sexta-feira, 22 de março de 2013

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Gauguins Chair

Gauguin's chair, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890)
"[...] Entre dois seres, ele e eu, um todo vulcão e o outro fervendo também, mas de alguma forma preparava-se uma batalha.
Primeiramente achei, em tudo e por tudo, uma desordem que me chocou. A caixa de cores mal bastava para conter tubos espremidos, nunca fechados, e, apesar dessa desordem, desse desperdício, um todo brilhava na tela; também em suas palavras. Daudet, Goncourt, a Bíblia queimavam esse cérebro de holandês. [...]
[...] Tive a ideia de fazer seu retrato pintando a natureza-morta que ele tanto amava, a dos girassóis. Quando terminei, ele me disse: 'Sou eu mesmo, mas eu enlouquecido'.
Na mesma noite fomos ao café. Ele tomou um absinto leve.
De repente, ele me jogou na cara o copo e o seu conteúdo. Aparei o golpe e, pegando-o forte pelo braço, saí do café, atravessei a praça Victor Hugo e, alguns minutos depois, Vincent achava-se em sua cama, onde em alguns segundos dormiu para se levantar somente na manhã seguinte.
Ao despertar, muito calmo, ele me disse: 'Meu caro Gauguin, tenho uma vaga lembrança de que ontem à noite o ofendi'.
- Eu o perdoo de bom grado e de todo coração, mas a cena de ontem poderia se repetir, e se eu fosse atacado poderia perder as estribeiras e estrangulá-lo. Permita-me então escrever ao seu irmão para anunciar-lhe meu regresso.
Que dia, meu Deus!
Chegando a noite, acabara meu jantar e sentia a necessidade de ir sozinho respirar o ar perfumado dos loureiros em flor. Já atravessara quase inteiramente a praça Victor Hugo, quando ouvi atrás de mim um pequeno passo bem conhecido, rápido e irregular. Virei-me no exato momento em que Vincent se precipitava sobre mim com uma navalha aberta na mão. Meu olhar nesse momento deve ter sido muito poderoso, pois ele parou e, baixando a cabeça, retomou correndo o caminho de casa.
Será que fui covarde nesse momento e não deveria tê-lo desarmado e procurado acalmá-lo? Várias vezes interroguei minha consciência e não me censurei em nada.
Quem quiser que me jogue a primeira pedra. [...]
[...] Nos Monstros, Jean Dolent escreve:
'Quando Gauguin diz: Vincent, sua voz é doce'.
Não sabendo disso, mas tendo adivinhado, Jean Dolent tem razão. Sabemos por quê".

(Paul Gauguin, sobre o incidente de automutilação de Van Gogh, em seu livro Antes e Depois)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Com uma epígrafe de Saramago

Abaixo compartilho a monografia que apresentei à Faculdade Ideal (FACI) como requisito para a obtenção do grau de bacharel em Administração.


Discreto, como a foragido convém,
caim não se aproximou para lhe desejar
as melhoras da sua saúde, afinal,
este patrão e este empregado nem
tinham chegado a conhecer-se,
é o mau que tem a divisão em classes,
cada um no seu lugar, se possível onde nasceu,
assim não haverá nenhuma maneira
de fazer amizades entre oriundos de diversos mundos.

José Saramago (1922-2010),
Caim, p. 144, 2009

Cada vez que na área do político
sois chamados de 'meus filhos',
a esfera de vossos direitos políticos desaparece.

Maurício Tragtenberg (1929-1998),
Administração, Poder e Ideologia, p. 40, 2005

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sapatos pretos*

Grafite Venezuela patria joven, de Shak (crew Sul Oeste Unido - SOU) - obtido na Revista así somos - cuando miramos el mundo desde el barrio

