segunda-feira, 25 de abril de 2011

GesLinguística - O Idioma da Gestão: CVP

Ciclo de Vida de Produto

CVP é uma sigla utilizada em Administração que significa Ciclo de Vida de Produto. O CVP consiste na relação entre o volume de vendas e o tempo em que um produto passa no mercado, sendo de difícil definição. Sua importância é devida ao fato de que, por considerar o desempenho das vendas de determinado produto ou serviço ao longo de um tempo específico, as empresas podem, por meio dessa análise, decidir o momento de iniciar campanhas de revitalização do produto ou mesmo decidir sobre sua "morte" e/ou substituição.

Para saber mais, clique em CVP!

domingo, 24 de abril de 2011

O #orgulhoFhC e Millôr Fernandes


Durante essa última semana fomos surpreendidos por manifestações no Tuíter de um suposto #orgulhoFhC, o que me causa indignação, afinal, até o referido episódio, eu achava que orgulho e FHC não poderiam figurar no mesmo contexto. Enfim, conversando sobre o assunto com a antropofágica Jéssica Souza, fiquei sabendo de um tal texto do Millôr em "homenagem" ao ilustríssimo ex-presidente da República e, dando uma googada, o encontrei no Óleo do Diabo (coincidência?) e decidi colocá-lo a seguir. Divirtam-se!

O pensamento de FHC analisado por Millôr Fernandes

LIÇÃO PRIMEIRA
De uma coisa ninguém podia me acusar — de ter perdido meu tempo lendo FhC (superlativo de PhD). Achava meu tempo melhor aproveitado lendo o Almanaque da Saúde da Mulher. Mas quando o homem se tornou vosso Presidente, achei que devia ler o Mein Kampf (Minha Luta, em tradução literal) dele, quando lutava bravamente, no Chile, em sua Mercedes (“A mais linda Mercedes azul que vi na minha vida”, segundo o companheiro Weffort, na tevê, quando ainda não sabia que ia ser Ministro), e nós ficávamos aqui, numa boa, papeando descontraidamente com a amável rapaziada do Dops-DOI-CODI.


Quando, afinal, arranjei o tal Opus MagnoDependência e Desenvolvimento na América Latina — tive que dar a mão à palmatória. O livro é muito melhor do que eu esperava. De deixar o imortal Sir Ney morrer de inveja. Sem qualquer partipri, e sem poder supervalorizar a obra, transcrevo um trecho, apanhado no mais absoluto acaso, para que os leitores babem por si:


"É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação 'casual-analítica', nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de 'causal-significante’ — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente 'mecânico-causal', que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘conseqüências internas’.”

Concurso – E-mail:

Qualquer leitor que conseguir sintetizar, em duas ou três linhas (210 toques), o que o ociólogo preferido por 9 entre 10 estrelas da ociologia da Sorbonne quis dizer com isso, ganhará um exemplar do outro clássico, já comentado na primeira parte desta obra: Brejal dos Guajas — de José Sarney.

LIÇÃO SEGUNDA
Como sei que todos os leitores ficaram flabbergasted (não sabem o que quer dizer? Dumbfounded, pô!) com a Lição primeira sobre Dependência e Desenvolvimento da América Latina, boto aqui outro trecho — também escolhido absolutamente ao acaso — do Opus Magno de gênio da "profilática hermenêutica consubstancial da infra-estrutura casuística", perdão, pegou-me o estilo. Se não acreditam que o trecho foi escolhido ao acaso, leiam o livro todo. Vão ver o que é bom!

