes de pensamento complementares ou mesmo que divirjam neste ou naquele ponto, tomando-se cuidado para não cair na armadilha da suspensão conciliatória que, fazedora de bricolagens, nega conflitos entre maneiras de pensar que ocupam posições e situações distintas, por mais que próximas, dentro desse campo do pensar político. Assim, figurarão por aqui, dentre outras, proposições como aquelas de pensadores cuja atividade cognitiva se direciona hasta y desde Nuestra América, em especial os zapatistas de Chiapas (já presentes aqui no MC sob a tag  contos zapatistas), e de outros intelectuais caros a este editor, sobretudo o francês Pierre Bourdieu e o brasileiro Maurício Tragtenberg.
Sabe-se do risco que se corre ao adotar essa postura, mas não se teme assumi-la, e espera-se que as críticas que se originem sejam aquelas vestidas para a boa batalha, a única que vale à pena, sobretudo quando é irracional. Não se teme os resultados de tal posicionamento sobretudo porque é de bom tom colocar o pensamento à prova da avaliação secular, e sempre deve-se duvidar daqueles autores cujos pensamentos são construídos com base em um único teórico.
Abre-se aqui, portanto, um espaço que vem desde baixo e se dirige para a esquerda. Desfrute-o. Ou não.


Com farinha e sem açúcar,

Açaí ou Barbárie.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Gamin au Képi

Gamin au Képi, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890)

"Espere, talvez algum dia você verá que eu também sou um trabalhador, e embora eu não saiba de antemão o que me será possível, espero ainda fazer alguns rabiscos onde poderia haver algo de humano. [...] O caminho é estreito, a porta é estreita, são poucos os que a encontram".
 (Vincent van Gogh, Cuesmes, 20 de agosto de 1880)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

"Don Durito de la Lacandona mirou seu escudeiro e disse...": o neoliberalismo visto desde a Selva Lacandona¹



Em 9 de fevereiro de 1995, o governo de Ernesto Zedillo iniciou uma incursão em território zapatista, tentando deter os dirigentes do EZLN. Os zapatistas se retraíram à montanha e evitaram a confrontação direta. É neste contexto, o de "retraimento", no qual o Sub Marcos volta a encontrar-se com Durito e juntos começam a buscar as razões do que estava ocorrendo.