Aquela não era uma chamada de emergência, mas María Rugas tinha a necessidade de confirmar as coisas que ia descobrindo, depois de 30 anos de cidadania relativa em um país de leis e acordos nebulosos. "Você sobe hoje para o barrio**?, perguntou, é que necessito que me explique um assunto de Direito".
Quando nos encontramos, María tinha uma sacola de arroz vazio. Arroz de Mercal***. O Mercal da avenida onde costumava passar uma média de três horas, quatro vezes por semana. A sacola estava cheia de manchas recentes de óleo e macarrão. María a esticava desde o centro, como se fosse a página 29 do Dom Quixote, e depois de cumprimentar-me leu o Artigo 103 da Constituição da República Bolivariana de Venezuela, ilustrado por El Tano****, no anverso de sua sacola de arroz com 10 por cento de grão partido, "o Direito à Educação".
A professora do filho de María o devolveu à sua casa porque as normas da escola exigiam sapatos pretos, e os dele tinham listras brancas que sempre camuflava com marcadores, até que a malvada chuva lhe delatou. María só queria confirmar se o Artigo 103 escrito em sua sacola de arroz, "já estava funcionando", porque ela tinha pedido uma reunião com a diretora da escola para lhe informar que uma de suas professoras estava violando um direito humano.
Acabava de ser testemunha do final da exclusão. Da de María, da de seu filho, muito provavelmente, da de toda uma comunidade. Era apenas o ano de 2005.


*Tradução livre feita por Amarildo Ferreira Júnior de trecho do artigo Un país en manos de gente real (Revista así somos, p. 49, año 5, n.º 12, abril/mayo 2012 - publicación del Sistema Masivo de Revistas del Ministerio del Poder Popular para la Cultura). Título livremente definido.
**Equivalente ao termo favela em português. Optou-se por não traduzi-lo para não perder, assim, sua significação e identificação local, já que, embora favela e barrio possuam muitas semelhanças, entre estes dois tipos urbanos existe algumas diferenças determinadas pelos distintos processos de formação de tais localidades em cada país.
***Misión Mercal (Mercado de Alimentos), um dos programas sociais do governo de Hugo Chávez destinado ao setor alimentício e vínculado ao Ministerio del Poder Popular para la Alimentación.
****Caricaturista venezuelano.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quase um Quibungo


Imagem de Fido Nesti
Lembro de dois bandidos que viviam no Benguí, na mesma periferia em que vivi quando criança. Nunca soube seus verdadeiros nomes e só recordo que um atendia pela alcunha de Costela, enquanto o outro respondia pelo vulgo de Cola.
Era um terror vê-los pelas ruas, ao que saía correndo para dentro de casa, assustado, indo esconder-me embaixo da cama, ou da saia da mãe. Não sei bem ao certo, mas acho que eles sabiam desse terror que causavam na molecada e que isso fazia bem para esse banditismo scienciano que cultivavam por questão de classe.
Outro dia, fiquei sabendo que Costela morreu - não sei ao certo se pelo papo-amarelo dos macacos, ou se por mão de semelhante nas diferenças (quiçá, pelo próprio punhal que um dia pode ter presenteado Cola). Entretanto, com certeza foi por nossa covardia e nossa paralisação ante essa ação dessocializante que cultivamos dia após dia.
Há alguns meses atrás, saindo de uma reggada noite em frente ao rio, encontrei Cola guardando carros no estacionamento. Parei para trocar algumas ideias, e quando lhe segredei meu medo de infância, ele ofereceu-me um cigarro.

(Amarildo Ferreira Júnior)
Belém/PA 21 de janeiro de 2012

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O liricista que quer tudo de volta


Era "mil novecentos e 2004", ano do macaco no horóscopo chinês, e o rap nacional recebia uma das obras fonográficas que mais marcaram sua história recente, sendo aclamada como um dos melhores discos do gênero em terras tupiniquins. Oito anos se passaram e Gustavo Black Alien permaneceu calado grande parte desse tempo, segundo ele mesmo, por não ter nada para dizer. Mas, em 2012 o hiatus começou a ter fim. O teaser da produção de uma faixa (Pra quem a carapuça caiba) para seu novo álbum foi lançado no canal do músico no You Tube e anunciava: "o liricista está voltando", e com expectativa de que ele está trazendo coisa boa, ao menos pelo o que diz uma frase escrita na parede ("vou pegar tudo de volta").
Ao que parece, Black Alien se afastou dos holofotes por questões pessoais e extrapessoais: esteve travando uma batalha de superação de demônios, fantasmas, morte. Aguardamos com ansiedade o retorno anunciado, ainda mais depois que Toni Gadiolli disponibilizou o documentário Mr. Niterói - A Lírica Bereta no seu canal no site de compartilhamento de vídeos mais famoso do mundo. Assisti ao filme e, apesar de estar em baixa resolução, afinal é uma versão para a web, creio que mostra bem o quanto Gus é genial, controverso, sagaz, difícil de lidar e admirado dentro e fora do rap. Destaco, pela sensibilidade que Black Alien demonstra em tratar do assunto, a cena dessa película que você pode ver abaixo em que o próprio Gustavo fala sobre o preconceito que sofria por ser negro (aparecem fotos de sua época de escola em que ele é o único negro entre tantos garotos e garotas brancos).