Estrutura e Processo: Determinações Recíprocas
“Para a análise global do desenvolvimento não é suficiente, entretanto, agregar ao conhecimento das condicionantes estruturais a compreensão dos ‘fatores sociais’, entendidos estes como novas variáveis de tipo estrutural. Para adquirir significação, tal análise requer um duplo esforço de redefinição de perspectivas: por um lado, considerar em sua totalidade as ‘condições históricas particulares’ — econômicas e sociais — subjacentes aos processos de desenvolvimento no plano nacional e no plano externo; por outro, compreender, nas situações estruturais dadas, os objetivos e interesses que dão sentido, orientam ou animam o conflito entre os grupos e classes e os movimentos sociais que ‘põem em marcha’ nas sociedades em desenvolvimento. Requer-se, portanto, e isso é fundamental, uma perspectiva que, ao realçar as mencionadas condições concretas — que são de caráter estrutural — e ao destacar os móveis dos movimentos sociais — objetivos, valores, ideologias —, analise aquelas e estes em suas relações e determinações recíprocas. (…) Isso supõe que a análise ultrapasse a abordagem que se pode chamar de enfoque estrutural, reintegrando-a em uma interpretação feita em termos de ‘processo histórico’ (1). Tal interpretação não significa aceitar o ponto de vista ingênuo, que assinala a importância da seqüência temporal para a explicação científica — origem e desenvolvimento de cada situação social — mas que o devir histórico só se explica por categorias que atribuam significação aos fatos e que, em conseqüência, sejam historicamente referidas.

(1) Ver, especialmente, W. W. Rostow, The Stages of Economic Growth, A Non-Communist Manifest, Cambridge, Cambridge University Press, 1962; Wilbert Moore, Economy and Society, Nova York, Doubleday Co., 1955; Kerr, Dunlop e outros, Industrialism and Industrial Man, Londres, Heinemann, 1962.”

Comentário do Millôr, intimidado:

A todo momento, conhecendo nossa precária capacitação para entender o objetivo e desenvolvimento do seu, de qualquer forma, inalcançável saber, o professor FhC faz uma nota de pata de página. Só uma objeçãozinha, professor. Comprei o seu livro para que o senhor me explicasse sociologia. Se não entendo o que diz, em português tão cristalino, como me remete a esses livros todos? Em inglês! Que o senhor não informa onde estão, como encontrar. E outra coisa, professor, paguei uma nota preta pelo seu tratado, sou um estudante pobre, não tenho mais dinheiro. Além do que, confesso com vergonha, não sei inglês. Olha, não vá se ofender, me dá até a impressão, sem qualquer malícia, que o senhor imita um velho amigo meu, padre que servia na Paróquia de Vigário-Geral, no Rio. Sábio, ele achava inútil tentar explicar melhor os altos desígnios de Deus pra plebe ignara do pequeno burgo e ensinava usando parábolas, epístolas, salmos e encíclicas. E me dizia: “Millôr, meu filho, em Roma, eu como os romanos. Sendo vigário em Vigário-Geral, tenho que ensinar com vigarice".

LIÇÃO TERCEIRA
 Há vezes, e não são poucas, em que FhC atinge níveis insuperáveis. Vejam, pra terminar esta pequena explanação, este pequeno trecho ainda escolhido ao acaso. Eu sei, eu sei — os defensores de FhC, a máfia de beca, dirão que o acaso está contra ele. Mas leiam:

“É oportuno assinalar aqui que a influência dos livros como o de Talcot Parsons, The Social System, Glencoe, The Free Press, 1951, ou o de Roberto K. Merton, Social Theory and Social Structure, Glencoe, The Free press, 1949, desempenharam um papel decisivo na formulação desse tipo de análise do desenvolvimento. Em outros autores enfatizaram-se mais os aspectos psicossociais da passagem do tradicionalismo para o modernismo, como em Everett Hagen, On the Theory of Social Change, Homewood, Dorsey Press, 1962, e David MacClelland, The Achieving Society, Princeton, Van Nostrand, 1961. Por outro lado, Daniel Lemer, em The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East, Glencoe, The Free Press, 1958, formulou em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento, o enfoque do tradicionalismo e do modernismo como análise dos processos de mudança social”.

Amigos, não é genial? Vou até repetir pra vocês gozarem (no bom sentido) melhor: “formulou (em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento) o enfoque (do tradicionalismo e do modernismo) como análise (dos processos de mudança social)”.

Formulou o enfoque como análise!

É demais! É demais! E sei que o vosso sábio governando, nosso FhC, espécie de Sarney barroco-rococó, poderia ir ainda mais longe.

