quarta-feira, 29 de maio de 2013

A microfísica da poesia

A poesia está em tudo! Creio que Foucault diria que cada um de nós é, no fundo, titular de uma certa poesia e, por isso, veicula poesia. E hoje constatei isso ao ler a matéria do Literatortura, compartilhada por Gabriel Rocha no FB, que falava sobre o Tumbrl coletivo Poesia do Google "criado para compartilhar poesias feitas a partir do sistema automático de sugestões do Google".
E, por estar um certo tempo sem publicar nada aqui no MC, resolvi fazer algo seguindo essa ideia. Desse modo, depois de um tempinho de tentativas, consegui alguns resultados legais, dos quais enviei dois (aqui e aqui) para o coletivo, e deixo abaixo um pra vocês (distinto dos que enviei ao Poesia do Google). Espero que gostem!!!


 
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sexta-feira, 22 de março de 2013

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Gauguins Chair

Gauguin's chair, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890)
"[...] Entre dois seres, ele e eu, um todo vulcão e o outro fervendo também, mas de alguma forma preparava-se uma batalha.
Primeiramente achei, em tudo e por tudo, uma desordem que me chocou. A caixa de cores mal bastava para conter tubos espremidos, nunca fechados, e, apesar dessa desordem, desse desperdício, um todo brilhava na tela; também em suas palavras. Daudet, Goncourt, a Bíblia queimavam esse cérebro de holandês. [...]
[...] Tive a ideia de fazer seu retrato pintando a natureza-morta que ele tanto amava, a dos girassóis. Quando terminei, ele me disse: 'Sou eu mesmo, mas eu enlouquecido'.
Na mesma noite fomos ao café. Ele tomou um absinto leve.
De repente, ele me jogou na cara o copo e o seu conteúdo. Aparei o golpe e, pegando-o forte pelo braço, saí do café, atravessei a praça Victor Hugo e, alguns minutos depois, Vincent achava-se em sua cama, onde em alguns segundos dormiu para se levantar somente na manhã seguinte.
Ao despertar, muito calmo, ele me disse: 'Meu caro Gauguin, tenho uma vaga lembrança de que ontem à noite o ofendi'.
- Eu o perdoo de bom grado e de todo coração, mas a cena de ontem poderia se repetir, e se eu fosse atacado poderia perder as estribeiras e estrangulá-lo. Permita-me então escrever ao seu irmão para anunciar-lhe meu regresso.
Que dia, meu Deus!
Chegando a noite, acabara meu jantar e sentia a necessidade de ir sozinho respirar o ar perfumado dos loureiros em flor. Já atravessara quase inteiramente a praça Victor Hugo, quando ouvi atrás de mim um pequeno passo bem conhecido, rápido e irregular. Virei-me no exato momento em que Vincent se precipitava sobre mim com uma navalha aberta na mão. Meu olhar nesse momento deve ter sido muito poderoso, pois ele parou e, baixando a cabeça, retomou correndo o caminho de casa.
Será que fui covarde nesse momento e não deveria tê-lo desarmado e procurado acalmá-lo? Várias vezes interroguei minha consciência e não me censurei em nada.
Quem quiser que me jogue a primeira pedra. [...]
[...] Nos Monstros, Jean Dolent escreve:
'Quando Gauguin diz: Vincent, sua voz é doce'.
Não sabendo disso, mas tendo adivinhado, Jean Dolent tem razão. Sabemos por quê".

(Paul Gauguin, sobre o incidente de automutilação de Van Gogh, em seu livro Antes e Depois)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Com uma epígrafe de Saramago

Abaixo compartilho a monografia que apresentei à Faculdade Ideal (FACI) como requisito para a obtenção do grau de bacharel em Administração.


Discreto, como a foragido convém,
caim não se aproximou para lhe desejar
as melhoras da sua saúde, afinal,
este patrão e este empregado nem
tinham chegado a conhecer-se,
é o mau que tem a divisão em classes,
cada um no seu lugar, se possível onde nasceu,
assim não haverá nenhuma maneira
de fazer amizades entre oriundos de diversos mundos.

José Saramago (1922-2010),
Caim, p. 144, 2009

Cada vez que na área do político
sois chamados de 'meus filhos',
a esfera de vossos direitos políticos desaparece.

Maurício Tragtenberg (1929-1998),
Administração, Poder e Ideologia, p. 40, 2005

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sapatos pretos*

Grafite Venezuela patria joven, de Shak (crew Sul Oeste Unido - SOU) - obtido na Revista así somos - cuando miramos el mundo desde el barrio

Aquela não era uma chamada de emergência, mas María Rugas tinha a necessidade de confirmar as coisas que ia descobrindo, depois de 30 anos de cidadania relativa em um país de leis e acordos nebulosos. "Você sobe hoje para o barrio**?, perguntou, é que necessito que me explique um assunto de Direito".
Quando nos encontramos, María tinha uma sacola de arroz vazio. Arroz de Mercal***. O Mercal da avenida onde costumava passar uma média de três horas, quatro vezes por semana. A sacola estava cheia de manchas recentes de óleo e macarrão. María a esticava desde o centro, como se fosse a página 29 do Dom Quixote, e depois de cumprimentar-me leu o Artigo 103 da Constituição da República Bolivariana de Venezuela, ilustrado por El Tano****, no anverso de sua sacola de arroz com 10 por cento de grão partido, "o Direito à Educação".
A professora do filho de María o devolveu à sua casa porque as normas da escola exigiam sapatos pretos, e os dele tinham listras brancas que sempre camuflava com marcadores, até que a malvada chuva lhe delatou. María só queria confirmar se o Artigo 103 escrito em sua sacola de arroz, "já estava funcionando", porque ela tinha pedido uma reunião com a diretora da escola para lhe informar que uma de suas professoras estava violando um direito humano.
Acabava de ser testemunha do final da exclusão. Da de María, da de seu filho, muito provavelmente, da de toda uma comunidade. Era apenas o ano de 2005.