Foi o décimo dia, já com menos pressão. Afastei-me um pouco para por meu abrigo e instalar-me. Eu ia olhando para cima, buscando um bom par de árvores que não tivessem galho em cima. Por isso me surpreendi quando escutei, a meus pés, uma voz que gritou: “Hey, cuidado!”.
Não vi nada ao princípio, mas me detive e esperei. Quase imediatamente se iniciou a mover uma folhinha e, debaixo dela, saiu um besouro que começou a reclamar:
- Por que não olha onde põe suas bototas? Estive a ponto de ser esmagado! - gritou.
Esse resmungo me era conhecido.
- Durito? - aventurei.
- Nabucodonosor para você! Não seja confiado! - contestou indignado o pequeno besouro.
Já não me restou dúvida.
- Durito! Já não se lembras de mim?
Durito, quero dizer, Nabucodonosor, ficou me olhando pensativo. Sacou um pequeno cachimbo de dentro de suas asas, o encheu de tabaco, acendeu e, depois de um trago grande que lhe arrancou uma tosse nada saudável, disse:
- Mmmmh, mmmh.
E logo repetiu:
- Mmmh, mmmh.
Eu sabia que isso ia tardar, por isso me sentei. Depois de vários “mmmh, mmh”, Nabucodonosor, ou seja, Durito, exclamou:
- Capitão?
- Simplesmente eu! - disse, satisfeito de ver-me reconhecido.
Durito (creio que, depois de ser reconhecido, podia chamá-lo de novo assim) começou uma série de movimentos de patas e asas que, em linguagem corporal dos besouros, vem sendo como uma dança da alegria e que a mim sempre me pareceu uma espécie de ataque de epilepsia. Depois de repetir várias vezes, com ênfases distintas, “Capitão!”, Durito se deteve ao fim e me lançou a pergunta que tanto temia:
- Tens tabaco?
- Bem, eu... - alarguei a resposta para dar-me tempo para calcular minhas reservas.
Nisso chegou Camilo e me perguntou:
- Me chamaste, Sub?
- Não, nada... Estava eu cantando e... e não te preocupes, podes ir – respondi com nervosismo.
- Ah, bom - disse Camilo e se retirou.
- Sub? - perguntou desconfiado Durito.
- Sim - lhe disse - Agora sou subcomandante.
- E isso é melhor ou pior que Capitão? - insistiu Durito.
- Pior - lhe disse e me disse.
Mudei rapidamente de tema e lhe estendi a bolsa de tabaco dizendo:
- Aqui trago um pouco.
Para receber o tabaco, Durito realizou novamente sua dança, agora repetindo “obrigado!” uma e outra vez.
Passada a euforia tabaqueira, iniciamos a complicada cerimônia de acender o cachimbo. Eu me recostei sobre a mochila e fiquei olhando Durito.
- Estás igual - lhe disse.
- Tu, por outro lado, te vês bastante maltratado - me respondeu.
- É a vida - disse tirando-lhe a importância.
Durito começou com seus “mmmh, mmh”. Depois de um tempo, me disse:
- E o quê te traz por aqui depois de tantos anos?
- Bem, estive pensando e, como não tinha nada para fazer, me disse por que não dar uma volta pelos velhos lugares e assim saudar aos amigos velhos - respondi.
- Velhas as colinas e ainda assim enverdecem! - reclamou indignado Durito.
Depois seguiu outro período de “mmmh, mmmh” e de suas miradas inquisitivas.
Eu não pude mais e lhe confessei:
- A verdade é que nos estamos retirando porque o governo lançou uma ofensiva contra a gente...
- Correste! - disse Durito.
Eu tratei de lhe explicar o que é um retraimento estratégico, uma retirada tática, e o que se me ocorreu nesse momento.
- Correste - disse Durito, agora com um suspiro.
- Bom, sim, corri, e quê? - disse irritado, mais comigo mesmo que com ele.
Durito não insistiu. Ficou calado por um bom tempo. Só o fumo dos dois cachimbos estendia sua ponte. Minutos depois disse:
- Parece que há algo mais que te incomoda, e não só isso da “retirada estratégica”.
- “Retraimento2”, “retraimento estratégico” - lhe corrigi.
Durito esperou que eu continuasse:
- A verdade é que me irrita que não estávamos preparados. E não estávamos preparados por minha culpa. Eu cri que o governo sim queria o diálogo e então havia dado a ordem de que começassem as consultas para os delegados. Quando nos atacaram, estávamos discutindo as condições do diálogo. Surpreenderam-nos. Surpreenderam-me... - disse com pena e coragem.
Durito seguia fumando, esperou que eu terminasse de lhe contar todo o ocorrido nos últimos dez dias. Quando terminei, Durito disse:
- Espera-me.
E se meteu debaixo de uma folhinha. Pouco tempo depois, saiu empurrando sua pequena mesa. Depois foi por uma cadeirinha, se sentou, sacou uns papeis e os começou a revisar com ar preocupado.
- Mmmh, mmh - dizia a cada tanto de papeis que lia. Depois de um tempo exclamou:
- Aqui está!
- Aqui está que coisa? - perguntei intrigado.
- Não me interrompas! – Durito disse sério e solene. E agregou:
- Preste atenção. Teu problema é o mesmo que muitos têm. Refere-se à doutrina econômica e social conhecida como “neoliberalismo”...
“O que me faltava... agora aulas de economia política”, pensei. Parece que Durito escutou o que pensava porque me repreendeu:
- Sssht! Esta não é uma aula qualquer! É a cátedra por excelência.
A mim me pareceu exagerado isso de “a cátedra por excelência”, mas me dispus a escutá-lo. Durito continuou depois de uns “mmmh, mmmh”.
- É um problema metateórico! Sim, vocês partem de que o “neoliberalismo” é uma doutrina. E por “vocês” me refiro aos que insistem em esquemas rígidos e quadrados como sua cabeça. Vocês pensam que o “neoliberalismo” é uma doutrina do capitalismo para enfrentar as crises econômicas que o mesmo capitalismo atribui ao “populismo”. Certo? Durito não me deixa responder.
- Claro que certo! Bem, resulta que o “neoliberalismo” não é uma teoria para enfrentar ou explicar a crise. É a crise mesma feita teoria e doutrina econômica! É dizer que o “neoliberalismo” não tem a mínima coerência, não tem planos nem perspectiva histórica. Enfim, pura merda teórica.