 
Sem dúvida alguma, o que mais admiro no Black Alien é sua versatilidade e intelectualidade transcedentes que colocam no rap referências de ska, funk, reggae, ragga, literatura, cinema, artes plásticas, história, etc. Rappin Hood disse, e isto está registrado no documentário acima, que Black Alien talvez não saiba o tamanho que tem. Pode não saber seu tamanho, mas sabe seu valor ("De Almeida Ribeiro Gustavo, vale uma fortuna...", diz ele em sua participação na música Forty Days, do Funk Como Le Gusta) e nem por isso se perde em devaneios vaidosos (como fica latente ao completar a rima "...mas em moedas de um centavo"), o que demonstra o quanto Mr. Black é complexo. Abaixo, um regalo do vimeo.

Fonematíq # 1 Fat Lion e Black Alien


Fonematíq # 1 Fat Lion e Black Alien from Rio de Janeiro on Vimeo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Olive Grove



Oliver Grove, 1889, Vincent van Gogh (1853-1890)

"Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver".
(Vincent van Gogh, Wasmes, julho de 1880) 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mais cânhamo, menos canhão


No período de 1920 a 1933 os EUA adotaram a Lei Seca, conhecida como The Noble Experiment. A medida considerava a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas para consumo como crime, e criou departamento federal específico para combate ao álcool, do qual seus membros ficaram conhecidos como Agentes da Lei Seca.
A lei, fortemente apoiada por segmentos tradicionalistas da sociedade e altamente pautada em princípios dogmáticos, culminou numa série de consequências negativas para a sociedade, piores do que aquelas que intencionava combater (a saber, prejuízos causados pelo consumo de álcool à saúde física e psicológica).

Dentre essas consequências, citam-se as seguintes:

1. Com a proibição das bebidas alcoólicas, surgiu uma nova oportunidade criminosa de obtenção de recursos, uma vez que a medida foi tomada apenas pela ação em uma das pontas do problema, no caso, a comercialização, negligenciada a gênese da situação. Desse modo, reduzia-se a oferta, mas não ocorria o mesmo com a demanda, ocasionando ambiente propício ao alcance de lucros enormes com a comercialização ilegal do produto, obedecendo-se à simplista Lei da Oferta e da Demanda, que demonstra que quando a demanda é maior que a oferta, o preço tende a se elevar, enquanto quando a situação é inversa, a tendência do preço é reduzir;

2. O surgimento dessa oportunidade saltou imediatamente às vistas dos criminosos, sobretudo daqueles envolvidos no sistema das máfias, muitos deles políticos (o envolvimento da classe política nesse tipo de ação criminosa pode ser considerado indício de que a promulgação da Lei Seca teve como objetivo racional a criação desse mercado paralelo de alta lucratividade), que passaram a investir nesse tipo de atividade econômica ilícita, originando-se, assim, um mercado negro especializado na fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas a preços muito acima do praticado antes da vigência da lei;

3. Acompanhando o início desse tipo de comércio, uma série de fatores se sucedeu:    
3.1 aumentou o nível de corrupção ativa e passiva nos EUA;
3.2 os indíces de violência se elevaram, impulsionados pelos inúmeros assassinatos cometidos por conta da máfia do álcool;
3.3 houve prejuízos enormes ao Tesouro estadunidense ocasionados pela sonegação fiscal (Al Capone, maior expoente dessa época, foi preso, por exemplo, não por conta da comercialização de bebidas ou dos inúmeros assassinatos que sua quadrilha cometeu, mas por sonegação de Imposto de Renda);
3.4 elevação da evasão de divisas, pois a grande parte do álcool vendido era proveniente de países vizinhos, principalmente do Canadá; e
3.5 no que está relacionado ao assunto saúde pública, aumentou o número de problemas de saúde ocasionados pelo consumo de álcool, pois o governo não tinha mais como controlar a qualidade das bebidas vendidas, que, por diversas vezes, eram fabricadas nos fundos das casas e acrescidas de componentes químicos diversos, dentre eles formol, para aumentar a quantidade produzida.