Poderia analisar a fórmula como enfoque.

Ou enfocar a análise como fórmula.

É evidente que só não o fez em respeito à simplicidade de estilo.

Tópico avulso sobre imodéstia e pequenos disparates do eremita preferido dos Mamonas Assassinas.

Vaidade todos vocês têm, não é mesmo? Mas há vaidades doentias, como as das pessoas capazes de acordar às três da manhã para falar dois minutos num programa de tevê visto por exatamente mais ou menos ninguém. Há vaidades patológicas, como as de Madonas e Reis do Roque, só possíveis em sociedades que criaram multidões patológicas.
Mas há vaidades indescritíveis. Vaidade em estado puro, sem retoque nem disfarce, tão vaidade que o vaidoso nem percebe que tem, pois tudo que infla sua vaidade é para ele coisa absolutamente natural. Quem é supremamente vaidoso, se acha sempre supremamente modesto. Esse ser existe materializado em FhC (superlativo de PhD). Um umbigo delirante.


O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal — se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta — e fala pessimamente — seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma, é considerado o maior sociólogo brasileiro.

Nunca vi nada que ele fizesse (Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro que o elevou à glória, é apenas um Brejal dos Guajas, mais acadêmico) e dissesse que não fosse tolice primária. “Também tenho um pé na cozinha”, “(os brasileiros) são todos caipiras”, “(os aposentados) são uns vagabundos”, “(o Congresso) precisa de uma assepsia”, “Ser rico é muito chato”, “Todos os trabalhadores deviam fazer checape”, “Não vou transformar isso (a moratória de Itamar) num fato político”. “Isso (a violência, chamada de Poder Paralelo) é uma anomia”. E por aí vai. Pra não lembrar o vergonhoso passado, quando sentou na cadeira da prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros, segundo ele “um fantasma que não mete mais medo a ninguém”.

Eleito prefeito, no dia seguinte Jânio Quadros desinfetou a cadeira com uma bomba de Flit.

E, sempre que aproxima mais o país do abismo no qual, segundo a retórica política, o Brasil vive, esse FhC (superlativo de PhD) corre à televisão e deita a fala do trono, com a convicção de que, mais do que nunca, foi ele, the king of the black sweetmeat made of coconuts (o rei da cocada preta), quem conduziu o Brasil à salvação definitiva e à glória eterna. E que todos querem ouvi-lo mais uma vez no Hosana e na Aleluia. Haja!

Millôr Fernandes



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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Lágrimas de álcool



O texto abaixo representa um pouco, descontadas as peculiaridades, o meu estado de espírito atual. Esse é o quinto capítulo do livro "O Suicida ou Narcomania: o retrato de um anti-heroi", de Dom Aquiles Crowley. Começado a ser escrito em 30 de dezembro de 2008, o livro se encontra paralisado desde 11 de maio de 2009.


Skull of a Skeleton with Burning Cigarette (1886) - Vincent van Gogh (1853-1890)

Trrrriiiiimmmmmmmm....O telefone tocou!
-“Alô?”, Seu Mário atendeu.
-“Se-se-u Má-má-rio, o senhor está bem?”, uma voz trêmula e engasgada respondeu.
-“Aconteceu algo? O que está havendo?”
-“Seu Mário, foi o Dionísio...”
-“O quê aconteceu com o Dionísio?!”
-“Bem... Ele... Ele foi encontrado... foi encontrado mor... morto hoje de manhã e....”, tum tum tum tum, o telefone foi desligado do outro lado.

