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terça-feira, 8 de março de 2011

A religiosidade na música d'O Rappa - Parte 1: Catequeses, Candidatos e Pescadores

   
“o rappa-mundi. universo onde: a diáspora, botecos, camelôs, ervas que curam e acalmam, glauber, joão saldanha, certos ditos populares, poesia dos vestígios, praias urbanas, despachos ecumênicos, ritmistas, etc... interagem com: o mega point, waly salomão, leonardo boff, diversões baratas ou emprestadas, ‘mexânicos’, comunidades virtuais, fábricas de esperanças, sebos, brechós, a corriqueira presença da violência e os olhos de iara lee. divirtam-se!” marcelo yuka
A banda carioca O Rappa é muito associada à sua atuação social e política, onde, além de manter trabalhos de Assistência Social, suas músicas são caracterizadas por letras fortes que refletem sobre a realidade do país e mostram-se como instrumentos de protesto. Com um estilo poético e musical próprio e ímpar, a banda consegue expor e falar do social de uma maneira singular, utilizando-se do contraste entre a intelectualidade e o modo simples de viver das pessoas da favela, o que deixa sua poesia rica e sofisticada, mas apresentada em uma embalagem bruta, marcada pelo uso de dialetos populares, apresentando ao mundo a riqueza cultural presente na favela, ainda que, para tanto, sejam requeridos esforços para tornar isso compreensível. Entretanto, nesse primeiro texto de uma série de quatro postagens, iremos retratar outra face dessa banda: a abordagem religiosa presente em suas letras.
Desde o inicio da banda, O Rappa carrega em sua identidade o DNA da mistura: de ritmos, de cores, de crenças. Essa mistura faz com que a banda possua originalidade em seu som, implicando aos críticos a boa dúvida sobre qual o estilo musical da banda (RAP, reggae, rock, rapcore, etc.), afinal, ela coloca em sua musicalidade riffs de guitarra, acordes pesados e, ao mesmo tempo, tons harmônicos de baixo, samplers, pontos cantados, vocais que se metamorfoseiam durante o entoar das canções, dentre outras experimentações, que tornam seu som um verdadeiro coletivo de ritmos. Particularmente, considero que a banda está inclusa como uma das principais precursoras de uma revolução da música nacional contemporânea, onde temos outros expoentes, como Racionais MC’s, Sabotage, Chico Science & Nação Zumbi, Black Alien, Planet Hemp, dentre outros. E, dentro dessa mistura, encontramos o lado religioso junto a outros temas abordados nas letras de suas composições.
Capa do CD O Rappa, 1994
Já em seu primeiro álbum, intitulado O Rappa (1994), a banda, formada inicialmente pelos músicos Marcelo Yuka (bateria), Alexandre Meneses (guitarra) - conhecido por Xandão, Nelson Meirelles (baixo), Marcelo Lobato (teclado, vocal e sampler) e Falcão (voz), demonstra essa característica. Muito embora a maioria das 16 faixas do disco carregar o lado social e político em suas letras, já encontramos em músicas como Catequeses do Medo, Brixton, Bronx ou Baixada, Candidato Câo Câo e Mitologia Gerimum a manifestação da religiosidade que, com o passar do tempo, vai se tornar mais visível e forte. A primeira música citada, por exemplo, além de criticar os mecanismos utilizados para manter a população submissa, utiliza a palavra catequese de forma metafórica, sendo tal mecanismo de utilização de metáforas religiosas como forma de protestar e refletir a realidade social recorrente na obra da banda. Além disso, durante a música são inseridos trechos de cultos religiosos diversos para tornar essa metáfora mais tangível.
Em Brixton, Bronx ou Baixada, 5ª faixa do disco, a religiosidade se apresenta mais forte, embora ainda seja utilizada para criticar metaforicamente a realidade. Em seus versos, pergunta-se “porque aprendemos tão cedo a rezar?” e “porque tantas seitas têm aqui seu lugar?”, indagações que são fruto da reflexão sobre as diferenças sociais, representadas aqui pelas diversas religiões, dentre as quais é exaltada na música a macumba (sic), religião afro-brasileira onde a poesia “se converte pelas mãos no tambor”. Nessa música, a banda demonstra a igualdade dos problemas sociais presentes não só no Brasil, mas também fora dele ao citar famosos guetos britânico, estadunidense e brasileiro, respectivamente Brixton, Bronx e Baixada Fluminense. A banda também apresenta como a religiosidade se mostra no imaginário popular: única forma de alento, onde os toques dos tambores são o único socorro promissor. Aqui nessa música já se mostra o espírito de coletividade que a banda carrega, onde são louvados diferentes ritmos musicais e, mais na frente, precisamente no ano de 2005, em seu Acústico MTV, a nova versão da música cita outras religiões, dentre as quais o candomblé e a religião católica, terminando com toques de tambores, remetendo, novamente, às religiões de matriz africana.