- Que estranho... Nunca havia escutado ou lido essa interpretação - disse com surpresa.
- Claro! Como que se me acaba de ocorrer neste instante! - disse com orgulho Durito.
- E isso que tem a ver com nossa fuga, perdão, com nosso retraimento? - perguntei duvidando já de tão nova teoria.
- Ah! Ah! Elementar, meu caro Watson Sub! Não há planos, não há perspectivas, só i-m-p-r-o-v-i-s-a-ç-ã-o. O governo não tem constância: um dia somos ricos, outro dia somos pobres, um dia quer a paz, outro dia quer a guerra, um dia jejua, outro dia se lambuza, enfim. Me explico? - me inquire Durito.
- Quase... – eu titubeio e coço a cabeça.
- E então? - pergunto ao ver que Durito não continua com sua dissertação.
- Vai explodir. Pum! Como globo que se infla demasiado. Isso não tem futuro. Vamos ganhar - disse Durito enquanto guarda seus papeis.
- Vamos? - pergunto com malícia.
- Claro que “vamos”! Está visto que não vão poder sem minha ajuda. Não, não pretendas fazer reparos. Necessitam um superassessor. Já estou aprendendo francês, por aquilo da continuidade.
Eu fico calado. Não sei o que é pior: se descobrir que nos governa a improvisação ou imaginar a Durito de supersecretário de gabinete em um improvável governo de transição.
Durito arremete:
- Te surpreendi, eh? Assim que não tenhas vergonha. Enquanto não me esmaguem com suas bototas sempre poderei clarificar-lhes o caminho a seguir no itinerário da história que, apesar das vicissitudes, há de levantar este país, porque unidos... porque unidos... Agora que me lembro: não escrevi à minha velha - Durito solta a gargalhada.
- Pensei que estavas falando sério! - finjo enfado e lhe lanço um pequeno galho. Durito se esquiva e segue rindo.
Já em calma, lhe pergunto:
- E de onde tiraste essas conclusões de que o neoliberalismo é a crise feita doutrina econômica?
- Ah! Deste livro que explica o projeto econômico 1988-1994 de Carlos Salinas de Gortari - responde e me mostra um opúsculo com o logotipo de Solidaridad3.
- Mas Salinas já não é o presidente... parece - digo com uma dúvida que me estremece.
- Já sei, mas veja quem redatou o plano - disse Durito e me assinala um nome. Eu leio:
- “Ernesto Zedillo Ponce de León” - digo surpreendido e agrego:
- De modo que não há ruptura?
- O que há é um covil de ladrões - disse, implacável, Durito.
- E então? - pergunto com verdadeiro interesse.
- Nada, que o sistema político mexicano é como esse galho de árvore que paira em cima de tua cabeça - disse Durito e eu brinco e olho para cima e vejo que, de fato, há um galho que pende ameaçador sobre minha rede. Mudo de lugar enquanto Durito segue falando:
- O sistema político mexicano apenas está preso à realidade com pedaços de ramas muito frágeis. Bastará um bom vento para que venha abaixo. Claro que, ao cair, vai passar a levar outras ramas e cuidado deve ter o que estiver sob sua sombra quando despenque!
- E se não há vento? - pergunto enquanto provo se a rede ficou bem amarrada.
- Haverá... haverá - Durito diz e fica pensativo, como se estivesse olhando para o amanhã.
Os dois ficamos pensativos. Voltamos a acender os cachimbos. O dia começava a marchar-se. Durito ficou observando minhas botas. Temeroso, perguntou:
- E quantos vêm contigo?
- Dois mais, assim que não te preocupes pelos pisões - lhe disse para tranquilizá-lo. Durito pratica a dúvida metódica como disciplina, e seguiu com seus “mmmh, mmmh”, até que soltou:
- Mas os que vêm atrás de ti, quantos são?
- Ah! Esses? Uns sessenta...
Durito não me deixou terminar:
- Sessenta! Sessenta pares de bototas em cima de minha cabeça! 120 botas da Sedena4 buscando a forma de esmagar-me! - gritou histérico.
- Espera-me, não me deixaste terminar. Não são sessenta - disse. Durito novamente interrompeu:
- Ah! Já sabia que não era possível tanta desgraça. Quantos são, pois? Lacônico, respondi:
- Sessenta mil.
- Sessenta mil! – Durito conseguiu dizer antes de sufocar-se com o fumo do cachimbo.
- Sessenta mil! - repetiu várias vezes entrecruzando com angústia suas mãozinhas e patinhas.
- Sessenta mil! - se dizia com desespero.
Eu tratei de consolá-lo. Disse-lhe que não vinham todos juntos, que era uma ofensiva com escalões, que estavam entrando por vários lados, que faltava nos encontrar, que havíamos borrado os rastros para que não nos seguissem, enfim, lhe disse tudo o que me ocorreu.
Pouco depois Durito se tranquilizou e começou de novo com seus “mmmh, mmmh”. Sacou uns papeizinhos que, segundo me dei conta, pareciam mapas e começou a fazer-me perguntas sobre a localização das tropas inimigas. Respondi-lhe o melhor que pude. A cada resposta Durito fazia marcas e anotações nos pequenos mapas. Passou um bom tempo, depois do interrogatório, dizendo “mmmh, mmmh”. Passados uns minutos, e depois de complicados cálculos (digo eu, porque usava todas suas mãozinhas e patinhas para fazer as contas) suspirou:
- O dito: usam “a bigorna e o martelo”, o “laço corrediço”, a “caça do coelho” e a manobra vertical. Elementar, vem no manual de Rangers da Escola das Américas -, se disse e me disse. E agrega:
- Mas temos uma oportunidade de sair bem dessa.
- Ah, sim? E como? - pergunto com ceticismo.
- Com um milagre - Durito diz enquanto guarda seus papeis e se encosta.
O silêncio se acomodou entre os dois e fomos deixando que a tarde chegasse por entre as ramas e bejucos. Mais tarde, quando a noite acabou de desprender-se das árvores e, voando, cobriu o céu, Durito me perguntou:
- Capitão... Capitão... Psst! Estás dormido?
- Não... Que há? - lhe respondi.
Durito pergunta envergonhado, como temendo lastimar.
- E que pensas fazer?
Eu sigo fumando, observo os cachos prateados da lua pendurados nos galhos. Solto uma voluta de fumo e lhe respondo e me respondo:
- Ganhar.