Mário Balder era dono de uma pequena loja de auto peças em Abaetetuba, onde reconstruía sua Vida e trabalhava movido por um Sonho: ver Dionísio formado, administrando e fazendo crescer o negócio da família. Ele viveu com a mãe de Dionísio por doze anos e moravam em Belém, onde eram donos de um bar e um restaurante, separando-se dela, quando o filho tinha onze anos, de uma maneira dura, regada a lágrimas e muito álcool. Dionísio acreditava que haviam outros motivos além do alcoolismo do pai para aquela separação, mas fechou-se consigo mesmo de tal forma que não conseguia Coragem para descobri-los, e sofreu muito com tudo aquilo, um Sofrimento calado, oculto, no silêncio e escuro da madrugada, sob os lençóis que ora serviam para enxugar sua lágrima, ora para serem colocados na boca para sufocar e amordaçar o Pranto.
Foi ali na cama que, cortando ao meio as fotos que tinha de seu pai junto com sua mãe, começaram a se manifestar as primeiras mudanças no seu modo de viver e agir; nasceu o Sofrimento, seu amigo mais íntimo e que sempre o acompanhava. Nasceu nu, como nascem todos os bebês, e fraco, precisando de uma incubadora, como todos os prematuros, mas foi bem cuidado e alimentado, fez-se forte, robusto, belo (se não fosse não o estaria retratando aqui, leitor ignorante), mas não veio só a este Mundo. Junto a ele vieram dois irmãos: a Rebeldia, que também o acompanhou por toda a Vida e gerou filhos, alguns lindos, mas que só as pessoas de coração reto e espírito crítico podem detectar, que chamamos Virtudes, e outros horríveis e corrompidos, os quais os hipócritas transformam na única maneira de se recordar das pessoas, chamados de Vícios; e o Ódio, que tornou-se um mordomo em seu Coração, onde o Sofrimento era senhor e a Rebeldia, com seu ar feminino e feminista, madame. Com relação ao mordomo dessa bela e imponente mansão que é o Coração humano, mostrou-se forte, sobretudo com relação ao pai de Dionísio, visto pelo filho como responsável por aquela separação e acusado de abandoná-lo para viver no interior do Pará, entregue ao famoso destilado de cana daquela região e aos braços das mais diversas mulheres em detrimento da felicidade do “herdeiro do trono nórdico”, algo que realmente ocorreu nos quatro primeiros anos que se sucederam.
Entretanto, Dionísio assassina a sangue frio aquele Ódio, com ajuda de seus irmãos que, inspirados em Caim, sentiram que perdiam espaço no Grande Castelo para um simples e paupérrimo serviçal, quando percebe que, após aqueles quatro anos em que as mulheres e os drinques cumpriram mandato na Vida de Mário, o pai superara a Dor e voltou-se, como outrora, a pensar no filho. Mas, todo aquele tempo convivendo com um ser tão colérico tornaram Dionísio um jovem preso aos seus próprios Sentimentos e Pensamentos. Além disso, possibilitou um aprendizado que marcou sua Vida: “o Sofrimento vai embora após uns drinques e algumas transas”, pensara ele. Pobre Dionísio! Talvez estivera, em determinado ponto, certo em suas reflexões, entretanto não entendera que eram algumas mulheres e doses de bebida, e não garrafas e mais garrafas de todo tipo de bebida, automutilação, putas e vadias, pasta de cocaína, papelotes de maconha ou saquinhos de pó.
Mário casou-se novamente, mas não teve mais nenhum filho. Largou o álcool e dedicava-se exclusivamente a duas coisas: seu trabalho, de onde tirava o sustento para si e pagava os estudos do filho, e sua esposa. Uma vez por mês ia à Belém visitar Dionísio, e nunca percebera algo de errado: desde cedo o filho aprendera a esconder seus sentimentos e pensamentos e tornara-se praticamente insondável. Não aprovava o fato do filho morar sozinho na capital, visto que ele, como já foi dito, morava em Abaetetuba, e a mãe de Dionísio, em Paragominas; mas, aceitava a situação devido o filho está cursando faculdade na capital e, mais do que isso, sentia maturidade e confiava no filho.
Aquele homem, que havia se regenerado e fortalecido, fraquejou naquele instante. Pediu a um de seus funcionários que fechasse a loja no final do expediente e saiu, atônito e sem responder a pergunta de seus funcionários sobre o que havia acontecido, tal o abalo que sofrera. Pôs-se a andar sem saber para onde ir e sem responder às saudações dos muitos conhecidos que cruzavam seu caminho. Ia refletindo o porquê de não ter atentado mais para o comportamento do filho.
Era seu dever de pai buscar informações junto aos vizinhos da casa que alugara sobre o tipo de pessoas com quem o filho mantinha amizades e o que andava fazendo, mas as Saudades e a vontade de ver, abraçar e beijar o filho o cegava e o fazia limitar-se apenas ao que ouvia dele. Nesse momento, um anjo sujo e mal vestido deteve Mário em frente a um bar, o mesmo que há anos atrás o via caído, bêbado e maltrapilho. Mário entrou no bar e tudo estava do mesmo modo, exceto por alguns bêbados que já não frequentavam o decaído estabelecimento: dois ou três, dos quais Mário era um, largaram seus ofícios etílicos e outros tantos jaziam no cemitério público, uns vítimas da violência que um pequeno exagero de doses pode causar, e que num dia quase levou a alma de Mário, que ainda guarda as cicatrizes no tórax, outros, a maioria na verdade, sucumbiram aos combalimentos do fígado.