Candidato Câo Câo (11ª faixa), música de autoria de Walter Meninão e Pedro Butina e com participação especial do saudoso sambista Bezerra da Silva, traz, mais uma vez, a crítica a um problema social, desta vez a demagogia do político brasileiro em busca de votos. Entretanto, a religião vem em socorro do seu devoto, intervindo e desmascarando o farsante. A faixa que vem logo em seguida, Mitologia Gerimum, carrega versos que remetem ao imaginário religioso brasileiro, citando São Cristóvão, Padre Cícero e Frei Damião, e também traz o amor à ingrata terra natal. É a fé que fortalece o espírito daquele que sai de seu lugar para buscar a felicidade em outro chão.
Capa do CD Rappa-Mundi, 1996
No segundo álbum da banda (Rappa Mundi – 1996), agora com Lauro Farias no baixo no lugar de Nelson Meirelles, a religiosidade se manifesta nas músicas Ilê Ayê (4ª faixa), Hey Joe (5ª faixa), Pescador de Ilusões (6ª faixa) e Uma Ajuda (7ª faixa). Ile Ayê traz a religiosidade em seu título, uma vez que Ilê é a casa onde o culto das religiões afro-brasileiras é realizado e Ayê é o mundo em que vivemos, em contraposição ao Orum, mundo dos deuses. Música composta por Paulinho Camafeu, ela exalta a etnia negra: sua malandragem e sua filosofia. Também há nessa música um resgate do imaginário religioso brasileiro ao citar Santa Luzia, santa protetora dos olhos. Já em Hey Joe, versão elaborada por Ivo Meirelles e Marcelo Yuka da música composta por Bill Roberts e gravada por Jimi Hendrix, retrata um homem que busca fazer sua história pelo uso das armas. A religiosidade se faz presente aqui quando Marcelo D2, em participação especial, canta o seguinte verso (...) “armamento pesado, corpo fechado eu quero é mais vê (...)”, pois a expressão “corpo fechado”, no candomblé, significa que uma pessoa está protegida contra os males do mundo, em especial acidentes, moléstias, armas, venenos, enfim, aqueles que possam comprometer a integridade do corpo, sendo essa proteção obtida junto aos santos, cablocos e orixás.
Pescador de Ilusões é a faixa que mais apresenta traços de religiosidade dentre as músicas do 1° e 2° disco da banda. Presente no inconsciente coletivo brasileiro, sua letra fala sobre o ato e sacrifício de dobrar os joelhos frente às coisas nas quais temos fé. Também fala da ilusão, que consiste em um erro de percepção, nos parecendo como realidade, e que está presente em cada momento da vida, onde a “pescamos” e nos descobrimos. Ainda há a possibilidade de que, ao falar sobre isca e anzol na primeira estrofe da música, o eu-lírico esteja estabelecendo uma relação com a expressão “não temas; doravante serás pescador de homens”, supostamente, segundo o Novo Testamento da bíblia cristã, utilizada por Jesus Cristo ao chamar Pedro para segui-lo. Além disso, na última estrofe da música é citado “um livro sem final” do qual o eu-lírico cogita em catar as palavras, que pode ser interpretado como o Evangelho, pois este vem se mostrando cada vez mais sem um final claro, descobrindo-se um pouco mais sobre ele a cada dia.
Por outro lado, Uma Ajuda apresenta em um de seus versos a relação ciência-religião, separada por uma parede bem tênue, um (...) “muro fino entre a ciência e Deus” (...), o que caracteriza, mais uma vez, a presença do pensamento religioso na obra da banda, agora em contraposição ao pensamento racional-científico. Convém citar que muitas vezes o pensamento racional tira o sentido poético e religioso presente na criação humana, e isso deve ser considerado inclusive ao se fazer juízo sobre a forma como interpreto parte da obra d'O Rappa. Ainda desse disco, deve-se considerar alguns trechos da música O Homem Bomba (10ª faixa), como a alusão à transformação do sangue em vinho, na primeira estrofe, e o verso (...) “em meio a salmos, alvos e contas” (...) - neste verso, o uso da palavra conta pode estar associado tanto àquelas que devem ser quitadas, quanto às contas de um rosário -, entretanto, acredito que, embora se possa ver um pouco de referência à religião nesses dois trechos, a intenção principal da música é retratar não apenas a violência que, em certos corações, não se separa da diversão ou da religião (daí o título da música e o uso da palavra salmo, remetendo aos homens-bomba do Islã), mas também a condição do proletariado brasileiro, que a cada fim de mês inicia seu processo de explosão em busca de uma forma de sobrevivência e subsistência.

Próxima postagem em breve... 

Editado em 01 set. 2014.

Fora, Temer!