A análise acima, ainda que superficial, mostra o quanto a Lei Seca foi falha e abriu caminho para uma série de problemas. Sua apresentação foi feita para fazer uma sensibilização com relação à política de drogas adotada pelo Brasil atualmente, com concetranção na análise dos fatores a favor da descriminalização da Cannabis. Não é necessário grande esforço para perceber que as mesmas consequências relacionadas à proibição da venda, transporte e cultivo da maconha ocorrem no Brasil. E, além dessa analogia, ainda existem outros fatores a serem levados em consideração em posturas pró-legalização da maconha.

Inicialmente, deve-se considerar os benefícios medicinais que o consumo da maconha proporciona. Embora não seja inteiramente inofensiva para a saúde humana, afinal nada é inofensivo quando associamos ao ser humano - a reverência excessiva a uma religião, por exemplo, pode causar intolerância, seguida de atos de violência e guerras. Logo, afirmar que algo só traga benefícios ao ser humano ou é ignorância, ou é hipocrisia.

Entretanto, a maconha possui diversas propriedades que minimizam extremamente os possíveis efeitos nocivos que possa causar e é menos danosa à saúde humana do que algumas drogas legalizadas atualmente, como álcool e tabaco. Abaixo, apresentamos alguns dos benefícios medicinais do consumo da maconha (se tiver dúvidas quanto às fontes, acesse os links ao final da postagem e confira).
  1. Combate de enjoos, permitindo a pacientes portadores de câncer realizar quimioterapia com menores efeitos colaterais;
  2. Abrir o apetite, reduzindo a perda de peso de portadores de doenças que reduzam a vontade de comer;
  3. Regular a pressão intraocular, reduzindo as possibilidades de cegueira em portadores de glaucoma;
  4. Ser utilizada na terapia para transtornos neurológicos e do movimento por reduzir os espamos causados pela esclerose múltipla e a lesão parcial da médula espinhal;
  5.  Reduzir a rigidez muscular em pacientes com esclerose múltipla
  6. Estudos apontam que a maconha pode ser utilizada para combater fobias sociais, principalmente por ser ansiolítico e antidepressivo;
  7. A maconha também pode ser utilizada como auxílio no tratamento da asma bronquial devido às propriedades anti-inflamatórias do tetrahidrocanabinol (THC), princípio ativo da planta;
  8. Em experiências com ratos adultos, cientistas constataram que os cannabinoides possuem a capacidade de regenerar células do hipotalamo, região do cérebro responsável pelo aprendizado.
Bem, a lista é muito grande e só por conta dela já é um bom argumento para a defesa da descriminalização e posterior legalização da maconha. Entretanto, outros argumentos se tornam necessários. Um dos mais utilizados contra a legalização é de que a maconha seria a porta de entrada para outras drogas mais pesadas. Porém, estudo publicado no Journal of Psychoactive Drugs conclui o contrário, e ainda adiciona que a injustiçada ganja pode ser utilizada na recuperação de dependentes de crack.

Nossa, muita coisa, não é?! Nem tanto, ainda falta mais. Por exemplo, ainda existe o fato de que a maconha é considerada planta sagrada em algumas religiões do mundo, dentre elas a mais conhecida é o Rastafari, mas também existe associação da planta com religiões da Índia, inclusive o budismo, e, portanto, criminalizar o uso dessa planta nos cultos dessas religiões vai contra o inciso VI do artigo 5º da Constituição/1988, o qual diz que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e das suas liturgias", o que torna inconstitucional a prisão de Geraldo Antonio Batista, líder da Primeira Igreja Niubingui Coptic de Sião do Brasil. Para reforçar esse argumento, convém citar que no livro Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre afirma o uso da maconha nos cultos religiosos trazidos pelos africanos, muitos dos quais incorporados pelo cristianismo católico predominante na colonização, testemunhando seu uso no Rio de Janeiro, onde era conhecida como pungo, na Bahia, sob o nome de macumba (daí o nome da religião afrobrasileira, considera por muitos estudiosos, dentre eles Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker, autores d'O Livro das Religiões, sendo o primeiro também autor do best-seller O mundo de Sophia, como a religião legitimamente brasileira), e em Pernambuco por maconha, sendo chamada também de diamba ou liamba entre os usuários da erva (Gilberto FREYRE, Casa-Grande & Senzala, p. 395 e  479). O autor prossegue, afirmando que "[...] alguns consumidores da planta, hoje cultivada em várias partes do Brasil, atribuem-lhe virtudes místicas [...]". É tão interessante essa relação da maconha com a religiosidade, que a primeira bíblia impressa foi feita de fibras de cânhamo, mas essa aplicação da Cannabis que ultrapassa o ato de fumar será brevemente abordada a seguir.