-“Uma dose de vodka!”, o homem falou depois de um século de silêncio que se fez com sua repentina entrada após aqueles cinco anos que se passaram desde a última dose.

-“Seu Mário, o senhor tá com algum problema?”, perguntou o dono do bar, admirado com o velho cliente que retornara, uma versão porca do Filho Pródigo do Evangelho.
-“Isso aqui é um bar ou um consultório psiquiátrico? Cadê minha dose, estou esperando homem!!”, respondeu Mário, sentando-se e abaixando a cabeça.
-“Iiihhh... Deve de ser chifre...”, punha-se a dizer um bêbado sentado aos fundos do bar espetando uma azeitona que, felizmente, não foi notado por Mário.
O dono do bar colocou a dose pedida, que foi consumida só num trago e acompanhada do pedido de mais uma, agora mais forte.
-“Mas seu Mário, o senhor....”
-“Mas é o caralho! Me dá outra dose, porra, eu vou pagar!”
Álcool... Recolhido da garapa da cana, tal qual o melado, mas, diferente do outro, que vem adoçar as miseráveis vidas do povo do sertão, é feito para inflamar, não só da maneira literal, mas também, e principalmente, aquecer o Coração dos necessitados. Mário passou da conta, mas não o julgue e tão pouco o condene por isso: você não tem o mínimo entendimento e maturidade de espírito para fazer isto. Ele se sentia impotente em frente ao que acontecera a seu filho, precisava de um acalento para seu Coração. Na verdade, queria estar louco, tal qual o rei trácio que retalhou o filho a machadadas. Não! Não era isso que deveria e queria ter dito, entretanto não apago esta linha pois a palavra dita, tal qual a flecha lançada, não pode retornar antes de cumprir seu curso. Fica então uma retratação: desculpe-me, leitor, minha falta de coerência, bom senso e poesia e meu gosto pelas lendas gregas, que acabam ofendendo sua “vã filosofia”.
Mário não queria a Sandice, ela é péssima noiva, e muito menos recolher os pedaços do filho. Queria o filho a seu lado, queria ajudá-lo, levantá-lo quando este caísse (tal qual fazia quando o ensinara ainda pivete a andar de bicicleta), cobrir-lhe com o mais caloroso cobertor nos dias de inverno ou segurar em suas mãos como quando o filho chorava de medo das frestas da ponte de madeira do Porto do Arapari, mas sempre inteiro e pronto a um novo e belo aprendizado. Porém não podia fazer isso, pois a bela Perséphone o seduziu, e o impiedoso Hades, ferido em sua Honra, o prendera no Tártaro, tal como fez a seu pai e aos outros poderosos Titãs, como punição por cortejar a Rainha dos Mortos e pelo formoso par de chifres que recebera em sua incandescente cabeça.
Então, como resgatar Dionísio? Impossível, só os heróis gregos eram capazes de tais façanhas e todos já não vivem. Como ele pagaria Caronte, o barqueiro, ou como derrotaria Cérbero, o Guardião do Inferno? Mais uma vez ele se sentiu impotente, e essa impotência se mostrou em lágrimas, mas não lágrimas comuns a um mortal e nem lágrimas de um imortal, se é que estes choram, mas lágrimas de um pai, pois ser pai é mais que ser mortal ou imortal, é morrer e renascer a cada geração que se sucede como um novo galho no mesmo tronco da Árvore da Vida. Portanto, eram lágrimas de álcool, que ardiam seus olhos e queimavam seu Coração. Eram lágrimas e soluços e uma dose e uma blasfêmia e outra dose e... “Não!!! Um tira-gosto não, pois preciso sentir todo o amargo que existe em meu Coração para poder temperá-lo com o sal de minhas lágrimas. Lágrimas de álcool...”.