*Tradução livre feita por Amarildo Ferreira Júnior de trecho do artigo Un país en manos de gente real (Revista así somos, p. 49, año 5, n.º 12, abril/mayo 2012 - publicación del Sistema Masivo de Revistas del Ministerio del Poder Popular para la Cultura). Título livremente definido.
**Equivalente ao termo favela em português. Optou-se por não traduzi-lo para não perder, assim, sua significação e identificação local, já que, embora favela e barrio possuam muitas semelhanças, entre estes dois tipos urbanos existe algumas diferenças determinadas pelos distintos processos de formação de tais localidades em cada país.
***Misión Mercal (Mercado de Alimentos), um dos programas sociais do governo de Hugo Chávez destinado ao setor alimentício e vínculado ao Ministerio del Poder Popular para la Alimentación.
****Caricaturista venezuelano.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quase um Quibungo


Imagem de Fido Nesti
Lembro de dois bandidos que viviam no Benguí, na mesma periferia em que vivi quando criança. Nunca soube seus verdadeiros nomes e só recordo que um atendia pela alcunha de Costela, enquanto o outro respondia pelo vulgo de Cola.
Era um terror vê-los pelas ruas, ao que saía correndo para dentro de casa, assustado, indo esconder-me embaixo da cama, ou da saia da mãe. Não sei bem ao certo, mas acho que eles sabiam desse terror que causavam na molecada e que isso fazia bem para esse banditismo scienciano que cultivavam por questão de classe.
Outro dia, fiquei sabendo que Costela morreu - não sei ao certo se pelo papo-amarelo dos macacos, ou se por mão de semelhante nas diferenças (quiçá, pelo próprio punhal que um dia pode ter presenteado Cola). Entretanto, com certeza foi por nossa covardia e nossa paralisação ante essa ação dessocializante que cultivamos dia após dia.
Há alguns meses atrás, saindo de uma reggada noite em frente ao rio, encontrei Cola guardando carros no estacionamento. Parei para trocar algumas ideias, e quando lhe segredei meu medo de infância, ele ofereceu-me um cigarro.

(Amarildo Ferreira Júnior)
Belém/PA 21 de janeiro de 2012

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O liricista que quer tudo de volta


Era "mil novecentos e 2004", ano do macaco no horóscopo chinês, e o rap nacional recebia uma das obras fonográficas que mais marcaram sua história recente, sendo aclamada como um dos melhores discos do gênero em terras tupiniquins. Oito anos se passaram e Gustavo Black Alien permaneceu calado grande parte desse tempo, segundo ele mesmo, por não ter nada para dizer. Mas, em 2012 o hiatus começou a ter fim. O teaser da produção de uma faixa (Pra quem a carapuça caiba) para seu novo álbum foi lançado no canal do músico no You Tube e anunciava: "o liricista está voltando", e com expectativa de que ele está trazendo coisa boa, ao menos pelo o que diz uma frase escrita na parede ("vou pegar tudo de volta").
Ao que parece, Black Alien se afastou dos holofotes por questões pessoais e extrapessoais: esteve travando uma batalha de superação de demônios, fantasmas, morte. Aguardamos com ansiedade o retorno anunciado, ainda mais depois que Toni Gadiolli disponibilizou o documentário Mr. Niterói - A Lírica Bereta no seu canal no site de compartilhamento de vídeos mais famoso do mundo. Assisti ao filme e, apesar de estar em baixa resolução, afinal é uma versão para a web, creio que mostra bem o quanto Gus é genial, controverso, sagaz, difícil de lidar e admirado dentro e fora do rap. Destaco, pela sensibilidade que Black Alien demonstra em tratar do assunto, a cena dessa película que você pode ver abaixo em que o próprio Gustavo fala sobre o preconceito que sofria por ser negro (aparecem fotos de sua época de escola em que ele é o único negro entre tantos garotos e garotas brancos).

 
Sem dúvida alguma, o que mais admiro no Black Alien é sua versatilidade e intelectualidade transcedentes que colocam no rap referências de ska, funk, reggae, ragga, literatura, cinema, artes plásticas, história, etc. Rappin Hood disse, e isto está registrado no documentário acima, que Black Alien talvez não saiba o tamanho que tem. Pode não saber seu tamanho, mas sabe seu valor ("De Almeida Ribeiro Gustavo, vale uma fortuna...", diz ele em sua participação na música Forty Days, do Funk Como Le Gusta) e nem por isso se perde em devaneios vaidosos (como fica latente ao completar a rima "...mas em moedas de um centavo"), o que demonstra o quanto Mr. Black é complexo. Abaixo, um regalo do vimeo.

Fonematíq # 1 Fat Lion e Black Alien


Fonematíq # 1 Fat Lion e Black Alien from Rio de Janeiro on Vimeo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Olive Grove



Oliver Grove, 1889, Vincent van Gogh (1853-1890)

"Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver".
(Vincent van Gogh, Wasmes, julho de 1880) 

Fora, Temer!