E já que falei acima em Constituição, vale lembrar que juridicamente há discussões calorosas sobre a legalidade de sua criminalização, com defensores de sua legalização levantando como argumento o fato de que, para que haja crime, é necessário que se tenha uma vítima. Ou seja, a escolha sobre fumar ou não maconha tem seus efeitos diretos somente na pessoa que decide em praticar tal ato. E falar que isso gera problemas para o restante da Sociedade por financiar o tráfico é erro metonímico, pois esses efeitos nocivos são originários do atual modelo de combate às drogas, afinal, a legalização da maconha, além de gerar um controle sobre sua qualidade e distribuição e arrecadação de impostos que podem ser utilizados na educação ou na saúde, ainda representa um golpe duro aos traficantes, que perderão uma de suas fontes de financiamento. Além disso, estudiosos constataram que a atual política contra as drogas além de não lograr a vitória por um lado, por outro ainda constitui em fonte de violação de direitos humanos, como bem explica o Delegado Orlando Zaccone no vídeo abaixo. Ou seja, fumar maconha não mata, mas a política adotada em torno desse produto criou mecanismos eficazes de corrupção, prisões injustas e fabricação em massa de mortos.




E o uso da maconha não se restringe somente ao seu consumo em forma de cigarros. Diversas são as aplicações industriais que seu cultivo pode ter, podendo ser aplicada na indústria alimentícia (manteiga, brigadeiro, leite, bolos, biscoitos, snacks, etc),  na produção de papel, tintas, medicamentos, combustível, tecidos, cosméticos e de uma diversidade de outros produtos. O primeiro Ford Modelo T, por exemplo, era feito de aço e maconha e movido a combustível feito de maconha, e as velas das caravelas portuguesas que chegaram ao Brasil eram feitas de fibras de cânhamo. E tal fibra é mais resistente, flexível e durável do que o algodão, por exemplo, necessitando de menos água e agrotóxicos em seu cultivo e, consequentemente, sem muita agressão à natureza.

Agora, chegou a hora de recapitular um pouco: a maconha pode ser utilizada como alternativa ou complemento a vários tipos de tratamento medicinal; também pode ser utlizada no tratamento de dependentes químicos; é utilizada em cerimônias religiosas; criminalizá-la gera violações de direitos humanos, corrupção ativa e passiva, e financia o tráfico; e seu uso pode ser aplicado em diversas indústrias (da alimentícia à automobilística). Mas, ainda faltam alguns pontos a serem considerados.

Surge, então, uma pergunta: por que álcool e cigarro são legalizados e a maconha não? O consumo de álcool em excesso, por exemplo, é extremamente nocivo à saúde, causando, entre as mais frequentes, doenças sexuais, cardiovasculares, vários tipos de câncer, o diabetes e problemas pulmonares crônicos, além de ser fatal quando associado à direção. A OMS (Organização Mundial da Saúde), por exemplo, estima que por ano 2,5 milhões de pessoas morrem devido consumo inadequado de álcool. Já o cigarro mata, segundo a OMS, "mais que a tuberculose, a AIDS e a malária juntas", num total de 5 milhões de pessoas por ano. Por outro lado, a maconha, em milhares de anos de consumo pela humanidade, possui 0 (ZERO) mortes em toda a história!!!! E por que não há nenhum registro de morte provocada por maconha na literatura médica? Simples: porque, além de todos esses benefícios medicinais e não-medicinais que seu uso gera, para que uma pessoa morra por excesso de consumo de maconha seria necessário fumar setecentos mil baseados em menos de 15 minutos. A título de comparação, o álcool, por exemplo, pode matar por parada respiratória se ingerido 5,0 gramas de álcool/litro de sangue, e a cafeína se ingerida 42 xícaras de café.

