domingo, 3 de junho de 2012

Manifesto da antropofagia periférica


por Poeta Sérgio Vaz, no livro "Literatura, pão e poesia" (Global Editora)



A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.

Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar. Do teatro que não vem do "ter ou não ter...". Do cinema real que transmite ilusão. Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.


Banksy, London, 2011
A Periferia unida, no centro de todas as coisas.

Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? "Me ame pra nós!". Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.



Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.



É TUDO NOSSO!


Van Gogh, a Tragédia e a Cor: An Old Woman from Arles

"...a vida não nos teria sido dada para enriquecer nossos corações, mesmo quando o corpo sofre?"
(Vincent van Gogh, Amsterdam, 9 de janeiro de 1878)

An Old Woman of Arles, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890)   

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Outro dia vi esse texto no facebook...

Atualizado em 04 jan. 2016

... e achei muito legal, afinal, sou leitor assíduo e gosto de, vez ou outra, fazer uma propaganda dos benefícios que isso (a leitura) traz. Não sabia quem tinha escrito o texto, mas, numa googada, o encontrei em diversos sites e blogs e constatei que seu autor é Bruno Palma e Silva, que mantém o blog acepipes escritos. Espero que vocês também gostem do texto e passem a ler mais, ou a namorar mais gente que lê. É mais saudável... e inteligente!

Imagem obtida no site Mães à obra

Namore um cara que lê NAMORE QUEM VOCÊ BEM ENTENDER!!!


"Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos.
Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras.
Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.
Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.
Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo – e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.
Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e – talvez não admita – sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances.
Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência.
Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo.
E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.
Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar – com o coração aquecido – para o seu lado.
Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.
Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouvi-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho.
Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do 'e eles viveram felizes para sempre', namore um cara que lê.
Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve."

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sua-vida-de


Guernica, 1937, Pablo Picasso (1881-1973)

Não quero mais essa suavidade
De liberdade escravizando minha mente
Cansei de viver com olhos fechados pra cidade
E vendo os braços cruzados dessa gente

Não anseio essa
Sua
Vida
De
Submissão demente
Sem rua, sem lida, sem mocidade

Quero melodias em sol maior de revolução,
Um brado lunático que prove
Que este poeta de merda leva no coração
Amor diplomático e fúria-molotov

Desejo ser um enredo de mangue beat,
Lampião zapatista de nossos subúrbios,
Guerrilheiro além de um simples tweet,
Direct message na cara dos momios!

Dá-me asco teu ativismo de sofá,
Sofativismo sem sentido para o amanhã.
Teu discurso-barbitúrico, Rebelde-Lexotan,
Meus versos irão estricninar!

De que vale essa sua vida de ramelão?
Buscai a primavera árabe na chuva amazônica
Que seguirei com irreverência e inquietação
Sendo rueiro, vagabundo e marginal
A pelejar contra a moral babilônica,
Pois já rompi há tempos com o Gardenal.

O bater da água do rio é violento
Ou são suas beiradas que a oprime?
Não se cala a pergunta, mesmo assim permaneço avante
Sob o som do tambor Ashanti
A sonorizar meu movimento
Para fazer tremer quem me subestime

Há quem não entenda minha sinceridade,
Meu sonho de Che Guevara papa-xibé,
Mas continuo em pé
Com fé
                                   E assim permaneço até
Entenderes que não me cai bem essa suavidade.

Belém/Pa, 24 de maio de 2012
(Dom Aquiles Crowley)

Construção (a)poética sobre a saudade



Se quiseres entender
o sentimento que me corrói
Escreves SAUDADE num tijolo,
bate com ele na cabeça
E verás o quanto ela dói!

Belém/PA, 24 de maio de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Van Gogh, a Tragédia e a Cor: Almond Tree in Blossom

"...ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente".
(Vincent van Gogh, Londres, janeiro de 1874)

Almond Tree in Blossom, 1888 - Vincent van Gogh (1853-1890)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

"Não vejo Deus nas igrejas...

...mas em compensação eu vejo em todo o resto".
Ultimamente tenho encontrado e batido de frente com muita gente que tem um pensamento religioso que beira o fundamentalismo radical. Ontem, presenciei uma situação dessas, embora mais velada do que é geralmente, que me deixou constrangido, pois ocorreu com alguém próximo a mim e me senti responsável por ter exposto essa pessoa a isso, embora ela não tenha me dito que foi constrangida (não sei se por educação, ou se porque não se sentiu "arguida").
O fato é que, embora eu não tenha interferido na situação, pois ambas as pessoas são próximas a mim e o contexto em que estavámos não era propício a um debate mais caloroso sobre essas questões, e também não tenha tocado no assunto depois do ocorrido, saí pensando sobre aquela situação, divagando sobre posturas relacionadas às questões de crença e fé. Foi durante essa minha divagação que passei em frente ao Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves e vi um bando de macaquinhos pulando nos galhos das árvores e no muro que fica no lado da Avenida Almirante Barroso, do qual fotografei com meu celular um dos símios. No momento, veio imediatamente na cabeça esse verso da música Santo Amaro da Purificação, do rapper paulista Emicida, que utilizei como título e legenda da imagem dessa postagem.
A conclusão que chego é a seguinte (e mais uma vez uso Emicida para demonstrá-la, dessa vez com um tweet postado ontem à noite): "julgamento: quando você menos espera, você já fez ( e não raro, fez errado)". Até quando teremos gente utilizando (ou se escondendo por atrás da) a bíblia como Manual de Caça a "Pecadores"? Fica a reflexão!!!!

Fora, Temer!