Resenha: Administração, poder e ideologia

“Cada vez que na área do político sois chamados de 'meus filhos', a esfera de vossos direitos políticos desaparece.” Maurício Tragtenberg (1929-1998)

Editora: UNESP
Edição: 3ª edição revista, 2005
Sobre o autor: Maurício Tragtenberg (1929-1998) – descendente de imigrantes judeus, foi filiado ao PCB, de onde foi expulso por suas leituras das obras de Leon Trótski. Socialista libertário e autodidata, conseguiu habilitação para prestar vestibular na USP sem ter o primário concluído pela aceitação do ensaio Planificação - Desafio do século XX, sendo aprovado no curso de Ciências Sociais e, posteriormente, no curso de História. Doutor em Política pela USP, título adquirido durante a Ditadura Militar, foi professor de graduação e pós-graduação na PUC/SP, USP, UNICAMP e da EAESP-FGV. Crítico da burocracia acadêmica, foi um dos precursores do estudo da pedagogia libertária no Brasil. Manteve durante vários anos a coluna No Batente para o Jornal Notícias Populares, de São Paulo, além de ter publicado 8 livros e inúmeros artigos em jornais e revistas de grande circulação no país.
Preço: entre R$ 28,80 e R$ 32,00.
Analisando as teorias e práticas administrativas, Tragtenberg apresenta em Administração, poder e ideologia, publicado pela primeira vez em 1976, uma análise de como as organizações se estruturam para assegurarem a harmonia entre seus interesses e os interesses dos trabalhadores, anulando o indivíduo no mundo industrial para assegurar o alcance e o aumento progressivo do lucro. Dividido em 4 capítulos (A ideologia administrativa das grandes corporações; A cogestão e o participacionismo ou "Alice no país das maravilhas"; Exploração do trabalho I; e Exploração do trabalho II), além da Conclusão, o livro demonstra que, na indústria moderna, a liberdade é substituída pela unidade de comando e nesse cenário as relações se dão sob a forma de negociação.
A obra apresenta como se deu o início da escola participacionista na Alemanha, França e Bélgica, e atenta para o fato de que a corporação concentra poder econômico semelhante a um partido político ou à Igreja católica, detendo a hegemonia na sociedade industrial. Analisando o pensamento de Peter Druker, Adolf Berle e outros pensadores das organizações do século XX, Tragtenberg destacou a luta de poder entre trabalho e gerência, escondida sob a manifestação de reivindicação salarial, tornando necessária a neutralização do elemento causador do conflito.
Outro grande obstáculo a ser superado é a participação operária nas decisões da empresa, pois, de acordo com a obra, as organizações buscam mecanismos para evitar que o trabalho usurpe as funções de poder gerencial legitimadas, tornando, segundo Tragtenberg, a corporação cada vez mais antissocial e privatista.
No decorrer da obra, Tragtenberg apresenta o caráter sagrado do chefe, a impessoalidade da organização e a subentendida concepção individualista como fatores marcantes na estrutura hierárquica empresarial. E essas relações hierárquicas utilizam conceitos mecanicistas como forma de evitar colapsos, reduzindo o subordinado à dependência do saber e do poder, da mesma forma como se dá a relação educacional, onde o aluno se ver como ator passivo no cenário que a escola representa.
De acordo com a obra, “relações humanas” é um engodo escondido por trás do diálogo e da participação, que permite à empresa agir sobre indivíduos e grupos para provocar neles as atitudes que lhe convêm, sendo, portanto, simplificadora e idealista, manipuladora e realista, constituindo novo recurso para alcance de maior produtividade do trabalhador.
Nesse ponto, é apresentado o contexto histórico da origem das relações humanas, difusora da não-diretividade, da pedagogia da direção, da solução de conflitos, e da tomada de decisão. Preocupada com a dominação de conflitos, as relações humanas se institucionalizam com a pregação do uso da diplomacia, em detrimento do autoritarismo, nas relações entre capital e trabalho, surgindo, assim, na década de 1950, a humanização do trabalho (França), a humanização na empresa (Itália), e as técnicas de cogestão (Alemanha).


