O texto a seguir é resultado da fusão de dois textos de autoria do Poeta Sérgio Vaz (Paz na periferia e Antes que seja tarde). Seu título remete a isso e a uma música de Black Alien cuja letra demonstra bem que, em muitos aspectos, os anos 90 estão de volta, como Sérgio Vaz coloca em seu texto, ou nunca se foram, como eu prefiro considerar. Deixou-se as palavras do poeta como foram encontradas nos textos de referência, e as inserções feitas estão colocadas entre [ ]. Duas exclusões foram feitas, para adequar o texto com a minha trajetória de vida, e estão assinaladas com as palavras tachadas. Assino ao final somente para deixar claro que a responsabilidade pela fusão realizada é inteiramente minha, e também que concordo com o teor nela exposto.
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Poeta Sérgio Vaz (foto retirada do Facebook do escritor) |
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Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver.
Não que o mundo dependa só de mim para ser melhor, mas se o medo não
fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como
centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a
humanidade. Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido
diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.
Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e
abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas, nos assustam nos
semáforos com armas na mão, nos pedem esmolas amontoadas em escolas que
não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa subjugar
a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é quase
nada disso tudo.
Sou um covarde diante da violência contra a mulher, da violência do
homem contra o homem que só no Brasil são 50.000 deles arrancados à bala
do nosso pacífico planeta. Que dizer da violência contra os homossexuais
que são apedrejados nas calçadas das avenida elegantes?
Se homicídio fosse esporte olímpico, São Paulo [Belém, Marabá, Santarém ou Abaetetuba...] ganharia[m] medalha de ouro.
Mas como não é, ficamos nós com as medalhas de sangue e de lágrimas. E
pra mim, nenhuma vida vale mais do que a outra, porque quem morre, deixa
mais do que saudade, deixa família, filhos, lembranças... O homicídio é
um crime extremamente deselegante.
É assustador tudo que está acontecendo na periferia paulistana [belenense, marabaense, santarena, abaetetubense...], é como
se voltássemos ao final dos anos 80 e início dos anos 90, onde todos
tínhamos medo de sairmos às ruas e sermos executados pelo simples fato
de existirmos.
Pois é, esses dias estão de volta. O medo e a morte tomou conta das ruas.
A chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem.
E se [eu] tivesse mais fé na minha humanidade de maneira alguma aceitaria que
um Deus fosse melhor que o outro, mas sou tão covarde que nem religião
tenho, e minhas mãos que não rezam, já que estão abertas, poderiam
ajudar a construir um templo onde caberiam todas elas, mas eu que não
tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de produzir esse milagre. De
repartir o pão.
E porque os índios estão tão longe da minha aldeia e suas flechas não
atingem meus olhos nem meu coração, não me importo que lhe tirem suas
terras, sua alma, seus rios, e analfabeto de solidariedade não sei ler
sinais de fumaça, eles fazendo guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se
tivesse um nome indígena seria cachorro medroso.
Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por aí, não concordaria em
aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando em busca de terra, ou
morando em barracos de madeiras indignas pendurada nos morros, ou na
beira de córregos. Não nasci na favela, mas [por isso] meu coração é de madeira,
fraco.
A lei condena um homem comum que rouba outro homem comum e o enterra na
masmorra moderna, mas nada faz contra aquele político corrupto que rouba
milhares de pessoas apenas com uma caneta, ou duas, e que de quatro em
quatro anos a gente aperta-lhes a mão, quando na verdade devíamos
cuspir-lhes na cara. E eu como um juiz sem martelo não faço nada além de
condená-lo ao meu não voto. É pouco, já que sei onde eles se entocam. A
lei é cega, mas acho que lhe fizeram transplante de órgãos numa dessas votações secretas.Não vejo outra forma de combater o crime, que não a educação pública de qualidade. Nós abandonamos as crianças, os professores e o ensino público, agora estamos com o cu na mão com medo dos adultos.
As Escolas públicas estão parecendo privadas, e só agora essa sociedade
hipócrita está sentindo o cheiro, através desses crimes bárbaros de
jovens que sangram nas calçadas quando deviam estarem suando nos bancos
das universidades. Ah!, é contra as cotas raciais, né? Se quiserem
podemos reservar uma cota de violência pra vocês. É, essa violência que
vocês vem nos jornais, e nós, ao abrirmos as janelas... e desde sempre.
Assisto a falência da educação e o massacre contra os professores e sei
que muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de
segurança máxima, fico em silêncio quando a multidão desinformada pede
redução da maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos
nossas crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois
12, depois, não teremos mais crianças nas ruas. E elas, as ruas, serão
tão seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os
brinquedos serão visitados nos museus.
As pessoas pedem a redução da maioridade penal, eu quero o aumento da maioridade educacional.
Chega de convites para enterros e visita em presídios, quero convite para assistir formaturas.
Podem mandar tanques de guerras, aviões da FAB, invadirem favelas,
matarem todos nós nas esquinas escuras da periferia, porque se não
investirem na educação, vão ter que continuar matando, matando,
matando...porque vocês já sabem quem morre: nós os brasileiros pobres e
pretos.
Viver, ainda que doa, é melhor do que deixar saudades, porque nenhuma
vida é maior que a outra. Vale tanto para o Elefante como para a
formiguinha.
Estão cortando as árvores, cortand as árvore, cortan a árvore, cort árv,
co á… madeiraaaaa! E aceito a cara-de-pau dos donos das serras
elétricas e sei que o machado está nas minhas mãos. Depois fico
abraçando o lago poluído quando na verdade deveria estar mergulhado
nele, assim como os peixes mortos.
Pagos os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda
assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é
essa tal consciência tranquila que está acabando com o mundo.
Calado assisto a falsa democracia deste país ilegal, sem alvará de
funcionamento e sem licença pra ser pátria, e me emociono com o hino
nacional cantado antes do jogo da seleção canarinho.
Perdoe-me por apenas ser poeta, e ter apenas poemas como arma, ainda que
ninguém me diga, sei que isso é muito pouco, quase nada. O sangue que
pulsa na veia tinha que estar nos olhos.
O Mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que tem atitude. Se não posso mudar o mundo deveria [começar] a mudar a mim mesmo.
Acho que é isso que vou fazer agora.
Antes que seja tarde.
No silêncio da noite, um grito. No grito da noite, o silêncio.
Pah! Pah! Pah!
Se puderem, tenham paz.
***
Eis a tragédia. Desfrute-a (ou não).
Com farinha e sem açúcar,