1 Este texto aparece pela primeira vez no Comunicado de 11 de março de 1995 do Ejercito Zapatista de Liberación Nacional (EZLN), com o título de Durito II (El neoliberalismo visto desde la Selva Lacandona). Para escutá-lo ou baixá-lo de forma gratuita, acesse CEDOZ. Para ler sobre o primeiro encontro entre o Subcomandante Marcos e Durito, acesse o conto A história de Durito, parte 1 - dez anos antes.
2 No original o termo utilizado é repliegue. Optou-se nesta tradução em utilizar o termo retraimento com base nas definições dos termos retirada e retraimento apresentadas no Manual de campanha: glossário de termos e expressões para uso no Exército. Dessa forma, o uso do termo retraimento se justifica pelo fato desse termo, segundo adota o Exército Brasileiro, conter em si a ideia de contato com a força inimiga, enquanto retirada, o outro termo que fora cogitado no momento da tradução, é um movimento realizado sem a pressão do inimigo, contexto distinto do apresentado pelo Sub Marcos neste conto.
3Programa Nacional de Solidaridad, iniciado em 1988 durante a presidência de Salinas, destinado ao alcance de maior justiça social no México para além da transferência de recursos ou de subsídios focalizados. O programa seguiu como principal tronco da política social do governo mexicano nas administrações subsequentes com algumas modificações, inclusive em seu nome.
4Secretaría de la Defensa Nacional, órgão que, junto com a Secretaría de Marina, é encarregado da defesa do México e da educação militar.

Fora, Temer!