“ceder um pouco de poder aos trabalhadores
pode ser um dos melhores meios de aumentar sua sujeição,
se essa lhes dá a impressão de influir sobre as coisas
(David Jenkins – Job power, Nova York, 1973, p.319-20)”



Tragtenberg concebe a empresa como produtora de excedente de trabalho onde se manifesta a oposição de classes, mas também como aparelho ideológico que extrai do trabalhador aquilo que é mais do que necessário para maior lucratividade. Nesse sentido, o trabalhador se apresenta como apático politicamente, pois o poder da organização fragmenta as classes sociais em indivíduos.
Logo, após o autor apresentar práticas aplicadas em empresas estadunidenses e brasileiras, conclui que o objetivo da organização moderna com o uso das práticas próprias das relações humanas é manipular a mão-de-obra, ocultando conflitos no nível político, para garantir a não divisão do poder. Assim, a obra demonstra que a cogestão e as práticas participativas permitem, além das manipulações patronais, a garantia da paz e da harmonia social e a mutação da sociedade por meio da empresa.

“(...) pagar o mais baixo possível numa organização é pagar com status
(Maurício Tragtenberg)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ocaso

The Raising of Lazarus (after Rembrandt), 1890 - Vincent van Gogh (1853-1890)


O Sol mergulha lentamente nas águas barrentas do Guajará
O Céu se pinta de um laranjado belo e inspirador
- Olha o Pôr-do-Sol, olha o Sol se pôr!


Na água, calma e brilhante, um pequeno barco passa a deslizar
O barulho de seu motor não quebra toda a Harmonia do momento
Mas se junta e completa o cenário, retoca o quadro do Criador
- Olha o Pôr-do-Sol, olha o Sol se pôr!

E ele desaparece lentamente, deixando espaço para Lua & Cia.

Mergulha o Sol nas águas barrentas,
Mergulha deixando caminho aberto para a boêmia
- Olha o Sol se pondo, olha o Sol se pôs!



Belém, Complexo Feliz Lusitânia
21 de Julho de 2009, 17:54
(Dom Aquiles Crowley)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Ei patrão!

Glass of Absinthe and a Carafe - Vincent van Gogh (1853-1890)

“Só eu sei o quanto cresci
conversando contigo
ouvindo teus conselhos 
broncas
experiências de vida
aprendendo a ser mais calmo
mais vivo
mais ativo
e confiante em relação a tudo
e isso tudo advém da tranquilidade
da boêmia
do trabalho duro
do esforço
e da crença de que tudo pode mudar
e mudar pra melhor
orgulho:
é o que sinto profundamente da nossa amizade”

"As guerras vem e vão,mas meus soldados são eternos!" (2Pac)


tomado emprestado de Jota Giordano


Mílicia

Léo Belém, Davi Mesquita, Jota Giordano e @amarildofjunior

“É a designação genérica das organizações militares ou paramilitares compostas por cidadãos comuns, armados ou com poder de polícia que teoricamente não integram as forças armadas de um país.
As milícias podem ser organizações oficiais mantidas parcialmente com recursos do Estado e em parceria com organizações de caráter privado, muitas vezes de legalidade duvidosa. Podem ter objetivos públicos de defesa nacional ou de segurança interna, ou podem atuar na defesa de interesses particulares, com objetivos políticos e monetários.”

tomado emprestado de Jota Giordano

Fora, Temer!