Então, por que defendem a política proibicionista? Nesse ponto, existe duas posturas: a daqueles que defendem a proibição por interesses econômicos, afinal há muita gente GRANDE por trás dos ganhos com o tráfico e pela eliminação da maconha na indústria farmacêutica, principalmente, e em outras indústrias em que a marijuana pode ser utilizada; e outro grupo formado por aqueles que defendem a proibição por falta de conhecimentos, hipocrisia e/ou ultraconservadorismo, reproduzindo o discurso dominante, que, diga-se de passagem, também tem sua origem, além de interesses econômicos, em preconceitos contra árabes, chineses, mexicanos e negros.

Por fim, vale citar os avanços, embora poucos, principalmente quando se leva em consideração os retrocessos que surgem durante o caminho, como é o caso da nova legislação holandesa quanto ao comércio da erva, que a busca da legalização tem obtido. Recentemente, por exemplo, os estados de Washington e Colorado, nos EUA, legalizaram o uso recreativo da maconha, enquanto o estado de Massachussets aprovou seu uso medicinal. Entretanto, acredito que o principal destaque está aqui na América Latina, no Uruguai, que iniciou debates e possui projetos para legalização da maconha e seus derivados, mediante controle estatal, com objetivo de combater o tráfico de drogas, guerra perdida pelas atuais políticas, inclusive com declarações do atual presidente uruguaio, Pepe Mujica, considerado "o presidente mais pobre do mundo" devido seu estilo de vida modesto, de que a "maconha merece mais respeito".
Outra notícia animadora, também originária do sul do continente, foi o reconhecimento por parte da ONU (Organização das Nações Unidas) do direito dos bolivianos mascarem folha de coca para fins medicinais e rituais por ser uma tradição milenar, o que pode abrir precedentes para a questão da legalização da maconha.

Agora, se você discorda de tudo que eu falei, tem esse desafio aqui do pessoal do Marijuana Policy Project (MPP): prove que a maconha faz mais mal que álcool e ganhe US$ 10 mil!!

NÃO COMPRE, PLANTE!!!


FONTES:
  1. A verdade sobre a maconha
  2. A história da maconha, a droga mais polêmica do mundo
  3. Por que legalizar
  4. Maconha e medicina
  5. "Maconha é alternativa no tratamento da dor"
  6. O uso da maconha para tratar doenças
  7. Extrato da maconha reduz rigidez muscular em pacientes com esclerose múltipla 
  8. Substância da maconha é usada para tratamento de fobias sociais
  9. Legalização da_maconha 
  10. Maconha pode ajudar no tratamento de dependentes de crack, aponta estudo
  11. Estudo avalia uso da maconha contra o crack 
  12. Cannabinoids promote embryonic and adult hippocampus neurogenesis and produce anxiolytic- and antidepressant-like effects
  13. Cannabis é a única droga capaz de regenerar células nervosas
  14. Maconha pra fumar todo mundo já conhece... E pra comer?
  15. Cannabis gourmet 
  16. Pesquisadores americanos criam biodiesel de maconha
  17. Abasteça seu carro com maconha
  18. Cimento de cannabis é ecológico
  19. Canadá aposta em carro elétrico feito de fibra de maconha 
  20. OMS: pelo menos 2,5 milhões de pessoas morrem a cada ano por causa do consumo de bebida alcoólica
  21. Mortality attributable to tobacco
  22. O álcool não mata por overdose
  23. Venda de maconha é legalizada no Colorado (EUA) e será restrita a profissionais 
  24. Legalização da maconha e união gay em referendos marcam eleição nos EUA 
  25. Festa marca legalização da maconha no Estado de Washington 
  26. Uruguai rompe tabu e debate legalização da maconha 
  27. Em comunicado, Mujica defende legalização da maconha no Uruguai
  28. Maconha merece 'mais respeito', diz presidente do Uruguai 
  29. ONU reconhece o direito da Bolívia à mastigação de coca

Fora, Temer!